Entrevista

“Nos ouçam, nos ouçam, nos ouçam”, suplica Valéria Barcellos no Dia da Visibilidade Trans

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“Nos ouçam, nos ouçam, nos ouçam”, suplica Valéria Barcellos no Dia da Visibilidade Trans Valéria Barcellos. Foto de Silas Lima - Divulgação

Nessa entrevista, comemorativa ao Dia da Visibilidade Trans (29 de janeiro), a cantora Valéria Barcellos fala com exclusividade sobre a sua trajetória pessoal e profissional. Das dificuldades da infância no interior do Rio Grande do Sul até a conquista dos palcos das grandes cidades e o respectivo reconhecimento público, ela relembra o caminho percorrido para se fixar em Porto Alegre, onde encontrou os meios e os apoios necessários para exercer sua arte e dela viver, embora não sem dificuldades. 

Realização profissional e a felicidade pelas conquistas estão presentes na sua fala; mas também há espaço de reflexão sobre o preconceito e o racismo enfrentados pelas pessoas pretas e trans no mundo e no Brasil. Mais do que um exercício memorialístico, a entrevista é um convite para repensarmos nossas relações familiares e em sociedade, uma vez que a população LGBTQIA+ e as pessoas negras são cada vez mais atacadas no País. Para começar a mudar esse cenário, Valéria é bem direta: “A gente precisa ser ouvida. Não é falta de diálogo, o que falta é escuta.”

De Santo Ângelo, Valéria Barcellos veio para a Porto Alegre, onde se desenvolveu como artista (foto de Silas Lima – Divulgação)

Parêntese – Valéria, pra iniciar a nossa conversa e entendermos um pouco da tua trajetória pessoal e profissional como mulher trans, gostaria que você falasse como foi a sua infância no interior do Rio Grande do Sul, em Santo Ângelo.

Valéria Barcellos – A minha infância foi muito feliz. Claro que eu tive muitos questionamentos e dúvidas em muitos aspectos. O primeiro deles certamente foi sobre as questões de gênero. Costumo dizer que eu não tomei um susto sabendo quem eu era, tomei um susto sabendo quem eu não era [risos], porque na minha cabeça eu tinha certeza que eu era uma menina. 

Depois vieram as questões de raça e etnia. Porque eu também não conseguia entender muito bem essa diferenciação que as pessoas faziam lá na região das Missões. Santo Ângelo é uma cidade de pessoas muito racistas. As pessoas têm orgulho de suas descendências germânica, italiana e polonesa.

Mas eram outros tempos, com pouquíssimas informações. E eu não tô aqui colocando a culpa no tempo, porque a culpa não é do tempo, muito pelo contrário, o tempo não é o culpado e não é o problema, o tempo é sempre a solução das coisas. 

Tirando essas questões, foi um período de forjar a pessoa que eu sou hoje, da curiosidade que eu tenho pela vida, pelos livros, pelas artes. Apesar de não ter tido ninguém com formação artística na minha família, quando criança, a gente tinha a presença da arte em casa, tinha muita música, tinha instrumento musical, tinha gente cantando, claro que não profissionalmente, mas tinha gente cantando ali. Essas coisas todas forjaram o meu fazer artístico de hoje, que é muito embasado na cultura popular, e que é uma coisa muito perceptiva no que eu passo pras pessoas. 

P – E como era na escola?

VB – Às vezes, quando uma professora via que eu era uma criança diferente, tentava me proteger e me dar ferramentas pra que eu conseguisse viver melhor com as outras crianças, mas batia na barreira dos pais que diziam: “Nossa, como é que pode essa criança esquisita no meio das outras? E o meu filho? Vai contaminar meu filho”. Porque na cabeça de muitas pessoas é quase isso, uma contaminação [risos].

Mas eu fui uma criança muito imaginativa. Eu quis muitas coisas que eu tenho hoje. Brinquei muito de ser artista, brinquei muito de ser cantora, brinquei de ser essa pessoa que sou hoje. Claro que essa criança sofreu, porque eu tive muitos questionamentos, muitas perguntas sem respostas, porque as pessoas de lá não tinham essas respostas. E também fui uma criança muito sozinha. Mas, no balanço dos acontecimentos, apesar dos pesares, tive uma infância feliz. 

P – O racismo é algo constante nas tuas manifestações, seja em entrevistas ou nas redes sociais. Como é que foi isso pra ti naquele período? Além da questão de gênero, como a criança Valéria lidava com o racismo?

VB – Eu não entendia muito bem essas diferenças. Eu não entendia por que elas aconteciam. Eu era uma criança negra e periférica, e em alguns espaços essas questões se destacam mais ou menos. Se eu sou uma negra travesti no meio de pessoas negras, eu sou só uma travesti, não sou vista como uma pessoa negra porque todo o meu entorno é preto. Se eu sou uma pessoa preta no meio de travestis, eu sou uma pessoa negra. Se eu sou uma pessoa preta e travesti rodeada de brancos, a situação muda completamente. Então, essas questões de gênero e de raça têm um destaque dependendo do lugar onde tu estás. E é justamente isso que faz com que as pessoas ataquem ou repudiem o que elas não conhecem. Elas agem com repulsa ao que elas desconhecem e com o que não convivem. 

P – Que marcas a pobreza deixou e que ainda trazes contigo?

VB – Eu venho de uma família muito pobre. Minha mãe era doméstica, mas ela sempre prezou muito pela educação. Eu entrei na escola com 5 anos, porque eu mais ou menos já sabia escrever meu nome, e minha mãe foi lá e “obrigou” a diretora a me matricular. 

Lembro-me de uma situação bem pontual. Acho que na 2ª ou 3ª série. Eu não tinha mochila, porque, para quem vivia na pobreza, era uma coisa supérflua, artigo de luxo. Naquela época, ter o básico do material escolar já estava bom, e tu podias levar o material na mão. Eu lembro que antigamente tinha um saco de 5 kg de açúcar que era azulzinho, e como eu não tinha mochila, peguei aquele saco, dobrei nas bordas e cortei com uma tesoura, e aí ficou um buraquinho onde eu botava a mão. Ficou uma sacolinha pra eu levar meu material escolar. E eu achava o máximo. Eu não estava muito preocupada com essas coisas. Eu já tinha meu material novo, e o cheiro de caderno novo sempre me fascinou. É que nem livro novo, sempre me fascina. 

Mas um dia uma colega branca me apontou e perguntou: “Mas tu não tem mochila?”. E eu falei: “Eu não tenho mochila, mas tenho meu material, meu caderno lindo que minha mãe comprou. Olha que lindo, e com os lápis aqui”. E ela falou: “Você não tem mochila porque é negra, as pessoas negras não têm essas coisas. A tua mãe não tem dinheiro pra te dar as coisas porque ela é negra, e tu também não vai ter as coisas porque tu é negra”. 

Aquilo me bateu de uma maneira tão forte que eu me percebi negra naquele momento e naquele espaço, e principalmente percebi que uma negra realmente era diferente dos outros no tocante a muitas coisas. 

Eu não tinha as coisas que meus colegas brancos tinham, isso era verdade, minha colega tinha razão. Ela me trouxe um dado que passava despercebido para mim, porque não tinha essa diferenciação na minha casa. A partir daquele momento eu passei a não ser mais negra, eu passei a ser mulata, eu passei a ser morena, eu passei a ser cor de cuia, eu passei por tudo que era cor, menos negra. Eu apaguei minha negritude naquele momento pra poder fazer parte daquele todo. Mas não adiantou, porque a gente sempre era tratada de maneira diferente. 

Foi um sofrimento muito grande para uma criança negra e pobre ter esse tipo de descoberta tão abruptamente. Com o passar do tempo, bem depois, com quase 18 ou 19 anos, é que eu comecei a ter plena consciência de que, sim, esse lugar também é meu e de que não é isso que vai me fazer diferente ou menos capaz do que qualquer outra pessoa.

P – E a Valéria artista, a partir de que momento ela se configura?

VB – Ganhei meu primeiro festival de música aos 6 anos de idade, na escola. Cada sala de aula tinha que mandar uma representante pra esse festival. Um dia eu estava cantando quietinha num canto, escondida de todo mundo, como sempre, separada das crianças – porque, enfim, eu era a criança estranha [risos], que falava sozinha e que não conseguia se enturmar com os meninos e as meninas –, e a professora me viu cantando, chegou de mansinho nas minhas costas e disse: “Nossa, você canta muito bem! Já sei quem vai representar nossa sala no festival”. E eu disse: “Não, eu não quero…”, porque eu tinha muita vergonha, mas como não podia não aceitar, fui. E ali deve ter despertado em mim esse sentimento mais aflorado, da imaginação e predisposição artística. Acho que eu sempre fui artista. 

Mais tarde, eu quis vir morar em Porto Alegre, porque no interior, com a cabeça que eu tenho, que ferve de ideias a todo o momento, é como diz o João Bosco naquela música: “Tenho alma de artista e tremores nas mãos…”, e como eu tenho alma de artista, ela não consegue ficar parada num só lugar. Então, de 1997 até 2000, eu fiz parte de um grupo de teatro chamado “Geração Bugiganga”, de São Leopoldo. Esse grupo trabalhava pela cidade, nas ruas e em outros locais. Em 2000, voltei pra Santo Ângelo pra cuidar da minha mãe, que estava com câncer, e fui convidada a fazer parte de uma banda, dessas bandas que tocam nos clubes, em bailes de 15 anos, no réveillon, no carnaval. Fiquei nessa banda de 2000 a 2005. Então, profissionalmente eu canto desde o ano 2000. 

P – E quando vens pra Porto Alegre?

VB – Vim pra Porto Alegre com o dinheiro da passagem que um amigo me emprestou. Estava passando fome em Santo Ângelo. Tinha saído da casa dos meus pais. Minha mãe tinha falecido e meu pai me colocou pra fora de casa. Eu já não estava mais podendo fazer nada lá. E não tinha perspectiva nenhuma. Tinha que vir pra Porto Alegre, tinha que tentar. Agarrei-me com unhas e dentes na minha arte, no meu canto.

Pensei [suspiro]: “Eu vou tentar. Aqui em Santo Ângelo, o nada eu já tenho. Posso tentar o nada em Porto Alegre. Se não der certo cantando, posso virar uma vendedora da C&A, por exemplo [risos]”. Larguei tudo o que eu tinha lá, que não era muita coisa, peguei as minhas roupas e vim.

Acho que eu vim pra cá em março ou abril de 2005. Não lembro em que mês foi o Carnaval em 2005, e isso tem que ser pontuado, porque eu participei do concurso de Rainha do Carnaval lá em Santo Ângelo antes de vir pra cá. Eu tinha que ganhar um título antes de vir [risos]. Não ia sair assim sem nada, né? Ganhei o concurso de Rainha do Carnaval e dois meses depois já estava morando em Porto Alegre. Lembro que eles ainda chamavam de Rainha Gay, e naquele momento eu não entendia muito bem essa história de trans e travesti.

P – Quando iniciou o teu processo de transformação com os hormônios?

VB – Nessa época do concurso de Santo Ângelo, eu já estava hormonizada, já estava nesse processo. Eu tinha saído da banda em dezembro de 2004, justamente porque o pessoal da banda começou a falar: “Ah, a gente não te entende, não sabemos o que você é pra explicar pras pessoas que nos contratam. A gente não contratou uma pessoa assim, a gente contratou um menino”. Enfim, essas coisas que temos que ouvir quando se é uma mulher trans e em ebulição de hormônios. 

A minha hormonização começou com 18, 19 anos. Mas era bem leve, bem discreta. Eu entrei nessa banda com 20 anos. Depois, lá por 2003, eu comecei com a hormonização de forma mais intensa, e aí não teve mais como fugir. 

Eu lembro que um dia já estava com o peito aparecendo na roupa e tive que colocar uma faixa pra apertar e não aparecer. Eu estava vestindo um terno que marcava muito, caracterizada de Whitney Houston, e a responsável pela banda falou: “Nossa, mas teus peitinhos tão aparecendo”. A partir dali, aquele trabalho prazeroso virou um trabalho triste e cansativo, e eu não quis mais. 

P – Pelas tuas falas anteriores, a figura da tua mãe me parece muito marcante e importante… 

VB – Minha mãe foi a pessoa que mais participou da minha vida, e eu sempre tive uma preocupação de não magoá-la. Pensava no que ela ia dizer, como ela ia se sentir, em não fazê-la sofrer. Nossa relação foi maravilhosa durante os anos em que ela esteve viva. Inclusive nas questões de sexualidade, de gênero, porque quando eu fui botar pra fora aquilo que já estava dentro de mim, minha mãe já sabia, e foi compreensiva. Eu tive essa conversa com ela aos 18 anos. 

Eu tive problemas psicológicos e financeiros muito fortes e que se intensificaram depois que minha mãe faleceu. Passei a ser uma consumidora compulsiva, e todos os dias eu comprava alguma coisa pra suprir a falta dela e de outras coisas. Pra teres uma ideia, eu tinha tanta roupa que eu podia usar uma calça por dia durante três meses, sem repetir. Sem ter condições financeiras, eu saía e comprava alguma coisa, porque as lojas me vendiam. 

Minha mãe realmente era meu esteio. Inclusive em muitas ocasiões era ela quem tomava as decisões por mim. Permaneci em Santo Ângelo por causa dela. E certamente estaria lá se ela estivesse viva.

P – Há pouco você comentou que teu pai te colocou pra fora de casa. A relação com ele foi muito difícil?

VB – Depois que minha mãe faleceu, a relação com meu pai, que já não era boa, ficou uma relação de duas pessoas estranhas dentro de casa. Comecei a sentir animosidades da parte dele, como quando pedia que eu gentilmente me retirasse, até que isso ficou muito forte. 

Eu sou adotada por ele. Ele é pai dos meus irmãos. Somos irmãos por parte de mãe, mas não do mesmo pai. Em 1996, acho que foi em 1996, ele me adotou como filha na certidão de nascimento. Mas a gente nunca teve uma relação muito próxima, de pai e filha, e com a questão da minha mudança de gênero se acentuando, foi ficando pior. 

Minha mãe foi muito sábia. Ela deixou um seguro de vida pra gente e não o colocou como beneficiário, porque descobriu que ele tinha um caso extraconjugal enquanto ela estava doente. Vim a descobrir isso depois.

Na época que ele me colocou pra fora de casa, eu passei muitas dificuldades. Fui morar num porão onde eu mal conseguia ficar em pé. Era o que o meu dinheiro dava pra pagar. Mas hoje em dia nossa relação está um pouco melhor. A gente conversa, ele já veio na minha casa. Temos uma relação como a de um parente distante, a de um primo de terceiro grau que vem me visitar.

Mas agora eu tenho família: um cachorro, um gato e um noivo [risos] Pronto! Agora eu tenho uma família.

P – E a relação com teus irmãos? 

VB – Quando meu pai me colocou pra fora de casa foi muito difícil porque eu tive que me separar dos meus irmãos. Eu e meus irmãos temos uma relação muito boa, e com meu irmão mais novinho, a gente tem uma relação incrível. Eu criei a minha irmã, que criou o meu irmão, e eu, de certa forma, até certa idade, criei ambos. Essa separação também foi difícil porque eu não conseguia falar com meus irmãos, porque ele não deixava. Então, com meus irmãos é bem diferente, a gente tem uma relação de irmãos mesmo. 

P – Como se deu tua inserção no mercado de trabalho em Porto Alegre?

VB – Eu vim para Porto Alegre sem saber se ia dar certo. E não tinha notícias de alguém como eu que me servisse de referência. E por não ter, acabei sendo minha própria referência. Parece meio pretensioso, mas não é, porque eu não tinha mesmo. Eu queria entender o lugar em que eu estava, e falei: “Bom, vou criar um lugar aqui em que eu possa ser essa pessoa que eu sou. Ser eu mesma”. E eu tinha muita preocupação em como as outras artistas iam me tratar, se elas iam compreender, se elas iam aceitar, se iam me receber bem. E foi maravilhoso, foi incrível.

P – A partir de que momento percebeu que ia dar certo? Quando começou a ganhar dinheiro como cantora?

VB – Em alguns meses. Mas duas semanas depois que eu cheguei, já fui pro Venezianos Pub e cantei no videokê, incentivada por um amigo, o Jeferson – sempre falo isso pra ele: “Jef, a culpa disso é tua”. Eu não tinha dinheiro pra ir a lugar algum. Na época, o ingresso pro Venezianos era R$ 3 e eu não tinha nem isso. 

Naquele dia em que eu cantei no videokê, a reação das pessoas foi uma loucura, a recepção foi ótima. Um mês depois voltei lá a convite da Vera, que na época era a dona do pub. Ela disse: “Temos um funcionário que trabalha aqui no videokê e que tá saindo, quer trabalhar no lugar dele?” E eu falei: “Nossa, tô procurando trabalho, é tudo o que eu quero”. Pensei comigo: “Vou entrar por essa porta”. E assim comecei. 

Uns três ou quatro meses depois as pessoas começaram a se perguntar quem era aquela trans que cantava com uma voz muito feminina. Queriam entender, conhecer. Havia uma curiosidade que movia os clientes do Venezianos e que fez crescer a propaganda boca a boca. A partir dali as coisas foram acontecendo, comecei a fazer shows em Florianópolis e em outros locais. Até o final do mesmo ano da vinda para Porto Alegre eu já estava com certa projeção no meio LGBT.

E eu também recebia do meu amigo que morava aqui em Porto Alegre uma revista do Vitraux, uma casa de shows muito famosa do meio LGBT, bem antiga, pioneira. E nessa revista havia muitas artistas fazendo shows, e elas recebiam, eram pagas por isso. Eu pensei, “Nooossaaa, olha aí, é isso que eu vou fazer. Não sei se vão me entender cantando”. Aí perguntei pro meu amigo: “Elas cantam?” E ele respondeu: “Não, elas dublam, e você vai fazer um sucesso enorme cantando”. 

Depois de três ou quatro anos de trabalho, as coisas foram ficando um pouco pequenas por aqui, e o curso natural das coisas pediu que eu alçasse voos um pouco maiores. Então, comecei a ir com mais frequência pra Florianópolis, onde eu fazia shows no “Mix Café”, que nem existe mais, e fui cantar em outras regiões do interior do RS.

P – A consagração e o reconhecimento nacional vieram em 2012, quando você venceu o Festival da Canção Francesa, promovido pela Aliança Francesa?

VB – Em 2012, aconteceu uma coisa muito curiosa. Eu tenho uma amiga que, na época, já tinha participado do programa “Astros” (programa de revelação de talentos do SBT), mas ela ainda não tinha passado pela transição hormonal. Quando a chamaram de novo, ela – que ainda era ele –, não quis mais participar e me indicou. 

Junto a isso, eu já estava envolvida e me preparando para o Festival da Canção Francesa, e eu não tinha muita pretensão de ir, porque eu achava que não ia rolar. Na época, eu estava preocupada, porque uma das regras do regulamento dizia que não podíamos ter pseudônimo, e eu pensei que eles achariam que meu nome social fosse um pseudônimo e, por isso, poderiam me desclassificar. Estava com medo, não sabia se ia ou se não ia. Acabei entregando a inscrição no último dia. 

P – E você venceu a etapa nacional do Festival e foi pra Paris…

VB – Sim. Vencer a etapa nacional do Festival da Canção Francesa me levou pra Paris, em 2013, o que pra mim era um sonho, embora eu jamais tivesse imaginado que fosse se tornar realidade um dia estar em frente à Torre Eiffel. Lá em Santo Ângelo, consegui um emprego de faxineira numa escola de idiomas, e numa das minhas primeiras faxinas, eu entrei na sala de francês e tinha um cartaz gigante da Torre Eiffel na parede. Lembro-me de olhar aquele cartaz e falar: “Meu Deus, que coisa mais linda esse lugar! Um dia eu vou lá.” Aí eu já me corrigi e disse: “Não, com o salário que tu ganhas aqui, não vai rolar” [risos]. Mas fiquei amiga da professora de francês e ganhei uma bolsa de estudos. Então, terminava a faxina e ia para as aulas. Jamais imaginaria que muitos anos depois eu ganharia o Festival da Canção Francesa e que o prêmio era uma viagem pra Paris.

P – Valéria, na conjuntura política atual, como você avalia a situação das comunidades negras e LGBTQIA+ no Brasil e no mundo?

VB – Do ponto de vista político, a mensagem evidenciada é que essas comunidades e suas lutas devem ser descartadas, e, se possível, abafadas e apagadas da história. Há um esforço constante de parte de algumas pessoas e de alguns grupos para nos humilhar e nos desacreditar. A gente tem percebido ataques violentos e descabidos cada vez piores. O que estão fazendo com a comunidade negra no mundo, em especial nos Estados Unidos, é de uma crueldade desmedida. Mas isso sempre aconteceu, inclusive aqui no Brasil, é só olharmos o aumento no número de agressões e assassinatos de pessoas pretas e trans. 

P – Quando a gente fala do preconceito e do racismo, sempre há o fator violência, mas nem sempre a violência é física…

VB – Exatamente. 

P – Pode nos falar da tua experiência? Como é pra você essa questão da violência física e da violência psicológica? 

VB – Bom, eu sou uma pessoa tolerada, né? Eu não sou aceita. Que fique bem elucidado que eu não sou aceita. Eu sou uma pessoa tolerada.

P – Mesmo pelos mais próximos?

VB – Mesmo pelos mais próximos, porque ainda há uma cultura… É bem verdade que a gente precisa dividir os mais próximos em pessoas que estão dispostas a escutar e aprender e pessoas que não estão e preferem continuar com essas situações a que acham ou chamam “normal”. 
Eu sou uma pessoa tolerada nos lugares, inclusive também nos meus espaços de fala. Muitas das coisas que eu falo sobre pessoas trans para o próprio meio LGBT me são questionadas como se fossem algo muito fora da realidade. Também vejo que sou cobrada por algumas questões de negritude, porque também há uma confusão nessa história do “colorismo”. Mas isso tudo é o resultado que vem de uma performance de cisgeneridade que tem cor, e que é branca. Durante muito tempo as pessoas acharam que podiam fazer comentários e piadas, ou que podiam fazer afirmações racistas e transfóbicas e que estava tudo ok. O racismo foi por muito tempo normalizado, e desconstruir isso é difícil e leva tempo, embora já tenhamos tido tempo suficiente para que essas mudanças acontecessem.

Para a artista, questões de gênero e de raça se mostram de formas diferentes dependendo do lugar onde se estás (foto de Silas Lima – Divulgação)

P – Qual é o caminho para alcançarmos a igualdade de gênero e de raça?

VB – A solução sempre esteve aqui, há muito tempo a gente tá dizendo pra vocês, pra branquitude: “Nos ouçam, nos ouçam, nos ouçam, nos ouçam”. A gente precisa ser ouvida, não é falta de diálogo, o que falta é escuta. Falta escuta, porque as pessoas, a cisgeneridade, a branquitude, sempre deram suas próprias cartas, e sempre colocaram palavras na nossa boca. 

Mas também tem outra questão sobre a qual, nós, pessoas pretas e trans, precisamos refletir. É comum uma pessoa preta ter o péssimo hábito de falar por todas as pessoas pretas. E isso também acontece com os LGBTs, como quando um menino gay fala por todos os gays. Isso a gente vê se repetindo, com as representações nos meios de comunicação. Por exemplo, numa novela, onde os gays são afeminados, quando na vida nem todos os gays são assim. Outro exemplo: uma pessoa preta na televisão, quando ela está na novela das nove e a gente tem que achar legal quando ela é a empregada doméstica, não que seja uma coisa ruim ser doméstica, mas só cabe às pessoas pretas esse papel? Porque essa relação de subordinação vai ficando no imaginário das pessoas. 

Então temos que considerar o fato de que muitas vezes até o protagonismo é manipulado. O que é que eu quero dizer com isso? Quando colocam uma pessoa trans na novela das nove, o primeiro comentário é sobre a inclusão, que está havendo ali uma inclusão. 

Eu prefiro primeiro observar como é que essa pessoa trans está sendo retratada. E se ela está sendo retratada de uma maneira que não nos representa, isso se chama representação, e não representatividade, que é aquilo que a gente realmente quer, ser representada. E mesmo essa representatividade também pode ser perigosa, porque não dá pra colocar alguém pra desempenhar um papel a partir de estereótipos, como se estivesse ali em nome de todas as pessoas trans, que como eu já disse, são múltiplas e diversas. 

Então, a sociedade precisa ouvir tudo aquilo que a gente não conseguiu falar até aqui, tudo aquilo que nos foi negado dizer antes e que precisa ser dito e ouvido: “Olha, a minha realidade é essa, e eu tô aqui”. E as realidades não são homogêneas, as realidades são múltiplas e diversas mesmo nas comunidades negra e LGBTQIA+. 

“Ah, mas como é que eu posso mudar isso?” Vem aqui, vamos nos conhecer, cheguem mais perto. Ouçam nossas necessidades e, por favor, entendam que o protagonismo também é muito importante pra gente.

“A gente precisa ser ouvida, não é falta de diálogo, o que falta é escuta”. (foto de Silas Lima – Divulgação)

P – Você fala em protagonismo, e protagonismo remete à visibilidade, e ambos nos remetem automaticamente a direitos iguais, a todos termos as mesmas chances e acessos.

VB – Perfeitamente. 

P – O que é preciso para que as pessoas trans sejam inseridas no mercado de trabalho e para que não sejam “empurradas” para a prostituição?

VB – Aquilo a que chamamos prostituição compulsória. Se eu fosse colocar em grau de importância, eu colocaria em primeiro lugar o acesso à educação básica. A falta dela é uma barreira difícil de ser transposta. Eu participo de três projetos de inserção de pessoas trans no mercado de trabalho. Muitas chegam lá e não têm como fazer um currículo porque não têm educação básica. 

A pessoa trans muitas vezes foi expulsa da escola com 10 anos e já foi pra rua se prostituir, porque o pai também a colocou pra fora de casa, então a gente precisa pensar nisso. As pessoas trans não têm esse acesso à educação, e quando tem uma oportunidade, esse acesso é dificultado. 

Precisamos fazer um trabalho de conscientização na população. Fazer com que as pessoas entendam, e que tenham noção do seu papel de cidadania. Todos, enquanto seres humanos, precisam entender que têm deveres, mas que também têm direitos. E eu ainda falo pras pessoas LGBTs que não é feio sair do armário, que não é pecado [risos]. E ainda falo até mesmo para os gays com padrão heteronormativo que não pode haver preconceito e discriminação com pessoas trans e travestis.

Pra fazer as pessoas refletirem e pra saber o seu nível de preconceito, eu sempre faço algumas perguntas muito pontuais sobre a relação das pessoas cisgêneras com as pessoas trans: Quantas pessoas trans você conhece? Com quantas pessoas trans você convive? Você já fez uma festa surpresa para uma pessoa trans? Quantas já fizeram uma festa surpresa pra ti? Para quantas você já emprestou ou já pediu dinheiro emprestado? Já ligou bêbada ou bêbado, de madrugada, para uma amiga trans, dizendo que fez besteira? Em quantas tu já fez um carinho? Já beijou ou já namorou uma pessoa trans? Já sentiu desejo por uma pessoa trans e não teve vergonha disso? Quantas pessoas trans já viu crescendo pessoal e profissionalmente, sendo elas mesmas, e sentiu orgulho das suas conquistas?

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