Entrevista

Natércia Moraes Garrido – Os arredores de uma descoberta

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Natércia Moraes Garrido – Os arredores de uma descoberta Nascimento Moraes Filho e Natércia Moraes Garrido (Arquivo Pessoal)
DUZENTOS ANOS DE MARIA FIRMINA – HOMENAGEM A NASCIMENTO MORAES FILHO

No ano de 2022 celebramos o bicentenário daquela que inauguraria a escrita feminina negra no Brasil. Figura instigante do século XIX, que excede o lugar ínfimo de observadora para, de posse da escrita, nos apresentar o primeiro romance brasileiro, no sentido de tratar um assunto distintamente brasileiro e não português. Selecionou questões ligadas a seu contexto utilizando modelos literários disponíveis na época. Entretanto, mais do que colocar a tinta no papel, esta escritora apontou a absurda contradição da sociedade de seu tempo, expondo de modo distinto as incongruências entre alforria e liberdade. Esta excepcionalidade se dá pelo fato de a obra ser escrita num país escravagista em que o público leitor pertencia à aristocracia.

 O leitor deve estar pensando: por que tanto mistério? Porque foi desta forma que o nome de Maria Firmina dos Reis, mulher negra, nascida livre e descendente de escravizados, chegou até nós! Esta grande figura feminina brasileira do século XIX, que ficou invisível por quase um século, completou no dia 11 de março 200 anos. Maria Firmina dos Reis (11/03/1822) nasceu na cidade de São Luís, no Maranhão, pouco antes de o Brasil se tornar independente de Portugal. Nunca é demais ratificar o pioneirismo de Firmina, cuja obra explicita fortemente vozes até então abstraídas das narrativas daquele tempo. Neste cenário encontramos um relato que antecipa o poema “Navio Negreiro”, de Castro Alves.

Se hoje temos informações e acesso às obras da autora descrita, muito devemos ao incansável trabalho de pesquisa do maranhense Nascimento Moraes Filho (1922-2009). É dele a proeza de retirar a autora e suas obras do silenciamento e do descuido do campo literário. Também é dele a primeira biografia da autora: Maria Firmina, fragmentos de uma vida, pela Imprensa do Governo do Maranhão, de 1975, que se encontra em edição esgotada. Moraes Filho participou ativamente da vida cultural de São Luís. 

Na década de 1940 fundava, junto com alguns amigos, o grêmio literário Centro Cultural Gonçalves Dias, considerado por muitos o mais importante movimento artístico do Maranhão. Este espaço tinha como proposta debater a literatura e a cultura em geral, assim como mostrar produções novas ao cenário literário local, com o objetivo de inserir de vez o Maranhão – a antiga Atenas cultural – na estética modernista. Em seu livro, o escritor e pesquisador relata que não descobriu Maria Firmina, e sim a redescobriu, pois entendia que a memória dos feitos da escritora havia se apagado da história maranhense.

É imperativo que neste bicentenário da autora de Úrsula (1859), o nome de Nascimento Moraes seja lembrado, visto que sua pesquisa, além de refazer o trajeto da vida e obra da Maria Firmina dos Reis, é recheada de informações que atestam sua jornada de pesquisador, repleta de comprovações, cópias de documentos dos séculos XIX e XX, e de entrevistas com inúmeras pessoas que participaram do convívio de Maria Firmina. Foi na cidade de Guimarães, onde a autora viveu grande parte de sua vida, que ele encontrou informações preciosas até então desconhecida do leitor do século XX. 

Não se pode esquecer e negar que foi Nascimento Moraes Filho que não só resgatou a memória e obra de Firmina, mas também publicou-a em livros, o que até então não havia sido feito. Para conhecermos melhor sua trajetória, fui atrás de Natércia Moraes Garrido, neta do escritor e pesquisador maranhense. A entrevista, por e-mail, aconteceu por conta da curiosidade em saber de fato quem chegou primeiro com as informações sobre os arredores de Maria Firmina, Nascimento Morais Filhos ou Horácio de Almeida.

Natércia Moraes Garrido é doutoranda em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, onde também cursou seu Mestrado. É pesquisadora, estudiosa e divulgadora da obra de seu avô, Nascimento Moraes Filho. O título de sua tese, a ser defendida em 2023, é “A poética da liberdade na obra de Nascimento Morais Filho”. Além de professora, é escritora e crítica literária, tendo dois livros de sua autoria: A poética modernista em Azulejos, de Nascimento Morais Filho (2019, Editora Espaço Acadêmico); e Poesia em 3 tempos (2021, Editora Elã). Tem Blog e Canal no YouTube, ambos intitulados A Beletrista, onde escreve e divulga suas opiniões críticas sobre leituras variadas.

(Roberta Flores Pedroso) 

Nascimento Moraes Filho

Quem foi Nascimento Moraes Filho para a família e para o estado do Maranhão?

Para a família, Nascimento Moraes Filho sempre foi marido, pai e avô extremamente cuidadoso e conselheiro; um homem correto, íntegro e honesto, que nos deixou de ensinamento convicções fortes muito atreladas à ética e à moral. Ele era um homem muito justo em suas decisões e por isso sempre confiávamos em seus conselhos. Ele teve 5 filhos com a esposa Maria da Conceição: José, Ana Sofia, Eleuses (minha mãe), Renan e Loreley. Lembro de escutar relatos de minhas tias e de minha mãe sobre como ele sempre quis que elas estudassem, trabalhassem e fossem independentes, e assim aconteceu; ou seja, ele era feminista e defendia essa causa sem nem conhecer esse rótulo. Ele nunca pressionou nenhum filho ou filha a se dedicar à literatura mas queria que todos estudassem e tivessem uma carreira. Mas claro, todos foram influenciados a gostar de ler e são leitores até hoje. Só 2 filhos seguiram a docência (hoje já aposentados): meu tio José, o mais velho, que foi professor de Física na rede de ensino federal e que me influenciou a amar livros de ficção científica; e minha tia mais nova, Loreley, que cursou Letras e foi a vida inteira professora de Língua Portuguesa na rede de ensino estadual. Meu avô teve 7 netas e 1 um único neto. Da mesma forma que orientou os filhos e filhas, agiu com as netas e neto. Como somos muitas mulheres na família, nunca vi meu avô expressar um discurso que pudesse tolher nossa liberdade de ser quem quiséssemos ou de fazer o que quiséssemos, mas ele nos orientava a seguir de forma responsável e nos alertava demais sobre como nos defender do mundo externo. Como avô sempre foi muito carinhoso e generoso: comprava-nos livros, pagava cursos, enfim, para a educação, tudo o que queríamos ele proporcionava. De todos os netos, só eu segui a carreira docente e de pesquisadora e sempre fui muito apaixonada pelo universo literário, pois convivi demais com ele e com suas ideias. 

O Estado do Maranhão deve muito às pesquisas e iniciativas de Nascimento Moraes Filho, tanto no âmbito literário e cultural quanto no âmbito da ecologia. Ele conseguiu descobrir e resgatar obras de conterrâneos cujos nomes já haviam sido esquecidos pela linha do tempo, a exemplo de Maria Firmina dos Reis (publicando em 1975 seu livro-pesquisa Maria Firmina – fragmentos de uma vida, mas também republicando a posteriori toda a obra dela) e Estevâo Rafael de Carvalho (A metafísica da contabilidade comercial, publicada originalmente em 1837 e reeditada por Morais Filho em 1987). Também se dedicou ao folclore, publicando livros que resultaram de pesquisas nessa área: Pé de conversa (1957, coletânea de trovas populares colhidas ao longo de suas viagens como Fiscal de Renda no Estado), O que é o que é? (1972, coletânea de enigmas e adivinhações populares), Esperando a Missa do Galo (1973, coletânea de contos natalinos de autores maranhenses) e Cancioneiro Geral do Maranhão (1976, outra coletânea de trovas populares). A dedicação às letras e à cultura maranhenses rendeu a ele uma cadeira na Academia Maranhense de Letras, outra cadeira no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão e uma honrosa homenagem em 2008, um ano antes de sua morte, a Medalha da Ordem dos Timbiras, a mais alta comenda ofertada pelo poder executivo estadual. E além de tudo isso ainda havia a Ecologia, luta que ele abraçou a partir de 1979 e continuou até o fim de sua vida, resultando na fundação do Comitê de Defesa da Ilha de São Luís em 1981, a qual agregou personalidades representativas da vida cultural e social deste Estado, até mesmo religiosas. A luta pela preservação de nossa ilha e pela educação ambiental também lhe rendeu inúmeras homenagens, como a da ONG Greenpeace. Ele lutou muito para que as fábricas da ALUMAR (ALCOA) e da VALE seguissem protocolos rígidos no tocante ao descarte de produtos químicos e adequação às leis ambientais, que na época eram quase inexistentes ou fracamente fiscalizadas; tudo para que essas empresas não contaminassem os lençóis freáticos de nossa ilha (e consequentemente nossa água). Todos esses feitos, que ainda reverberam no presente, demonstram que o nome de Nascimento Morais Filho persiste firmemente na linha do tempo-memória. 

Como aconteceu a trajetória do teu avô na literatura? 

Sua trajetória na literatura começa em casa, influenciado pelo pai, o José Nascimento Moraes, outro grande nome da literatura, do ensino e do jornalismo maranhense; e pela sua mãe Ana Augusta, professora de primeiras letras, por quem ele tinha verdadeira adoração. Nascimento Moraes Filho acompanhou o trabalho intenso do pai e conviveu com outros grandes nomes da literatura naquela época, mas construiu uma trajetória diferente para si. Por exemplo, ele, desde a adolescência, era agitador cultural e rebelde, e foi expulso do Liceu Maranhense, a escola mais tradicional do Maranhão, antes de concluir o que chamamos hoje de Ensino Médio – foi considerado anarquista! E quem o expulsou foi o próprio pai, que na época era diretor do Liceu! Concluiu o ensino secundário em outra escola, o Teixeira Mendes, mas não seguiu para os estudos superiores, optando por trabalhar como professor, dando aulas de português e latim. Logo começa a escrever poemas, declamá-los em reuniões com outros colegas que queriam se aventurar na literatura, funda um grêmio literário em 1945 e em 1955 publica seu primeiro livro, Clamor da Hora Presente, com poemas de linguagem vigorosa, engajada e questionadora da ordem social da época. Transgredir e clamar pela conquista da liberdade também é uma poética que já identificamos em seu estilo e que perdurará nos livros posteriores. Em 1963 publica Azulejos, composto por 168 poemas totalmente amadurecidos à luz da estética modernista. Nesses versos imperam a linguagem oral e a presença da mãe na vida do menino José, assim como abundam referências a fatos e flashes da infância, tornando universal toda nossa maranhensidade. Por último, em 1972, o poeta publica Esfinge do Azul, um recolho de muitos poemas escritos no período que abrange de 1940 a 1970, que revelam a construção de uma poética da liberdade, já que este é um grande tema que perpassa o conjunto de sua obra.

Tua dissertação foi sobre a obra poética de Nascimento Moraes Filhos. Como foi escrever sobre o teu avô?

Foi intenso, emocionante e apaixonante e ainda é, porque continuo fazendo um estudo crítico de sua obra poética completa, que compreendem os três livros que citei anteriormente. Até o ano de sua morte, em 2009, eu não havia decidido se o estudaria como autor, mesmo sabendo de sua grande importância. Eu já trabalhava como professora de Língua Portuguesa e Literatura em escola pública e particular aqui em São Luís, sempre citava poemas e textos dele e da Maria Firmina dos Reis em minhas aulas e dava palestras ocasionais quando me convidavam, mas ainda não havia me decidido sobre seguir na pós-graduação stricto sensu, até porque não havia mestrado em Letras no Maranhão naquela época. Um dia, em 2010, eu estava na casa da minha avó e passei um longo tempo no escritório do vovô; comecei a vasculhar as estantes, mexer nos livros dele e abri um armário que até então não tinha tido coragem de olhar mais atentamente; e lá me deparei com muitas pastas, documentos, fotos e livros dele e do meu bisavô; tinha muita coisa já meio organizada. Eu comecei a chorar, porque descobri uma caixa lá dentro com meu nome na frente: “Para minha neta Natércia, a escritora da família. Tu saberás o que fazer.” Levei tudo para minha casa e me debrucei nesse material; cada leitura, uma descoberta e rios de lágrimas, porque ainda não estava recuperada de sua morte. Foi aí que entendi o que ele queria: que eu não deixasse seu legado morrer, como ele havia feito com a obra do pai dele, o José Nascimento Moraes. Entendi que ele confiava que eu saberia preservar e continuar, de alguma forma, tudo o que ele produziu. Não foi fácil me apropriar disso tudo, e quando veio a oportunidade de cursar o Mestrado em Literatura e Crítica Literária na PUC-SP em 2014 eu já estava com o projeto pronto e já tinha um plano traçado. Eu também sabia que precisava dissociar o avô do autor, se eu quisesse realmente fazer um estudo sério e atual sobre sua obra. Alcançar a clareza e a imparcialidade necessárias na pesquisa sobre ele é difícil, pois sou muito apaixonada pelo que ele escreve, por quem ele é como autor e por quem ele foi como avô, já que também foi meu mentor.

Sabemos que na década de 40 muitos intelectuais maranhenses migraram para o eixo RIO/SP, talvez pela busca por maior visibilidade. Entretanto Nascimento Moraes Filho decidiu permanecer no Maranhão. Podes comentar sobre essa escolha?

Os intelectuais maranhenses que saíram do Estado ao longo do século XX fizeram-no por dois motivos: queriam mais visibilidade sim, mas também mais oportunidades, que a província não oferecia, tanto em questões econômicas (não havia emprego bom para todos) quanto de estudos superiores. Tudo aqui era muito limitado, desde educação, passando por infra-estrutura e chegando ao famoso “quem indica” para poder ocupar um cargo de trabalho. Havia conflitos políticos que atrasavam o desenvolvimento do Estado. Realmente alguém tinha que ser muito insistente para conseguir vencer no Maranhão; vários conseguiram, mas a duras penas. O pai do Nascimento Moraes Filho é um desses que venceram, não sem sofrer, por exemplo, ataques racistas constantes. Teve que lutar muito. 

Meu avô faz uma trajetória bem fora da curva: apesar de começar trabalhando como professor de Português e Latim em escolas particulares, em 1950, aos 28 anos, passa no concurso público do Estado para ser Fiscal de Renda (algo equivalente ao atual cargo de auditor estadual, mas naquela época não precisava de nível superior.) Aí ele se estabilizou financeiramente e começou a viajar bastante, conhecendo mais o interior do Maranhão; se interessou pelas questões populares e folclóricas, e em uma viagem a Turiaçu conheceu minha avó, Maria da Conceição Fernandes, e se apaixonou por ela; casaram-se 6 meses depois, em 1952. Ela tinha 18 anos. Logo vieram os filhos, e como falei no início, vovô sempre foi muito ligado à família. Eu acredito que ele ficou no Maranhão também porque tinha a ideia de mudar o pensamento do povo, ele era otimista quanto ao futuro do Maranhão; achava que as coisas melhorariam por aqui. E queria ser um agente transformador. 

Qual a participação de Nascimento Moraes Filho no Modernismo maranhense? Podes nos relatar?

[Continua...]

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