Entrevista

José Falero pergunta: Porto Alegre é democrática?

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José Falero pergunta: Porto Alegre é democrática? Imagem do ensaio fotográfico de Tânia Meinerz

Há pouco mais de 34 anos que ando por aí, em cima do chão e debaixo do céu. Sem dúvidas apenas um mero instante, de uma perspectiva histórica. Não estava nas ruas nas Diretas Já, muito menos amarguei o contexto sociopolítico iniciado no Golpe de 64 e menos ainda experimentei o que veio antes disso. Minhas três décadas e meia de vida, porém, foram suficientes para que eu pudesse observar uns e outros aspectos da sociedade ao meu redor, bem como pude reparar na dinâmica desses aspectos. Por exemplo, considerando o período desde o meu nascimento até agora, não sou capaz de recordar uma outra época em que a palavra “democracia” tenha estado tão em voga como nos últimos anos. Em outra conjuntura, esse bem que poderia passar por bom sinal: um sintoma de crescimento da consciência política geral, talvez. Infelizmente, não parece ser o caso. Parece, inclusive, algo próximo do contrário: justamente quando mais se fala em “democracia” é que ela parece mais ameaçada do que nunca (ou pelo menos mais ameaçada do que jamais esteve desde a redemocratização).

Mas, cá entre nós, creio que, enquanto seres humanos, sempre temos direito às perguntas todas, e eis aqui uma questão que me parece pertinente: essa tal democracia que tanto prezamos e em cuja defesa tanto lutamos é mesmo uma realidade? E se é uma realidade, é uma realidade onde? É uma realidade para quem? Nós, porto-alegrenses, gabolas convictos, podemos nos gabar de viver em uma cidade democrática?

É justamente esta última pergunta que fui fazer a diversas figuras que têm sua história pessoal atravessada pela capital gaúcha. Confere as respostas aí:

Marlon

Mano

Não existe democracia pra gente preta. Ainda mais aqui no sul Porto Alegre. Tá maluco. Vai na feira do livro pra tu ver o que mais tem é livro do Hitler. Duas palavras Tudo errado. 

Mano

Não vou me alongar já basta tu de palestrinha mas como diria Dona Terezinha minha avó de 90 anos

Minha faculdade é os anos que eu tenho

Geral acha que Porto Alegre é Bom Fim Cidade Baixa e Centro Histórico e deu

São várias e várias camadas

Marlon Pires Ramos, 1992, é escritor poeta. Em 2017 começou a escrever seus textos e poesias no Facebook. Chamou a atenção de grandes nomes da literatura gaúcha como Ronald Augusto e Eliane Marques. Em 2018 participou da revista Ovo da Ema, sua primeira publicação. Também em 2018 começou a participar da produção da Festipoa Literária, festival literário de Porto Alegre, e da Balada Literária, festival literário de São Paulo. Em 2019 lançou seu primeiro livro de poesias, chamado Marlírico.


Rúbia

Porto Alegre cumpre requisitos formais da democracia. Por exemplo: escolhemos nossos e nossas representantes por meio do voto, universal e secreto. Contudo, se penso na democracia como uma forma de vida, como um modo de exercer a cidadania, de acessar direitos, então a cidade deixa muito a desejar. Somos a capital com a cesta básica mais cara do país, quando muitos estão em insegurança alimentar, vulgo “passando fome”. Sou professora de EJA e sei que a educação é um direito a qualquer idade. Mas nossos governantes insistem em fechar turmas dessa modalidade. Por outro lado, Porto Alegre tem um histórico admirável de mobilização: coletivos políticos, organizações da sociedade civil, militantes que atuam em causas de suma importância para a cidadania plena — transporte público, moradia, educação, sustentabilidade; igualdade de gênero, luta antirracista etc — e que com suas lutas avançam na tarefa de ampliar e fortalecer a democracia.

Rúbia Vogt é professora de Filosofia na Educação de Jovens e Adultos do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


Manu

Eu acredito que o Brasil — e Porto Alegre inserida nesse contexto — cada vez tem a democracia mais fragilizada, não só pelas permanentes ameaças feitas formalmente pelo presidente e por todos aqueles que o apoiam, como é o caso do vice-prefeito, mas porque há uma dificuldade muito grande das instituições em mediar essas relações. Aconteceu durante a eleição municipal como aconteceu durante a eleição presidencial: amplo volume de disseminação de mentiras e desinformações e total ausência de atitude do poder judiciário com relação a elas. Então, sim: eu acho que nós somos um país com uma democracia cada vez mais fragilizada, portanto um país menos democrático, e Porto Alegre também, uma cidade cada vez menos democrática em função disso.

Manuela d’Ávila é jornalista e mestre em políticas públicas. Foi a vereadora mais jovem de Porto Alegre, deputada federal mais votada do Brasil e deputada estadual mais votada  em 2014.  Concorreu à vice-presidência do país, em 2018. Fundou o Instituto E Se Fosse Você, voltado ao combate das fake news e redes de ódio. Lançou três livros: Revolução Laura, Por que lutamos? Um livro sobre amor e liberdade (também foi traduzido para o espanhol) e E Se Fosse Você? Sobrevivendo às redes de ódio e fake news. É organizadora e autora da coletânea Sempre foi sobre nós: relatos da violência política de gênero no Brasil.


Dani

Sucateamento e privatização, esses são os imperativos para a saúde, a educação, os espaços culturais nos últimos anos e, num piscar de olhos, os nossos direitos adquiridos são brutalmente esmagados. A falta de vontade política, a falta de fomento e mais que isso: as faltas de acesso à cultura refutam a ilusão de democracia e brutalmente usurpam a soberania popular. Democrática? Não. Porto Alegre não é uma cidade democrática.

Neste município, para ser exercido o regime democrático, a comunidade artística deveria ser respeitada e exercer sua profissão dignamente. Deveriam existir, efetivamente, leis de incentivo à cultura. Deveria haver liberdade para se manifestar sem ser marginalizada. É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independente de licença ou censura. No entanto, atuamos em uma cidade antidemocrática que fere esse direito cada vez que saímos às ruas e somos presos, quando temos nosso material extraviado, a cada exposição fechada arbitrariamente, a cada sirene intimidando nosso fazer teatral legítimo.

Deveríamos ter espaço para trabalhar. Me refiro especialmente a espaços como a Usina do Gasômetro, fechada há quatro anos, um espaço cultural da cidade que deveria ser para a cidade. Tudo isso me dói, tudo isso nos destrói. A pandemia nos machucou em todos os aspectos, mas esse espaço já estava fechado; repito, porque a repetição é essencial para a aprendizagem: fechado há quatro anos.

Falo como artista e, especialmente, como cidadã; minha arte é criar, sou artista de rua e me defronto diariamente com uma cidade que não oferece o mínimo para sua população; grandiosos prédios ociosos e uma população absurdamente grande e crescente em situação de rua. Prédio ocioso não cumpre seu papel social. Que, então, eu possa repelir esse regime elitizado, branco, mesquinho e opressor. Porque meu fazer artístico é minha única proteção contra a violência e a arbitrariedade. Confio que não estou sozinha nesse fazer, que, não por acaso, outras pessoas também gritem, desvendem essa mentira que nos contaram em dois mil e dezoito, quando elegeram “democraticamente” os ricos, os assassinos, os inimigos do povo, o genocida.

Danielle  Rosa é atriz, professora, facilitadora cultural e educadora social, formada pelo Departamento de Arte Dramática da UFRGS. Integrante e fundadora do coletivo Cambada de Teatro em Ação Direta Levanta FavelA. Participante da projeto Usina das Artes localizado na Kza Terezinha, no Bairro Santana. 


Ana

Fui militante do Psol em cada passo que dei na cidade desde que ele foi fundado e, neste momento, de longe, não me sinto muito menos militante do partido, porque minha atuação sempre foi mais nas relações sociais que perpassam minha vida que propriamente setorial ou na engrenagem partidária. De fato neste momento vivemos o 7° Congresso e as questões da democracia interna sempre tensionam o debate. Para citar um aspecto que, na sua fundação, pra mim foi dos mais democráticos, é que as pessoas imigrantes temos direito a voto e cargos no partido sem os impedimentos xenófobos que são impostos aos “estrangeiros” no que se refere ao Estado em geral (ignoro se é assim também nos outros partidos, talvez sim). Por exemplo, o estatuto do Grêmio Estudantil, para o qual fui eleita presidente, impedia imigrantes não naturalizados de tal posto, a direção da escola perseguia nossa chapa mas não atentou a esse detalhe, talvez até peçam o terceiro “impeachment” agora lendo isto depois de 20 anos…

Quando mencionaste “democracia” pensei: “Que amigo da onça…”. Porque partidos, jornalistas, quilombos, juristas, coletivos inteiros estão discutindo, à força da atual conjuntura brasileira, justamente a democracia ou, melhor, a defesa dela. Então vou me aproveitar da pergunta ser direcionada a Porto Alegre e focar no aspecto (gigante) da democracia política de mais longo prazo, diretamente ligada ao social. Pra mim a ocupação da cidade pela maioria de sua população é uma premissa de democracia, e é justo aí que Porto Alegre me parece apenas formalmente democrática. Vou tentar mencionar minha experiência singular pra não discorrer sobre categorias que não domino teoricamente. Sempre comento com amigos que considero a capital uruguaya, Montevideo, mais democrática espacialmente (cada vez isso está mais discutível), porque sempre houve uma atenção maior a praças públicas, as pessoas encontram uma praça muito bem ou minimamente cuidada com mais frequência do que se pode encontrar em Porto Alegre, forçando a barra e metendo perna acredito ser possível aproveitar a rambla, que atrai turistas do mundo inteiro, na impossibilidade de tomar uma condução, claro que falamos de duas cidades capitalistas com suas desigualdades que concentram renda em determinadas zonas e um contingente da população sempre será deixada à margem do usufruto da cidade, mas mais investimento em espaços e políticas públicas geram impacto democrático apesar da exclusão endêmica do sistema.

Quando cheguei em Porto Alegre, aos 8, e fui inscrita na escola pública, ela ficava na região cêntrica (a escola Rio Grande do Sul que, num exemplo de política antidemocrática, aí no âmbito estadual, e de desinvestimento público foi fechada recentemente mesmo em contrariedade com a sociedade e depois de uma ocupação contra o fechamento) portanto, no turno diurno, boa parte das coleguinhas de turma era branca e suas famílias com um poder de consumo digno, mas precisou consciência socialista e, recentemente, consciência negra para rememorar a escola com esse corte social.

É sobre um aspecto da ocupação da cidade, o direito de ir e vir nela, que se deram minhas experiências de como a democracia é limitada na cidade, quando o assunto toca interesses poderosos. Quando em junho 2013 o Brasil foi sacudido pelas mobilizações contra o aumento das passagens, fazia anos que um grupo menos numeroso composto pela esquerda não governista e coletivos independentes, assim como entidades estudantis, nos manifestávamos, com panfletos e diálogo corpo a corpo com os usuários do transporte público denunciando os aumentos abusivos assim como suas péssimas condições, não que fosse ignorada por alguém essa realidade, o que se ignora é que só com luta se melhora a vida, embora nos façam acreditar em concessões, sempre há um lastro de pressão social em cada direito. O deslocamento do povo portoalegrense ser decidido e dominado por meia dúzia de mãos privadas, que durante décadas operaram sem licitação e cujos dados contábeis são fornecidos parcialmente, não me parece nada democrático, e o fato de haver um conselho composto por quase 20 entidades que vote o aumento da passagem todos os anos prova como o poder econômico pauta nossa “democracia” e como os aparelhos democráticos devem ser constantemente atualizados e fiscalizados para não terminar por ser a corroboração do poder de poucos.

Durante esses protestos fomos brutalmente reprimidos pela polícia por ocupar as ruas, a ironia é que o pretenso motivo da repressão seria: “impedir o direito de ir e vir”, como se o “direito de ir e vir” estivesse mais ligado a um trancaço de 2h em um par de ocasiões do que a um preço exorbitante do transporte todos os dias do ano… O processo antidemocrático em relação ao transporte transpassou diferentes governos e, agora, num governo sabidamente contra o povo, se chega à beira de privatizar a única empresa pública da cidade e extinguir a função do cobrador que para os patrões é um gasto descartável e para passageiros e motorista sempre foi imprescindível. Poderia discorrer cenas sobre falta de passagem próprias e alheias, o drama contido nelas, mas fico com uma cena  que vi por contar algo e não ficar na amargura. Estava no ônibus TV indo trabalhar (já atrasada), subiu uma senhora com o netinho de colo duas paradas em seguida do ponto de partida, daqui a pouco ela percebeu que estava sem a mamadeira da criança e não poderia ir pro centro sem a coisa. Desceu. Lá pelas tantas (havia rodado bastante mesmo) o cobrador percebeu que a mamadeira havia caído e rolado pelo chão do ônibus, o motorista deu volta e chegou em tempo de pegar a senhora subindo uma lomba, esta tomou o coletivo novamente. Foi o atraso mais justificado da minha vida.

Quando evoco a Porto Alegre da Esquina Democrática, do Fórum Social Mundial, do Orçamento Participativo, claro que a cidade tem um histórico de elementos democráticos que dependem de quem governa fomentá-los mais ou menos, mas são limitados.

Agora estou em Paris, mas minha permanência foi negada pela administração francesa. Há algum tempo, numa das ruas mais movimentadas do centro, uma abordagem policial interpelou um jovem negro para checagem de documentos, diferente do que poderia ser, mas não é, a ação foi truculenta, agressiva, humilhante. Parei, indocumentada, pra testemunhar a ação, o capitão da coisa nos questionou e mandou vazar de maneira humilhante também, ficou parado à nossa frente, meu namorado respondeu em francês e eu continuei fixa e muda até a tirania acabar, quando o rapaz foi liberado caminhamos nós, eu e ele, indignados, humilhados.

Assim como em Porto Alegre, em Paris se vota, aqui a cidadania pode participar de inúmeros processos decisórios, pode reclamar da administração, são formalmente democracias, mas prefiro ficar com uma acepção muito mais profunda do que é democracia, essa palavra tão forte que lutou e luta contra ditaduras horrendas mas que também promete muito mais, essa acepção que o povo deu e vai muito além da natimorta democracia burguesa, a que trata de direitos respeitados e liberdade garantida, e, no campo da esquerda, que progride a passos gigantes no imaginário de uma juventude inventiva e de uma velha guarda renovada.

Ana Campo nasceu em Paysandú, La Heroica, Uruguay. É militante do Psol. Formada na Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. Trabalhadora comerciária. Fatalmente migrante por um motivo ou outro.

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