Entrevista

Maria Regina Pilla – Existencialista, militante, cidadã do mundo

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Maria Regina Pilla – Existencialista, militante, cidadã do mundo Maria Regina Pilla (Foto: Jean-Luc Daniel)

Maria Regina Pilla conta como, entre os cigarros e  as pílulas anticoncepcionais da juventude, saiu da provinciana Porto Alegre para enfrentar a ditadura e o exílio, presentes nas memórias de seu livro Volto semana que vem.

Tenho o grande gosto de conversar regularmente, há muitos anos, com a Maria Regina Pilla, que atende também pelo simpático apelido “Neneca”. Nos conhecemos nos anos 80, quando ela voltou para Porto Alegre. Alguns amigos e conhecidos meus haviam convivido com ela nos anos 60 (tempo em que eu era uma criança, enquanto eles, já adolescentes e jovens) e davam depoimentos entusiasmados. 

Feminista num dos momentos iniciais do feminismo; estudante de Jornalismo na UFRGS, depois de ter feito um ano do ensino médio nos EUA; uma mulher inteligente, articulada, muito bonita, avançada, que dirigia carro e fumava; que havia caído na clandestinidade na hora mais aguda do combate à ditadura militar brasileira; que depois havia fugido para a Argentina, sempre na militância de esquerda, articulada com a luta armada contra o regime, e lá havia sido presa e torturada; que depois foi banida para a França, onde viveria como asilada uns anos.  

Tudo isso era sua aura, sua discreta fama, que a precedia. Quando a conheci, vi que era uma mulher íntegra, dedicada a seus amigos, querendo estender direitos básicos para todos, sem qualquer ranço doutrinário. Bom humor, joie de vivre, atenção ao interlocutor, indignação com a exploração e com a burrice, essas virtudes sublimes e, mais uma vez, discretas eram sua marca.

Depois ainda, ela voltou à faculdade para cursar Letras, e então passamos a compartilhar o ar de uma mesma sala de aula e a mesa do cafezinho. Foi nesse momento que, junto com outros amigos dela, cada qual à sua maneira, comecei a cobrar o livro com suas memórias, com as histórias que a cada tanto apareciam em sua conversa. Nunca com pose, nunca com afetação, sempre com uma modéstia exemplar, que por ser exemplar nunca se reivindicava como modéstia. A Neneca é uma figura discreta, carregando delicadamente sua profunda sabedoria. 

Veio o livro apenas em 2015. Ele se chama Volto semana que vem (Cosacnaify), frase que a Maria Regina disse ao pai, na cozinha da casa porto-alegrense ao despedir-se dele – mas se passariam dez anos até que ela de fato pudesse retornar. Para minha surpresa, o livro é assinado como “Maria Pilla”, sem o Regina. Por quê?

A conversa que agora se vai ler recupera um tanto dessa trajetória e projeta, ou tenta projetar, o que deverá ser um segundo livro. Enviei a ela um arquivo com uma penca de perguntas, e ela respondeu escrevendo livremente, como aliás é de seu feitio. O que se vai ler agora é basicamente o texto dela, mediado por pequenos títulos que indicam o tema que antes tinha sido uma pergunta.

(De vez em quando a entrevistada, aqui, conversa com um tu, que sou eu, Luís Augusto Fischer. A edição do texto é da Lolita Beretta, que também achou que cabia manter esse tom informal.)

Ser mulher jovem nos anos 60, em Porto Alegre

Porto Alegre foi a cidade mais provinciana nos costumes que se possa imaginar. O ar era irrespirável. As “moças” tinham até um regime escolar próprio, a escola normal. Era o máximo que se esperava delas em termos de conhecimento. Universidade, nem pensar. A meu ver, a psique feminina era moldada por uma religiosidade enfiada goela abaixo, com incensos, cheiro de vela e altares das igrejas católicas. Muitas vidas femininas se perderam no que era a receita universal: casamento, filhos e, quando muito, gerência do que chamam lar. E se não desse certo, paciência, a regra era aguentar sem reclamar. Ao mesmo tempo, este universo sufocante recebia uma boa dose de medo incutido na cabeça das mulheres. Medo traduzido em insegurança para enfrentar o mundo, a vida, como os homens faziam.

Em casa, minha mãe, Clara – a quem nunca agradeci devidamente pelo que sou e o que fiz –, falava muito de como foi bom votar pela primeira vez sem a escolha do pai dela. De modo sutil, mas presente, minha mãe não deixava que eu fosse influenciada pelo ambiente que rebaixava as mulheres. Ela mesma tinha pela frente uma luta contra o conservadorismo do meu pai. Conservador, mas nunca autoritário. Ele permitiu, incentivou e ensinou os primeiros passos para eu dirigir o automóvel da família, sempre sob os olhares críticos dos tios e tias. Eu tinha então 12 anos.

Cigarros, saias curtas e existencialismo

Entre primos e primas, começamos a fumar escondidos com 10, 12 anos, nas férias em Cidreira. A gente comprava um maço de Presidente quando a grana era curta e de Minister quando alguém mais contribuía. Íamos para os cômoros de areia ou para alguma casa abandonada pelo caminho para fumar. Na época o ato de fumar estava em todos os lados. Para nós, mulheres (ôôô, gurias de guarda-pó escolar), fumar nos engrandecia ao topo da mulher fatal. As mães não nos deixavam usar salto alto, o grande divisor das águas entre crianças e mulheres. Mesmo assim, todas as moças davam um jeito de encurtar a saia e calçar sapatos de salto. E ir desfilar na Rua da Praia, eventualmente comer um cachorro quente no Krahe. As mães nos permitiam usar os ridículos saltos “brotinho”, um salto alto tipo bolo abatumado. Os sapatos para as adolescentes que éramos ficavam a meio caminho do salto alto. Nem mortas calçávamos aquele horror. Era a época em que o comprimento das saias era longo. Twiggy chegou atrasada na nossa história. Então, enrolávamos o cós da cintura até alcançar a altura desejada, e assim, com uma saia desbeiçada, íamos felizes namorar os rapazes na Rua da Praia. Calçando saltos bem altos. Nada combinava, mas cada uma de nós, tenho muita certeza, nos sentíamos os ícones da moda e beleza do momento. Nós éramos irresistíveis. E fumávamos! (Às escondidas, é claro. Meu pai terminou permitindo que eu fumasse diante dele aos 18 anos.) O cachorro quente do Krahe era um must, o suprassumo da modernidade. Pra mim, aquele sabor ficou na memória até hoje. Imbatível. Não tem nada comparável.

Ouvíamos falar nos existencialistas, em Juliette Greco, de cabelos lisos caídos pelos ombros, vestida de negro (ninguém se vestia assim, o negro era então reservado aos enlutados, com modelos fora de moda contrastando com seus decotes e cavas). Nós, adolescentes entrando na idade adulta, queríamos ser como ela, com seu charme absurdo percebido através das páginas de revistas e jornais, atravessando os mares até alcançar nossa então obscura Porto Alegre. Meu primo Luís Paulo [de Pilla Vares, jornalista, 1940-2008, que viria a ser secretário de Cultura de Porto Alegre], uma autoridade em muitos assuntos e principalmente neste, soltava aos quatro ventos seu desgosto com nossa cidade, cativa do pior conservadorismo.

Uma intrusa no mundo dos homens

Nos estudos, eu tinha pretensões bem distintas das mocinhas da minha idade. Ao sair do ginásio no Instituto de Educação, quis entrar imediatamente no Julinho [o colégio estadual Júlio de Castilhos] para cursar o Científico. Fiz também o exame de seleção para o Colégio de Aplicação, para a única vaga oferecida. Não consegui, mas pouco tempo depois recebi o convite para ingressar no Colégio, pois o escolhido havia desistido e eu era a segunda colocada. Não aceitei; ao cabo de uma semana, o espírito do Julinho havia entrado na minha cabeça de tal modo que eu não conseguiria mais me sentir à vontade com o tipo de aluno do Aplicação. Na época eu gostava muito de Física e Matemática, veja só! Ingressei no Científico.

Passei na seleção do Julinho e logo fiquei encantada com o ambiente político pró Cuba (era a época da “crise dos mísseis”), pois eu vinha de uma casa conservadora que reverenciava o PL [Partido Liberal] do Raul Pilla [primo do pai de Neneca]. Um grupo de jovens militantes julianos do PCB [Partido Comunista Brasileiro], da AP [Ação Popular, de esquerda cristã], do Brizolismo, me devolveu o mesmo entusiasmo que eu tinha por eles. Meu primo, Luís Paulo, logo me levou para o lado do chamado marxismo revolucionário, na época a dissidência do PCB e logo o POC [Partido Operário Comunista]. Passei a ler os clássicos e a participar das escolas de formação dadas por Paulo Timm e Marco Aurélio Garcia. E namorar o Flavio [Koutzii], que foi decisivo na minha formação intelectual e política e na descoberta da psicanálise. 

Era um mundo masculino que permitia minha intrusão. Eu aceitava feliz, queria me parecer com eles, a quem tudo era permitido. Eu já era militante. E estava decididamente afastada dos ideais das mulheres porto-alegrenses da época: conseguir um marido nos bailes da Reitoria, quem sabe. Minha cabeça recebia em cheio, além do momento político contestatário, uma certa literatura que provocava um deslocamento da realidade. Não sei se éramos tão imaginativos, mas na verdade este conjunto de acontecimentos recebia de braços abertos a minha geração.

O marasmo da provinciana Porto Alegre foi bem sacudido, mas ainda assim não faltavam mocinhas para os cursos de dona de casa da Walita [uma marca de eletrodomésticos]. Tive muitas primas casando na mesma época. Eu olhava pra elas, tão contentes em seus belos vestidos de renda branca, e me via depressiva, com um sol de meio-dia caindo a pino sobre minha cabeça na casa da vó – um casarão do início do séc. 20, onde faziam as festas. Que tristeza, tudo aquilo. Era de cortar o coração. A claridade ofuscante de um mundo que eu via triste me perseguiu a vida inteira.

Casa dos Pilla, Bento Gonçalves com Vicente da Fontoura, 1930. Arquivo da família.

Pílula anticoncepcional na Porto Alegre de reuniões-dançantes

Uma cena que descreve bem as contradições e a comicidade da época: Paulo Bicca era quem entrava na farmácia para me comprar contraceptivos. Eu tinha medo e vergonha. Ele fazia, mas eu ficava na porta da farmácia acenando, “estragando” a clandestinidade da operação. A pílula foi um marco, é claro. Até ela, os namoros eram supervisionados aos sábados e quartas na sala de estar com toda a família vigiando. Dançar juntos, somente nas reuniões-dançantes em casa de família, todos os olhos grudados nos namorados. A liberdade nas relações, logo adiante, impede que se tenha alguma ideia daquele mundo absurdo. O máximo do contato físico era pegar na mão, o que provocava entre ginasianas e outras alunas a angústia em saber se este contato facilitava a gravidez! Não tínhamos a menor ideia do nosso corpo e da nossa sexualidade.

Quando estudei nos EUA [um ano de ensino médio], conheci um ambiente mais descontraído sobre o tema. Havia em todo o [equivalente ao] ginásio uma matéria de educação sexual. Lá, pela primeira vez vi como é usada uma camisinha. Mais importante, a professora mostrava aos alunos (todos os colégios públicos eram mistos) como acontecia a gravidez e como preveni-la. 

Nove meses é um filme de Marta Meszáros, cineasta húngara, que não teria como retratar melhor esta Porto Alegre de que falo. Vi este filme em Paris. Terminada a sessão, eu não conseguia desgrudar do assento. Conta a história de uma jovem que fica grávida num ambiente de repressão extrema. A trama central serve para detalhar a frustração, o medo, a violência do universo preconceituoso, limitado, que é imposto à juventude. Certamente não é o melhor filme dela, mas é um momento antigo do cinema dos países do leste que vale resgatar e que descrevia o universo provinciano e preconceituoso de Porto Alegre. Voilà.

Estudar nos States

Para concorrer à bolsa da American Field Service [para cursar um ano do ensino médio nos EUA], era preciso autorização dos pais, no que meu pai e minha mãe concordaram. Porém, meses depois, quando fui uma das selecionadas, o pai deu pra trás, e foi preciso uma intervenção enérgica da mãe para que eu viajasse. Nem tive que chorar, apenas argumentei com ela sobre como seria importante para os meus estudos, para o meu conhecimento da língua, que estudava no então famoso e competente Yázigi. Quieta, minha mãe já mexia seus pauzinhos pra eu estudar nos States. O pai acabou cedendo, acho até que com uma pontinha de orgulho da filha que, saindo das fraldas, se aventurava num país tão distante e importante no imaginário do mundo. Sabendo dos pais autoritários de colegas, amigas e primas, meu pai era uma bênção.

Lá, não havia educação religiosa e muito menos cívica. Os museus se encarregavam disso. Aliás, no Smithsoniam Museum, famosa instituição americana [sediada em Washington], fiquei impressionada até hoje com o escamoteamento feito sobre o bombardeio atômico em Hiroshima e Nagasaki. Havia fotos, réplicas das bombas, mas em nenhum dos vários textos explicando o contexto do mundo estava dito que aquele horror saiu de aviões americanos. Mesmo assim, foi o museu mais espetacular que vi em minha vida.

Escrever um livro de memórias

Nunquinha de núncares (frase do Carlos Alberto Gravina) pensei escrever um livro de memórias. Foi descobrindo a literatura luso-africana nas aulas da professora Jane Tutikian que realizei ter uma experiência a contar. Foi a época dos cartazes pedindo a escandalosa volta da ditadura militar. Aquilo não podia ser, não estava acontecendo, socorro!

Na verdade, os luso-africanos, por um caminho que não sei explicar, me conduziram à ideia da fragmentação da memória e daí à estrutura do Volto semana que vem, em textos atomizados em tempo e espaço. O fato é que comecei a escrever algumas páginas que em alguns dias foram o início do livro. 

Tu, aliás, me deu a melhor frase sobre meu livro: foi um segundo luto. Fazer um luto é muito pesado. Fazer duas vezes, então! Mas ao fim e ao cabo dos lutos, elaboramos a perda que se transforma em outra coisa. Um filósofo francês, Daniel Bensaïd, escreveu que o luto é necessário, assim como o esquecimento. Não este que propõe a elite, o esquecimento que passa a borracha e permite que seus crimes sigam impunes.

Uma amiga argentina, Cachita, companheira da prisão, a mãe e a filha Neneca caminham em uma rua de Bruxelas. Foto de Jean-Luc Daniel.

Bom, refazer o luto foi penoso, é claro, mas não tão difícil como eu pensava quando escrevi as piores páginas do livro. Deixei esta parte para o final e passei os 30 dias de férias de verão escrevendo o conjunto delas, as que falam do assassinato e tortura dos jovens da noite dos lápis, a execução de Gallego e Petiza, etc. Usei o critério da psicanálise, de deixar o pensamento fluir para que a memória fizesse seu caminho. Era inevitável entrar no sufocante e aterrador universo da clandestinidade. Foi a parte difícil. Os militantes mortos na rua, o acionar cotidiano da luta armada nas suas necessidades mais simples e diárias de roubar carros e mantê-los estacionados na rua, mudando de lugar para não causar estranheza na vizinhança, o medo de que nesses momentos a polícia estivesse lá, montando uma “ratoeira” para pegar os militantes. As noites geladas e escuras, os bairros portenhos modestos, onde tudo acontecia.

Uma cena

Nosso pior momento de militante na clandestinidade era passar por um guichê da imigração com passaporte falso. Sempre gostei de lembrar quando Paulo [Paranaguá, companheiro de militância e marido da Neneca num período] e eu nos encontrávamos com Raymond Molinier [militante político francês, da Quarta Internacional] no mesmo aeroporto para passar a fronteira, normalmente do Chile para a Argentina. Militantes do PRT [Partido Revolucionário dos Trabalhadores], obviamente mantínhamos uma boa distância, escolhendo inclusive guichês distantes um do outro. Na fila que se formava, Raymond, invariavelmente carregando uma pasta chamativa, começava então a fazer um sem-número de trejeitos com o corpo e com a cara. Eu não podia parar de olhar pro espetáculo; Paulo entre dentes, como se ninguém notasse que me falava sobre um interdito, me dizia para não olhar, que isso só deixava El viejo mais animado. Este era o argumento que faltava para incentivar minha bronca com as agruras da nossa vida militante em Buenos Aires. Uma vingancinha pessoal, quem sabe? Até então imóvel, eu desandava numa apresentação de movimentos que imitavam os de Raymond; na falta da pasta, fazia minha bolsa voar como um pêndulo, sorria, fazia caretas com correspondência imediata do senhor idoso da fila adiante. Um festival de infantilidades irresponsáveis entre seres portadores de documentação falsa, de quem se esperava discrição. Sem saber a que santo se dedicar, Paulo sumia pela porta do banheiro. Estava coberto de razões, mas era melhor que ficasse por lá por um tempo.

Mitterrand estava preocupado com uma apátrida

As Nações Unidas emitem documentos de viagem para apátridas e refugiados, certificados de identidade (ou “passaporte para estrangeiros”), definidos pela Convenção de Genebra, 1951. Mais antigo, meu passaporte era das Nações Unidas para refugiados e apátridas. Mas na França, para efeitos de identificação, eu tinha uma carta de residente renovável, com os mesmos direitos que os franceses. Asilada, no entanto, eu não poderia participar de atividade política (puff!).

Paisagem da janela da sala, Montmartre, Paris. Foto de Maria Regina Pilla.

É preciso ainda dizer que na França estes direitos internacionais são mais respeitados, os funcionários da burocracia estatal são mais preparados. Esse passaporte das Nações Unidas não tem o mesmo tipo de recepção numa viagem à Espanha ou aos países árabes. Além de férias na Espanha, fui com Paulo visitar o pai dele quando era embaixador no Kuwait. Aproveitamos para conhecer o Cairo. Para cada destino tivemos que enfrentar a desconfiança burocrática dos escritórios de imigração árabe e a solicitação de um visa de passagem. Quase não nos deixavam entrar no país. Nós, esperando o visa num corredor de algum escritório da burocracia, os funcionários passando com nossos documentos, olhando cada página contra a luz para identificar falsificações.

O passaporte das Nações Unidas da época (1978) parecia uma caderneta de armazém da esquina, a capa coberta por um tecido azul cobalto, as páginas do documento de um papel espesso, feioso. A posse deste documento significava não ter um passaporte nacional. Em qualquer trâmite para obter de volta o passaporte do meu país eu era obrigada a devolver este passaporte das Nações Unidas. Então, ninguém queria devolver sem antes ter o outro documento. Houve um momento em que não entregaram minha carta de residente e o governo brasileiro, com a Anistia [de 1979], estava devolvendo os passaportes aos brasileiros. Fiquei com os dois passaportes, o das NU e o do governo brasileiro. Mas para trabalhar e para o controle na rua passaporte não era documento aceitável. Fui a uma delegacia com os 2 passaportes para retirar minha carta de residente. Ao ver os dois passaportes, o bem informado delegado quis tirá-los de mim. Tive que ser rápida, o que não é muito meu feitio. Coloquei-os no bolso do casaco e fugi dali. Durante alguns meses, fiquei sem a carta de residente, perdida em alguma repartição da polícia francesa.

Graças a uma situação rocambolesca, tive ela de volta pelas mãos do prefeito de polícia de Paris, por assim dizer. Conversando com uma amiga assessora de Mitterrand, contei a história do meu documento e ela me disse ter uma ideia de como recuperá-lo (eu já tinha medo das ideias dela, sempre audaciosas). Aconteceu assim: ela ligou para o Chefe de Polícia de Paris dizendo que o presidente Mitterrand estava preocupado com a situação de uma amiga que precisava da sua carta de residente. Lançado o anzol, agora era aguardar. Mas ela teve muitos sobressaltos cada vez que o chefe de Polícia ligava para conversar com o Presidente, esperando alguma espinafrada, com certeza. Um dia, a secretaria do chefe de Polícia ligou para minha amiga dizendo estar com a carta de residente em questão em suas mãos. Que eu passasse para buscar.

Neneca num parapeito à beira do Sena. Foto de Jean-Luc Daniel.


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