Entrevista

Luís Augusto Fischer entrevista Éder da Silveira

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Luís Augusto Fischer entrevista Éder da Silveira Foto: Divulgação/Editora Zouk

Sobre o lançamento do livro sobre Benjamin Péret, Horas brasileiras

Luís Augusto Fischer – A figura de Benjamin Péret é fascinante por vários motivos: interiorano que busca a cidade grande, francês que quer a revolução, europeu que se faz próximo do Brasil. Por onde começa o teu interesse nele?

Éder da Silveira – O meu primeiro contato com o Benjamin Péret é graças ao Robert Ponge. Nos anos 1990, o Mário Maestri e ele organizaram um belo volume, pela Editora da UFRGS, do ensaio do Péret sobre o Quilombo de Palmares. Li à época, guardei o livro com carinho e vida que segue. No começo dos anos 2000, pesquisando sobre o modernismo brasileiro, bati com algumas referências ao Péret, especialmente por parte do Oswald de Andrade, meu santo de cabeça. Foi mais um estalo. Há alguns anos decidi voltar ao Péret e fazer um levantamento mais cuidadoso do que já se tinha publicado sobre ele. Constatei que muito do que ele escreveu sobre o Brasil seguia intocado ou pouco explorado e resolvi pesquisar esse material com mais atenção. Juntei o material e li sem pressa. Acabei fascinado com as relações dele na Europa, com a vida acidentada; dividida entre a França, o Brasil, a Espanha e o México e, claro, com a peculiaridade do olhar dele sobre as culturas americanas.   

LAF – O centro do teu livro é a relação do Péret com o Brasil. Que Brasil ele viu? 

ES – Ele é um observador bastante privilegiado, até porque viu dois momentos do Brasil, bastante distintos entre si e, em cada um desses momentos, várias partes diferentes do país. A primeira estada do Péret no país se deu entre 1929 e 1931 e ele ficou mais concentrado no eixo Rio-São Paulo. Recém casado com a cantora lírica Elsie Houston, também ela uma personagem incrível e um tanto trágica da nossa história, Péret chega ao Brasil em fevereiro de 1929. Deu tempo de acompanhar o carnaval daquele ano. O Brasil daquela época era tenso, passava por transformações políticas importantes. Ele viu, por exemplo, a ascensão de Vargas ao poder, presidente que acabou por ordenar a expulsão de Péret do Brasil por conta de sua militância política. Ele viu um país em transformação, mas não pode acompanhar os desdobramentos dessa modernização do Brasil, pois foi preso e expulso em 1931. Voltou em 1955, permanecendo aqui até 1956. Definitivamente, o Brasil era outro. No auge do entusiasmo pela modernização, Governo de Jucelino Kubitschek, ainda que a sua estadia não tenha sido apenas no eixo da bossa nova. Nessa segunda viagem ao país, bateu perna. Foi ao nordeste, aos postos do SPI (Serviço de Proteção aos índios) e procurou conhecer melhor o “Brasil profundo”, para usar uma expressão manjada. Desta segunda viagem saíram estudos importantes sobre os indígenas brasileiros, sobre os ceramistas, sobre cultura popular, sem contar o seu texto mais conhecido no Brasil, que é o ensaio sobre o Quilombo de Palmares. 

LAF – Com quem ele se relacionou aqui? 

ES – Bom, o seu elo mais forte com o Brasil foi a sua esposa, a cantora lírica e etnomusicóloga Elsie Houston. Personagem interessantíssima, cresceu com um pé na música erudita e outro na música popular, em uma casa muito frequentada por músicos e intelectuais. Pelas mãos de Elsie, conheceu a turma de Mário Pedrosa, de quem Elsie era cunhada e com Pedrosa vieram Lívio Xavier, a família Abramo e alguns modernistas mais velhos, como Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Em quase três anos no Brasil (1929 a 1931), Péret conheceu muita gente que já estava estabelecida no meio cultural brasileiro e muita gente que seria importante alguns anos depois. Teve lá seus atritos, também. O Murilo Mendes conta em um ensaio famoso, sem dar o nome de Péret, que ele teria saído no tapa com Ismael Nery, que muito carola, se sentiu ofendido com alguns comentários blasfemos do ateu militante Péret.

LAF — Como foi a produção do livro?

ES – Poderia te dizer que foi no clima daquela máxima latina, recuperada com ironia marota pelo outro Benjamin, o Walter: “nulla dies sine linea. Às vezes, semanas…”. Como não se tratava de um projeto que tivesse prazos a cumprir, não é uma tese ou algo assim, escrevi aos poucos e sem pressa, somente pelo prazer de ir montando as peças sobre as relações do Péret com o Brasil e com o México, que deveria ser uma nota e virou um capítulo. A reunião das fontes também foi um pouco demorada. Além dos livros sobre o tema que fui acumulando e das horas que passei remexendo a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, precisei contar com a generosidade de vários amigos. O Robert Ponge me ofereceu vários documentos importantes, o Emerson Giumbelli me deu uma cópia de um conjunto de textos do Péret sobre candomblé e macumba que é uma jóia, a Paula Abramo me ajudou a acessar um material importante sobre o Péret no México e assim foi sendo montada a base do ensaio. Em um determinado momento, acho que isso é bastante comum, resolvi colocar o ponto final, até porque não queria que fosse excessivamente acadêmico na linguagem e também não queria que fosse muito extenso. A minha intenção é antes apresentar uma visão de conjunto sobre o autor do que dialogar com os especialistas na sua obra. 

LAF – Qual é o lugar do credo revolucionário dele hoje? A vanguarda (mesmo a surrealista) virou apenas um estilo, como disse o Ricardo Piglia? Ou ela tem lenha pra queimar? Se sim, que lenha se descobre na trajetória e na obra do Péret?

ES – O Benjamin Péret viveu o apogeu dos grandes projetos de transformação que marcaram o século XX. Lutou ao lado dos trotskistas pela revolução e ao lado dos surrealistas pela poesia e pela arte. Lutava por isso sem jamais aceitar que a poesia estivesse a serviço da política. Não há em Péret respostas fáceis, algo que me encanta. Como o meu papo com o poeta passa muito pela sua produção ensaística, eu acredito que ele é um autor fundamental para os tempos que vivemos por aqui. Ajuda a pensar em alternativas (políticas, artísticas e, vá lá, existenciais), a desnaturalizar certas questões. Deixe eu tentar puxar alguns exemplos. Em meio a uma onda conservadora tenebrosa, com uma influência inaudita da religião na nossa vida pública, (basta pensarmos na PL 1904/24), deveríamos lembrar do anticlericalismo visceral de Péret. Tudo o que a ele cheirasse a carolice, despertava a sua fúria. Isso, no entanto, não o impedia de olhar de modo inteligente para os cultos de religiões afro-brasileiras, onde percebia a junção da beleza estética com o grito de revolta dos descendentes de africanos escravizados, alguns dos quais ele conheceu nos ritos de candomblé. Podemos lembrar da relação de Péret com os povos indígenas. O poeta francês se encantou com a cultura indígena, e podemos lê-lo como um contraponto à boa parte da nossa classe política e do agronegócio, que odeiam as populações indígenas e concorrem para o seu extermínio. Poderíamos lembrar, inclusive, das relações do surrealismo com a cidade, com suas derivas; com o sonho e o inconsciente, antídoto à nossa sociedade hiperconectada e muito mais ligada à vigília do que ao transe, algo muito explorado por neurocientistas como, por exemplo, o Sidarta Ribeiro.  


Horas Brasileiras: Benjamin Péret, o Brasil, a América
Editora Zouk, 2024
148 páginas 

Lançamento
Sábado, 13/07, às 17h
Livraria Paralelo 30 – R. Vieira de Castro, 48 – Bom Fim, Porto Alegre
Pré-venda no site da Editora Zouk: https://tinyurl.com/yc7nfym4 

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