Entrevista

José Falero – Todo vontades

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José Falero – Todo vontades Foto: Josemar Afrovulto

A notícia já está correndo mundo: o Falero vai lançar seu terceiro livro. É de novo pela poderosa editora Todavia e se chama Mas em que mundo tu vive? 

Nome poderoso, porque de cara lembra que este mundo é variado, assinala o uso do porto-alegrês na flexão econômica do verbo e tem um som de pergunta perplexa, feita por alguém que se espanta. E se espantar com o mundo é fundamental, mais ainda para um livro de crônicas.

Crônicas que não renunciam nunca a pensar com agudeza crítica sobre vida cotidiana de gente que vive na periferia, nem abrem mão de rir do grande e bastante ridículo espetáculo da vida. 

O que aqui se vai ler é uma conversa aberta, creio que se poderia mesmo chamar de papo reto, pessoal e intransferível: nos tuteamos. Perguntador e perguntado têm convivido já há uns dois anos, na maior parte do tempo produzindo a Parêntese. E foi esse o lastro das perguntas e das respostas.  

Ver brotar e se consolidar a literatura do Falero tem sido um grande prazer, pessoal, pela proximidade e pelo afeto, e intelectual, pela força de seus textos, precisos, íntegros, vocacionados para dizer o mundo, não apenas para distrair o ferro do suplício. 

PARÊNTESE – Que coisa boa saber do novo livro! E que coisa legal saber que a Parêntese esteve envolvida no processo! Tu pode contar algo desse envolvimento, para a gente ficar mais feliz ainda?

José Falero – Não é rasgação de seda: as pessoas mais queridas e mais próximas de mim — e tomo a liberdade de te incluir entre elas — sabem o quanto a Parêntese foi, é e sempre será importante na minha história. E essa importância não tem a ver só com o livro novo: abrange outras coisas. Por exemplo, antes da pandemia, quando eu era convidado pra ir falar em eventos por causa do Vila Sapo, sempre aparecia alguém pra me dizer que lia os meus textos na Parêntese: a revista impulsionou o meu trabalho até horizontes que possivelmente eu não teria conseguido alcançar de outra maneira. Mesmo a publicação de Os supridores passa pela Parêntese, porque foi lendo a revista que o Leandro Sarmatz, meu editor na Todavia, conheceu o meu trabalho e, a partir do contato que estabelecemos desde então, decidimos publicar o romance. Numa esfera mais pessoal, trabalhar aqui contribuiu muito no meu desenvolvimento como escritor e como pessoa, porque trabalhar aqui, pra mim, tem sido sinônimo de encarar novo desafio após novo desafio. Lembra do que eu te falei quando a gente se conheceu e tu me convidou pra escrever crônicas na Parêntese? Eu nem sequer sabia o que era uma crônica; tu teve que me explicar. E, de lá pra cá, tenho tido, aqui, a liberdade de tentar aprender, na prática, o que afinal é uma crônica e como afinal se escreve uma crônica. Também me meti a fazer entrevistas, de vez em quando. Sem contar os trabalhos de bastidores, com os quais também tenho aprendido muito. Em relação ao livro novo, especificamente, dizer que “a Parêntese esteve envolvida no processo” me parece pouco. Na verdade, Mas em que mundo tu vive? é o conjunto das crônicas que escrevi para a Parêntese nos últimos dois anos; é o resultado direto da oportunidade que tive aqui na revista: oportunidade de experimentar, de tentar, de aprender.


P – Entre as crônicas que saíram na revista, muitas das quais estão no novo livro, e as tuas postagens no facebook, que diferenças existem? Na tua percepção são duas modalidades de texto muito distantes?

JF – Ultimamente ando desleixado nas redes sociais, porque tenho tido muitos afazeres e não tem me sobrado tempo pra nada. Na maioria das vezes, então, entro nas redes só pra verificar as notificações: alguém que tenha me marcado em alguma coisa, alguém que tenha me mandado uma mensagem etc. Raramente tenho tempo de ficar passeando no feed, e mais raramente ainda tenho tempo de interagir com as publicações dos amigos e dos perfis que admiro, de modo que hoje, quando escrevo algo lá, quase sempre é apenas um pequeno comentário simples ou uma legenda de meme. Mas nem sempre foi assim. Houve uma época em que eu gastava tempo e energia consideráveis nas redes sociais. Nessa época — e na verdade não faz muito tempo —, tudo era motivo pra eu escrever textões por lá. Eu escrevia textões em comentários ou posts pra corroborar ou contrapor argumentações de amigos ou de desconhecidos em tretas ou em posts amenos. Escrevia textões pra falar sobre um filme que eu vi ou sobre um acontecimento político. Escrevia textões para dar feliz aniversário. Escrevia textões pra agradecer pelo feliz aniversário que me deram. E a atenção que eu tinha com cada um desses textões era idêntica à atenção que eu teria ao escrever uma crônica para a Parêntese ou ao escrever um trecho de romance. Eu levava a sério. Não sei escrever de outra forma. Levo horas, literalmente, pra escrever uma resposta como esta que estou te dando aqui. Pra tu ter uma noção, eu não escrevia nada diretamente nas redes sociais; em vez disso, eu criava um novo arquivo de texto no meu computador e escrevia nele; depois revisava, reescrevia, modificava, ajeitava etc.; só depois de todo esse processo eu copiava o texto e colava em um novo post ou comentário nas redes. Então, pensando no modo como eu produzia aqueles textões, não há nada de diferente em relação ao modo como produzo qualquer outro tipo de texto. Mas pensando em termos de modalidades, que foi o que tu propôs, eu acho que havia oscilação. Alguns textos se aproximavam muito da crônica; outros eram mais ensaísticos; e outros ainda eu classificaria como contos. Alguns dos contos que compõem o Vila Sapo, inclusive, foram antes publicados no meu perfil no Facebook — não só o Um otário com sorte, que transita entre o conto e a crônica, mas também o Aconteceu amor, por exemplo, que é totalmente ficcional, totalmente conto de qualquer ângulo possível. E só não tem texto que eu classificaria como romance no meu perfil do Facebook porque a plataforma não permitiu. Uma vez tentei postar lá um texto gigantesco que eu tinha, chamado O sexto, mas era grande demais e dava erro. Um tempo depois tentei publicar outro texto gigante, e novamente o Facebook não permitiu; esse texto era Os supridores, que tentei publicar lá como um post qualquer.


P – Tu tem trabalhado como editor na revista, agenciando textos, revisando, pensando sobre eles. Esse trabalho tem algo a ver com o livro, agora? Como?

[Continua...]

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