Entrevista

Luiz Paulo Vasconcellos – “Adoro viver numa terra que faz frio”

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Luiz Paulo Vasconcellos – “Adoro viver numa terra que faz frio” Em sua casa, 2021 (Foto: Flávio Wild)

Muitas vezes a gente conhece o Luiz Paulo pela voz, antes de pela estampa: uma voz grave, que sabe modular em muitas faixas e frequências, mercê de seu conhecimento do mundo do ator. Quando conhece a pessoa, toda uma outra riqueza: uma pessoa inteligente, crítica, irônica, mas delicada, atenta, com um brilho eterno nos olhos a indicar aquilo que realmente vale a pena, que desperta a verve.

Por uma dessas fatalidades do destino, Luiz Paulo Vasconcellos pertence, cronológica e espiritualmente, à turma histórica que deu ao mundo Roberto Carlos, Glauber Rocha, José Guilherme Merquior, Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Caetano Veloso, John Lennon, Paul McCartney, Bob Dylan, Ítala Nandi, Marília Pera, para ficar apenas em algumas das estrelas luminosas. Uma geração revolucionária e original, que viu a luz do dia em plena Segunda Guerra, que no Brasil foi adolescente num país efervescente, que pechou com a ditadura militar no começo da vida adulta, que recuperou o fôlego na redemocratização. E que agora olha para tudo isso com o distanciamento imposto pela internet, pelo celular faz-tudo, pelo mundo digital que aproxima e afasta pessoas e coisas de um modo todo novo.

Luiz Paulo é uma encarnação do teatro, e por isso sua vida se vive de perto, ouvindo a batida do coração e sentindo o cheiro do suor do outro, sobre o palco ou na plateia. Sua vinda a Porto Alegre, sua trajetória, tudo isso aparece aqui na entrevista em escala breve – mas os interessados saberão mais dele a partir da terça-feira, dia 22, quando será lançado um livro em sua homenagem, no foyer do Theatro São Pedro.

(Luís Augusto Fischer)


Parêntese – Como é fazer 80 anos neste momento da história local e mundial?

Luiz – Eu confesso que nunca pensei que o mundo pudesse passar por uma situação como esta que estamos vivendo, de pandemia e guerra. Mas, fazer o quê? Vamos sobreviver, com certeza, apesar dos 80 anos…

P – Tua história pessoal tem uma direção que confronta a tradição centralista de países como o Brasil – tu nasceste e te formaste no Rio, então capital do Brasil, e acabaste aceitando um emprego na periferia, cá em Porto Alegre. E depois do emprego, tu foi ficando por aqui para sempre. Alguma reflexão sobre isso te ocorre?

L – Deixa-me contar essa história. Em 1969, eu estava no último ano do Bacharelado em Artes Cênicas no Conservatório Nacional de Teatro (hoje UNI-Rio), quando o crítico Yan Michalski me indicou para vir a Porto Alegre dirigir um espetáculo no CAD – Centro de Arte Dramática -, hoje Departamento de Arte Dramática do Instituto de Artes da UFRGS. A direção do Conservatório considerou esta experiência como um estágio profissional e eu vim, então, e passei seis meses trabalhando aqui. O espetáculo foi A Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht. O diretor do CAD era o professor Gerd Bornheim, professor de filosofia e um dos homens mais cultos e inteligentes que já conheci na vida. O espetáculo fez um grande sucesso e o Gerd, então, me convidou para voltar no ano seguinte, já graduado em Direção Teatral, para dar aulas no CAD. O que um aluno recém-formado em teatro pode esperar de melhor do que dar aulas e dirigir espetáculos numa das maiores universidades do país? Obviamente que eu aceitei. E aí, o que aconteceu? Três meses depois o Gerd foi cassado pela ditadura militar. Ele me telefonou – naquela época a coisa mais moderna que havia em matéria de comunicação era o telefone fixo! – e disse: “Se mantiverem o convite, aceita, porque senão eles vão acabar com o curso”. Eles mantiveram o convite e eu – claro! – aceitei. E vim em março de 1970 para enfrentar um dos maiores desafios políticos e profissionais de toda a minha vida. É que os professores do curso haviam feito um abaixo-assinado contra o Reitor por haver aceitado a cassação do Gerd e foram todos eles demitidos. Assim, foi a minha vez de testar o meu conhecimento e a minha capacidade como responsável pelo curso de arte dramática da UFRGS. E, então, fui ficando, ficando, ficando, ficando e fiquei.


Em A ópera dos três vinténs, 1973 (Foto: Arquivo Pessoal)

P – A propósito: como era o teu Rio, aquele da tua infância e juventude? Quem era a tua parceria, os amigos, a tua geração, enfim?

L – Eu havia sido funcionário da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco de 1962 a 1966, e da Editora Delta de 1966 a 1970. Fiz parte da primeira turma de bacharéis em Direção Teatral no Brasil. A turma era formada por três alunos: Clovis Levi, Nilo Batista e eu.  O Rio era – e é – uma cidade belíssima, mas a oportunidade de trabalho em teatro me foi oferecida em Porto Alegre. E eu não resisti…

P – E como era a Porto Alegre em que tu caíste, jovem adulto, para trabalhar já como professor de Teatro? 

[Continua...]

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