Entrevista

Paulo Coimbra Guedes: Sou um professor moldado pelo aluno que fui

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Paulo Coimbra Guedes: Sou um professor moldado pelo aluno que fui Paulo Coimbra Guedes é autor "Tratado Geral da Reunião Dançante", que será lançado em julho pela Abre Parêntese. Foto: Arquivo pessoal

A entrevista com Paulo Coimbra Guedes relembra os tempos do Parthenon e também da URGS “sem F”. Um resgate sobre formação, leitura e escrita.

Como está dito numa pergunta aí dentro, conheço o Paulo Guedes, este Paulo Guedes, desde março de 1980, e somos amigos desde os primeiros tempos. Ele é de uma geração anterior à minha, cronologicamente falando, mas nossas afinidades são as de qualquer grande amizade, que passam ao largo dos números. No meu primeiro emprego de carteira assinada, no colégio Anchieta, de Porto Alegre, tive a ele como chefe, o que representou um estímulo imenso à vida inteligente, que espero ter desenvolvido a contento, desde então, nas aulas, nos textos, no trato com quem escreve e lê.

Procurei, nessa entrevista, cruzar direito para ele cabecear em gol. Queria que os leitores pudessem usufruir de sua percepção, de suas descobertas singelas que tanta diferença fazem. Num livro que prezo muito entre os que publiquei, Filosofia mínima – Ler, escrever, ensinar, aprender (editora Arquipélago, 2012), eu conto alguns causos relativos à minha convivência com o Paulo, como aquele em que aprendi que copos quebram.

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Junto com duas colegas, Luciene Simões e Magali Endruweit, organizamos um livro em homenagem ao Paulo que se chamou O que eu quero dizer é o seguinte (editora da UFRGS, 2018), para comemorar seus 75 anos. Lá aparece um monte de gente dando depoimento sobre o valor das descobertas dele, a começar pela frase que escolhemos para título: muitas e muitas vezes, numa conversa já avançada ou lá pelas tantas de uma aula de produção de textos, o Paulo abre, com essa frase, um momento desses em que a luta pela compreensão do que fazemos ao escrever (e ao ensinar a escrever) encontra, a custo, um jeito de ser transmissível. 

A entrevista foi feita entre dezembro e janeiro últimos, por escrito. 

Parêntese – Tu tem dois xarás importantes, um local (o médico e músico Paulo Guedes) e outro nacional (o ministro bolsonarista). Alguma vez te confundiram? Foi preciso deixar claro que não se tratava da mesma pessoa?

Paulo Coimbra Guedes – Desde que aprendi a escrever meu nome, eu sempre escrevi meu nome assim. Quando descobri o significado dessa composição e que eu podia decidir com quais dos nomes eu podia me apresentar, assinar – eu não lembro quando foi isso – continuei usando o nome todo porque eu queria também o nome da minha mãe. Desde criança, eu via minha mãe lendo, estudando, dando palpite nas conversas, eventualmente discutindo com irmãos, primos e cunhados, me contando histórias, me ajudando a estudar, conversando comigo sobre o que estava acontecendo, lendo pra mim o que ela achava interessante. 

Acho que o nome e a fama do músico e médico psicanalista Paulo Guedes consolidaram essa minha determinação quando eu entrei, em 1955, aos doze anos, no Colégio de Aplicação da URGS, sem F. Como eu sou da segunda turma, nós éramos poucos, esperados e muito expostos. Todos os adultos que ficavam sabendo do meu nome me perguntavam se eu era filho dele, e eu ficava com a sensação, depois de dizer que não, que eles se decepcionavam. Seria ali seria o lugar mais próprio pro filho dele do que pra um Guedes de outra extração?

Até perguntei em casa quem era aquele cara, e me disseram, sem qualquer ênfase, que era um primo distante. Coimbra também tem me ajudado a exorcizar o ministro bolsonarista: alguns dos meus amigos começaram a me chamar assim. No ano passado, fui buscar os documentos do carro no Correio, em Viamão, e o funcionário que viu meu nome escrito no envelope simulou um escândalo: Eu não vou te atender, coisa nenhuma! E eu disse: E eu, se fosse tu, eu também não me atendia. Fizemos um pequeno comício. 

P – Paulo, nós nos conhecemos e trabalhamos junto já quarenta anos, desde março de 1980. Acho que nunca te vi brabo, puteando alguém, xingando. Nunca. Como é isso? Como se criou este teu temperamento? Ou tu tem momentos de explosão? Nas derrotas do nosso Inter?

PCG – Olhando daqui pra quando eu poderia ter desenvolvido a arte da puteada, eu acho que eu sempre tive muita dificuldade com, digamos assim, a instrumentalidade drástica das palavras:  como é que eu ia chamar meus primos de filhos da puta, se as mães deles eram minhas tias? Como é que eu ia inventar algum xingamento original que realmente expressasse o meu sentimento e a minha fúria, se depois a gente ia voltar a conversar, jogar bola, dar risada? Então, empurrar, estapear, chutar, torcer um braço era muito menos grave, mas a vigência desses procedimentos confina-se à a infância e à duração de uma partida de futebol.  

Também não tive quem me ensinasse a arte da puteada; meu pai me xingou muito pouco, se é que me xingou: ele ficava desbocado assim que as mulheres saíam da roda, mas era só pra fazer graça. Minha mãe era mandona, mas o que ela mais gostava de fazer como mãe era explicar, e eu nem achava tão ruim ouvir a mesma explicação pela décima vez.

Eu também nunca me escalei pra mandar em ninguém, pra dirigir, pra chefiar, pra administrar qualquer coisa além da minha escrivaninha. Quando me convidaram pra assumir a coordenação da Comunicação e Expressão no Segundo Grau do Colégio Anchieta, quando eu fui teu chefe, eu aceitei porque eu estava começando a me reconhecer como um professor assediado por ideias próprias a respeito do que fazer, ou seja, eu estava me dando conta de que só fazia o que achava que eu devia fazer. 

Explico melhor: eu já tinha escrito um o Curso básico de redação, junto com o Cláudio Moreno, que não era só uma paráfrase dos que já estavam publicados porque incorporava o material que eu inventava pra dar as minhas aulas. Na verdade, o que eu estava descobrindo é que esse jeito de dar aula não era o comum. Daí, se eu fosse o chefe, eu ia incentivar esse jeito de preparar e dar aula. Mas vocês, que começaram a trabalhar comigo, vocês também achavam que tinham de fazer o que achavam que deviam fazer, e eu só tinha que dar corda. Nunca tive motivo pra reclamar.   

Mas eu sou professor, e nós, professores, somos institucionalmente licenciados para o exercício da reprimenda de largo espectro (é uma boa tradução pra puteada?), mas não só essa institucionalidade vem sendo seriamente contestada, como também a falta de prática na infância ainda me inibe. Mas já formulei algumas respostas atravessadas a um que outro ronco do diabo nas tripas. 

P – Conta um pouco da tua formação familiar: quem, quando, onde. Matrizes culturais. 

PCG – Os Coimbra e os Guedes convergem no nome que eu não herdei: os Goulart Coimbra e os Goulart Guedes são primos pelo lado materno: vó Mirandolina, que casou com Heitor Coimbra, e vó Francina, que casou com João Guedes, eram irmãs. De cada lado, saíram nove: os Goulart Guedes eram nove homens; dos Goulart Coimbra, três homens e seis mulheres, das quais três casaram com primos Goulart Guedes. Ou seja: gente que nasceu e cresceu cercados de primos e primas de todos os lados, misturados. 

Meu pai e minha mãe nasceram no Itaqui, onde viviam e ainda estão enraizados os fazendeiros Goulart. Do lado Guedes, meu pai me contou que era criança quando se foram do Itaqui. Meus avós viraram os cantineiros da empresa que assentava os trilhos do trem que iriam até São Borja. Em 1930, vó Francina não deixou o Juca, meu pai, ir pra guerra, mas ele foi em 32, como sargento dos provisórios, aos 23 anos. Ele contava umas histórias, como a do combate em que ele morreu, atravessando um rio pra fugir do tiroteio. Ele enganchou o pé numa raiz e, ainda antes de mergulhar, ouviu um grito, o sargento Guedes morreu!, e ele se conformou com isso. Quando bateu com a cara em alguma coisa, duvidou da morte, levantou e continuou correndo.

Por que eu ouvia aquelas histórias dele só com os ouvidos? Por que eu nunca perguntei se junto com ele tinha ido algum irmão ou primo? Em quantos combates ele esteve metido? Como eles foram pra São Paulo, por onde? Quanto tempo durou tudo aquilo, como foi a volta? Sou mesmo um fracasso como historiador, e ainda bem que não me faltou autocrítica pra eu nem cogitar de fazer o curso de jornalismo. 

Meu pai e minha mãe, além disso, liam. Minha mãe desde sempre: contava que tinha lido Crime e Castigo, aos doze anos, escondida, e que isso dava febre. Também só agora me ocorre conjeturar como foi que ela conseguiu, com essa idade, em 1932, em São Gabriel ou em Santana do Livramento (também nunca me ocorreu fazer uma cronologia e um roteiro da vida deles), um exemplar de Crime e castigo e alguém pra dizer pra ela: Lê, vai: é irado. Ou coisa que o valia.

Nasci em Porto Alegre, em 1942 e me conheci por gente no Parthenon, na rua Fagundes Varela, que sobe da Bento Gonçalves, mas nunca alcançou a Glória como as paralelas que a antecedem. Parou na beira do morro, na casa de número 226, onde me dei conta da minha existência neste mundo. O morro, naquela época, era baldio, e, sei lá com que idade, eu ajudava uns meninos de uma casa defronte a levar cabras pra pastar lá em cima; de tarde, a gente ia buscar. 

Depois, a gente comprou uma casa grande de madeira com um pátio enorme, do outro lado da rua. Acho que isso foi em 1950 porque relaciono essa casa com a única lembrança viva que eu tenho daquela Copa do Mundo. É a minha mãe, chegando não sei de onde: Onde já se viu fiasqueira maior: aqueles homens grandes chorando por causa de futebol. Eu nunca chorei por causa de futebol e nesse mesmo ano me alfabetizei no Instituto de Educação. E me ocorre agora que foi a alfabetização no Instituto de Educação que decidiu minha vida.

Meus pais não eram católicos; compartilhavam aquele anticlericalismo cordial do capitão Rodrigo Cambará, que era comum naquela região da Fronteira, que ainda não era conhecida como Missões. Eu, até então, não tinha tido qualquer instrução formal sobre religião.

Acho, hoje, que o mais importante desse convívio com aquela vizinhança é que eles nunca me disseram pra eu não me misturar com essa gente, e nunca ouvi nenhum dos dois falar essa gente, nem depois que o morro virou uma vila de malocas. Dessa matriz cultural, acho que a contribuição mais preciosa foi uma mãe que era uma mulher que se respeitava: ela quis estudar e foi estudar, ela quis trabalhar e foi trabalhar e, quando não tinha cozinheira, fazia o mais rápido dos bifes com arroz e salada de tomate e me botava a ir fazer compras, a encerar o chão, a lavar a louça. E eu me botei a aprender a fazer fogo no fogão a lenha e, mais tarde, na lareira. 

Em abril de 1958, ano em que fiz dezesseis e terminei o Ginásio, saímos do Parthenon no começo de abril. Fomos morar no apartamento 7, na rua Olavo Bilac, 484, entre a João Pessoa e a Santana. Por que fomos para lá? Pra nos misturarmos com outra gente – traduzo hoje a explicação que minha mãe me deu: Vocês estão crescendo. Eu tinha ido com eles visitar esse apartamento e um outro ali por perto. Era pra ficar por perto dos colégios e da Universidade. 

Eu já estava bem mais misturado no Colégio do que já tinha estado na Fagundes Varela, mas eu gostava daquela casa grande de madeira, das goiabas de março e das ameixas de agosto e de subir lá pra cima das árvores, mesmo sem goiabas e ameixas. Só que agora eu tinha de tomar minha primeira decisão pro futuro – Científico ou Clássico? – e era melhor não decidir isso com a cabeça nas nuvens. Descer das árvores pra botar minha cabeça mais perto do chão podia ajudar, assim como subir de elevador do chão pro terceiro andar, onde eu passaria a ter, tal como lá naqueles galhos, um lugar só meu.

P – Tu entraste numa UFRGS ainda aristocrática, para muito poucos, antes da grande reforma de 1970, quando Letras ainda se vinculava com a Faculdade de Filosofia. Quem eram teus colegas de Letras? O que era ser aluno de Letras nos teus anos de graduação?

PCG – Conjecturo hoje que o meu pai, funcionário concursado da Fazenda estadual, não podia deixar de ser inteirado do colégio recém-instalado na Faculdade de Filosofia da Universidade do Rio Grande do Sul e do seu exame de admissão. Por que eles acharam que era pra lá que eu devia ir? Porque eles tinham uma característica comum com os outros pais e mães que encaminharam seus filhos pro Colégio de Aplicação: eles eram gente informada e moderna. 

Moderno, aqui, só quer designar gente que se informava, que estava atenta pro que estava mudando, que percebeu, a partir do fim da Guerra, que o mundo não era o mesmo, nem o país, o estado, a cidade, que valores e hábitos antigos não serviam mais, que novas atitudes precisavam ser tomadas pra levar a vida adiante, como, por exemplo, estudar e trabalhar e prestar atenção na ciência. 

Se o Colégio de Aplicação foi concebido na URGS com a finalidade de encaminhar na vida os filhos de quem poderia de ser considerada a aristocracia desta cidade, nada deu mais errado do que isso: lá eu encontrei os meus iguais – filhos e filhas desses modernos que nem eu e os professores semelhantes aos que eu tinha tido no Instituto de Educação. Eu sou um professor formado muito mais pelo aluno que fui e pelo professor que eu estive sendo, do que pelo muito pouco que li sobre Educação, Pedagogia e pelas aulas que tive a respeito disso tudo. 

A nossa turma compunha-se de três homens – eu, o poeta Oliveira Ferreira da Silveira e o Claudino Dal Castel, que era sargento do Exército –, e por 97 mulheres, pelo menos na lista dos aprovados e classificados. Como as aulas que a gente tinha eram as aulas que tinham pra gente ter, sem nenhuma possibilidade de escolha, e ninguém dizia o que dava pra fazer com elas, todo mundo entrava mudo e saía com sono. Só no bar a gente ficava acordado. As gurias que não frequentavam o bar não abriam a boca. 

Não quero dizer que as aulas eram ruins; quero dizer que não eram dadas pra nós, os alunos que eles tinham. A quem perguntava pra que serviam as tantas muitas aulas sobre história da Língua Portuguesa pra dar aulas de Português os professores encaminhavam para o futuro, para as disciplinas de Didática Geral e Especial, que seriam dadas por aquelas senhoras da Pedagogia. Eu queria ficar sabendo de literatura. Bons tempos estes, em que a gente dá aula pros alunos que temos e que a gente ensina eles a estudarem o que eles querem estudar. 

P – Teus livros são sempre muito claramente engajados com a tua história – aliás, tu foi um dos primeiros caras a reivindicar o nexo entre vida e texto em todos os níveis, do texto escolar ao texto acadêmico. Conta alguma coisa do teu trajeto de professor nesse quesito: como foi conquistar o direito de postular esse nexo e de ousar praticá-lo descaradamente? 

PCG – Eu acho que o fator mais importante pra eu me permitir inventar coisas como professor foi a minha falta de interesse prévio em me tornar um professor quando eu resolvi cursar Letras porque eu gostava de ler e de escrever. Acho que nunca me interessei em cursar jornalismo porque o jornalismo apresentava o jornalista como um cara que sai atrás da notícia e não como um cara que escreve. Se eu queria ler e escrever, isso só podia ser com o curso de Letras. Ler era, escrever não. Um professor francês tentou me ensinar, mas já saiu dizendo que o meu texto era pédant et abstrait. Um professor inglês me mandou ler muito, sem consultar dicionário. Era o que eu já fazia, mas eu queria escrever em português. Traduzindo pro nosso moderno vernáculo, eu queria escrever português brasileiro, entidade não-existente pros meus professores da Graduação. 

De caneta em punho. (Acervo pessoal)

Eu fui dar aula de Português em 1968 no Colégio Comercial Protásio Alves porque eu tinha um contrato de professor de português na Rede Estadual, agenciado para eu, estudante de Letras, trabalhar no Instituto Estadual do Livro, como assistente do Diretor, Ruy Carlos Ostermann. Em 1968, houve troca de Governo, e eu fui encaminhado pra escola. Me ofereci pra dar aula no curso de Técnico em Publicidade pra ter um pretexto para ensinar a escrever, que eu não tinha menor ideia de como se fazia, e fui escalado. Só lembro que eu mandava escrever e lia e comentava o que eles escreviam.  

Eu era obrigado a ensinar gramática porque havia um livro didático adotado por todo o Colégio, de autoria de um professor de Português que dava aulas lá. Então, de vez em quando, eu trabalhava um trecho, mandava fazer uns exercícios e discutia as respostas com eles. Lendo um dos textos deles, descobri um erro de concordância num dos casos que a gente tinha visto na aula anterior: anotei a frase e botei no quadro na aula seguinte dizendo que era do texto do João Batista. E todos prestaram atenção na explicação. Nunca mais parei de fazer esse tipo de anotação e de tentar botar uma organização nelas. Volto a esse assunto.

Daí me chamaram, no segundo semestre de 1971, pra participar da equipe de professores que iam dar aulas de Redação Técnica no Primeiro Ciclo de Estudos da UFRGS, agora com F. Era Redação Técnica; não era aula de Português. Não era aula de Redação Técnica; era uma apresentação do que devia ter numa Redação Técnica porque os alunos eram avaliados obrigatoriamente por provas de cruzinha. A partir do ano de 1974, fomos liberados para avaliá-los como quiséssemos.

Nesse mesmo ano, me mandaram dar aula no Curso de Jornalismo e reativamente às provocações com que fui recebido pelos alunos já dos semestres finais, eu mandei eles escreverem sobre um assunto da moda, recolhi os textos, li e escrevi bilhetes nos textos deles. E continuei fazendo isso semestre após semestre, e tal como tinha feito lá no Protásio, também copiava as frases problemáticas, estranhas que apareciam nos textos deles e ia classificando elas pra usar quando fosse necessário, mas daqui a pouco eu explico.

Um dia me dei conta da suprema sabedoria daquela minha reação birrenta às provocações daquela primeira aula: tudo o que eu dispunha quando comecei a dar aulas de escrita era aquela enorme quantidade de leitura acumulada e um razoável acervo de discussões de leitura nas aulas de literatura que eu já tinha tido. Me botando a ler os textos deles fui descobrindo o que dizer a respeito do que eles escreviam. Não demorei a criar coragem para escrever bilhetes nos textos deles dizendo o que eu achava.

Já a partir desse mesmo ano de 1974, nas aulas de Redação Técnica, a gente pôde passar a solicitar que eles escrevessem – relatórios, resumos, resenhas, dissertações para analisar, para comparar, etc. –; ler isso tudo era insuportável e tentar comentar com os autores disso era inútil porque eles não tinham a menor ideia das razões para terem escrito aquilo. O contraste entre os meus dois trabalhos era por demais pedagógico pra mim e me encheu de confiança no que eu fazia no Jornalismo.

Então, fui fixando os temas que rendiam os textos mais interessantes, que apareciam quando eles tratavam deles mesmos até porque as comparações entre os textos ajudavam a enxergar o que era mais interessante de botar nos escritos. Eu era bem mais feliz como leitor quando eu lia com curiosidade e com a possibilidade de ajudar o texto a ficar melhor. Ao mesmo tempo ia entendendo o que é que deixava um texto melhor.

Quando descobrimos – isso foi já na década de oitenta – que ler o texto em voz alta em aula pra todo mundo ouvir e discutir deixava tudo muito mais interessante ainda, eles passaram a escrever também para conversar com os textos ouvidos nas aulas anteriores, como se faz na vida real. Do que passei a anotar a respeito do que acontecia e dos textos que me pareciam bons e maus exemplos para ilustrar o que fui levado a pensar acerca de textos bons e textos ruins, acabei escrevendo Da redação à produção textual, em que também conto como foi que cheguei ao programa que exponho lá. 

A partir de 96, comecei a lecionar, na Licenciatura em Letras, uma disciplina que tratava de ensino de Português; a primeira coisa que eu fazia era pedir pra que cada aluno falasse sobre a sua experiência como aluno de Português na escola. Pra que isso? Porque eu acho que a gente é professor a partir do aluno que a gente foi. Ficávamos pelo menos um mês discutindo esses depoimentos, comparando e avaliando as experiências relatadas. Aí eu dizia: Então tá, agora vamos botar tudo isso por escrito. E esse texto costumava sair bem mais perto da fala de quem tinha contado a história e discutido a fala dos outros do que os impessoais textos da Redação Técnica.

Eu nunca engoli direito a proposta de construirmos uma língua escrita comum que nos expresse como nação, cultura, identidade nacional. Verdade que isso nunca foi muito claramente formulado lá pelos anos sessenta, setenta. Eu gostava muito do Pasquim, que botava à disposição dos leitores do Brasil inteiro um modo estilizado por escrito do jeito carioca de expressar broncas de todos nós. O Pasquim ensinava a escrever: lá foram publicadas as mais interessantes cartas de leitores de todos os tempos. Acho que a escrita tem que andar na direção oposta à da padronização. Escrever é botar o próprio o dialeto a expressar o que só pode ser dito nele e fazer o mesmo com o dialeto dos outros, que assim a gente se apropria deles também. E isso é contrário de aprender a falar em cetegês pra ser bem aceito no cetegê, porque em cetegês não se fala; se imita.

P – Falando em livros: dá pra tu historiar, de modo sumário, o teu percurso de autor de livros? 

PCG – Antes do Curso básico de redação teve Redação Técnica, feito a dez mãos, coordenado pela Rebeca Poyastro. É um livro chato, pretensioso, tal como a cara da reforma universitária que criou o Ciclo Básico, numa imitação indigente dos ciclos básicos das universidades americanas, onde os alunos indecisos podem mordiscar disciplinas de diversos cursos pra escolher onde vão aterrizar. 

Já o Curso básico de redação foi feito a quatro mãos e deriva, de um lado, da bibliografia americana, com que entramos em contato no Primeiro Ciclo, e, de outro, do material que eu copiava das frases canhestras, problemáticas, mal escritas dos textos dos meus alunos. A gente fez uma primeira edição meio artesanal pra vender pros alunos, fez uma outra edição na Mercado Aberto e uma terceira edição na Ática, que foi reeditando por mais de 40 anos, só retirando livro do catálogo há uns dois ou três anos. 

Dei a ideia pra Ler e escrever; compromisso de todas a áreas, produzido nos anos noventa pelo Núcleo de Integração Universidade e Escola, da Pró-Reitoria de Extensão da UFRGS, que vem sendo reeditado pela Ed. UFGRS.  Professores mostrando como se trabalha leitura e escrita nas aulas de Geografia, Matemática, Educação Física, História, e todas as outras. 

Participo – participamos – com um texto a quatro mãos de Ler e escrever; compromisso no Ensino Médio relatando nossa experiência de levar alunos do Colégio Anchieta a escreverem um livro ao longo do 2ºano num tempo em a gente não dispunha nem de xerox e em que a maioria dos alunos não se achava capaz nem de escrever um bilhete.

A partir de uma assessoria prestada na Rede Municipal de Educação de Porto Alegre, editei Ensino de Português e cidadania também pela Ed. UFRGS. Bons tempos aqueles, em que os professores não eram tratados como robôs de dar aulas por uma administração municipal movida pelo ressentimento e pelo ódio ao seu funcionalismo e ao povo da cidade.

Graças à pertinácia do meu entrevistador, publicamos o Tratado geral da reunião dançante em 1998. Eu, hoje, acho que não há motivo algum pra que alguém neste mundo deixe de escrever um romance, exceto, é claro, a falta de recursos materiais. Acho mesmo que o direito à publicação de um romance tinha de estar lá naquela Declaração. Vai vulgarizar o romance? Não. O que vulgariza é o que só os mesmos de sempre produzem. Eu quero ler os que pertencem ao grupo dos que vem sendo ancestralmente impedidos de escrever. Já pensou o que seria um romance escrito por um cara como, por exemplo, o Lupicínio Rodrigues, se ele se autorizasse a escrever do jeito como ele se autorizava a fazer verso?   

P – E agora, qual o livro que tu tá finalizando? Quando ele sai? Nele esse mix de memória de professor, memória de leitor, postulação de conceito, ensaio formativo e algo mais encontrou seu tom sem dificuldades? 

PCG – Eu estou classificando esse livro como um outro manual de redação e chamando ele de Gramática e estilo e cheguei conclusão, quando tava terminando, de que se trata de uma revisão de Português, que não vai ajudar a resolver prova de cruzinha mas é bem capaz que, de fato, ajude o leitor a revisar o que escreveu, o que ta escrevendo. A ideia geral é esta: assim como o primeiro manual de redação – Da redação à produção textual – teve a finalidade de orientar a transformação de uma redação escolar num texto, este outro manual – Gramática e estilo – quer orientar a transformação de um texto em um texto bom. Por isso, é um manual de revisão do texto feita por quem escreve esse texto enquanto está escrevendo e depois de tê-lo escrito.

A matéria-prima é aquele conjunto de tudo o que eu fui coletando nos textos que botei os meus alunos a escrever, desde daquela minha primeira anotação lá em 1968 até nossos dias. Organizei tudo aquilo em sete capítulos: 1 Teoria do texto em haver, 2 Encadeamento, 3 Coordenação, 4 Subordinação, 5 Ordem e nexos, 6 O texto e suas frases, 7 Escrevemos textos escrevendo frases. Essa organização segue o caminho histórico da língua escrita, que se origina fora do texto, no registro por meio de sinais gráficos, dos ruídos que saem da boca de quem se dispôs a expressar oralmente o que lhe parecia digno de ser preservado. Essa atividade foi inventada na Antiguidade, e quem queria saber o que estava registrado ali dependia de um especialista em traduzir aquele conjunto de sinais gráficos grudados uns nos outros, que os lesse em voz alta, separando em palavras, em sintagmas, em orações e em frases aquelas fieiras de sinais gráficos grudados uns nos outros.

P – E o teu romance? Entrou na resposta 7? 

PCG – Entrou, mas eu queria acrescentar que só não me dispus a escrever outro porque dei prioridade a esse outro manual e às atividades relacionadas ao ensino e à orientação, mas estou cada vez mais convencido de que todo mundo tem direito mesmo à escrita e à publicação de, pelo menos, dois romances. Tenho achado também que seria bem legal ajudar a escrever romances, mas só romances. 

P – E o Inter? Como vai ser? 

PCG – Pois, é. To escrevendo aqui na segunda, 25 de janeiro, teu aniversário e dia seguinte ao grenal que eu não vi nem ouvi porque tava escrevendo. Eu já adiantei que me proibi de chorar por causa de futebol lá em 50, com ainda 7 anos. Desse modo, faz tempo que me declaro, descaradamente, um colorado das boas horas. O Pedro, meu filho, bem que tentou me levar pra um jogo que outro daquela Segundona, mas não rolou. Cheguei a pensar, depois que li aquele livro do Wisnik sobre futebol [Veneno remédio – O futebol e o Brasil, 2008], em que ele conta como virou santista à revelia do pai sampaulino, que aí estaria um interessante tema pra pedir pros alunos. Aí, achei que eu também devia escrever isso e me dei conta de que não sei nem quando nem como isso aconteceu. 

Bem mais estranho do que isso foi ficar sabendo, só depois de homem feito e pai de filho, que o meu pai era gremista, no dia em que ele anunciou que tinha comprado uma cadeira cativa no Olímpico. Por que no Olímpico, pô? Ele só ficou me olhando. Nossa cordialidade, no entanto, não se abalou. 

Mas, com relação ao Colorado, tem coisa mais séria, e, pra bem esclarecer o meu grilo, preciso narrar um episódio ocorrido no Beira-Rio acho que no começo dos anos Oitenta, em dezembro, perto do Natal. Ocorre que tinha um espetáculo comandado pela Xuxa, em que o Papai Noel chegaria. Era um domingo, e com irmãs e primas e primos e a respectiva criançada tínhamos almoçado e fomos pra Redenção, pro Brique, e alguma criança cheia de ideias e de informação queria pra ir pro Beira-Rio. O namorado novo de uma prima, também pai de um filho pequeno, também por ali, disse que ele levava, e ninguém mais se manifestou. Quando ele reuniu a criançada, eu contei nove e me apiedei: Eu vou com vocês.

Fomos, e não perdemos nenhum, mas um dos cantores, carioca, paulista, mineiro, capixaba, sei lá, resolveu levantar a massa antes de cantar, e gritou no microfone: E quem é gremista aíííííí? Mais ou menos um décimo do estádio berrou de volta. E aí, o que o cantorzinho forasteiro faz? Ele grita: E quem é internacional aíííí? Nada, ninguém responde. Ele grita de novo a mesma asneira, e nada de novo. Que língua ele tava falando? Na nossa língua, a pergunta é esta: E quem é colorado aíííííí? Desse modo, noventa por cento do estádio gritaria de volta.

Que história é essa de Inter, que o rádio e a tevê andam falando muito? É pra nos afastar das nossas origens daqui no Sul da Terra? Querem nos levar pra onde? Pra UEFA, pra Milão? Que bovarismo é esse? Só espero que ninguém me pergunte pela Inter.


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