Entrevista

Pedro Cezar Dutra Fonseca – Entendendo melhor Vargas

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Pedro Cezar Dutra Fonseca – Entendendo melhor Vargas

Nosso entrevistado de hoje é um grande economista e professor da área de História Econômica na UFRGS. Autor de artigos acadêmicos exigentes e de textos sobre economia para o leitor comum, sempre em alta qualidade, Pedro Fonseca tem grande habilidade para explicar com clareza questões complexas. 

Aqui na Parêntese ele já colaborou em duas ocasiões – com um artigo (leia aqui) e auxiliando numa das primeiras entrevistas que publicamos aqui na revista, com o economista Cláudio Accurso (leia aqui). 

Sua trajetória é aqui repassada, da infância ao presente – do mundo restrito de São Borja, por sinal terra natal de Getúlio Vargas, que seria objeto de pesquisa em seu doutoramento, na USP, até o presente, que o Pedro vê com a amargura de um professor que constata ao vivo a fuga de cérebros para o exterior, um fracasso civilizacional de nossos dias. 

Se precisar escolher uma parte como mais interessante, eu recomendaria ao leitor ler com lupa a resposta à sétima pergunta, na qual nosso entrevistado expõe a dialética de sua ligação com a figura de Vargas. 

A entrevista foi feita por escrito.

 Luís Augusto Fischer


Parêntese – Pedro, tu, modéstia à parte, és nativo de São Borja, certo? Viveste lá por quanto tempo? Como era a tua vida? Tinha relação com o campo, com a economia tradicional da fronteira? 

Na infância (Arquivo pessoal)

Pedro Cezar– Sim, nasci em São Borja em 7 de novembro de 1954, no mesmo ano em que Getúlio Vargas morreu. Minha mãe comentava que ela e outra vizinha foram as únicas pessoas conhecidas que não foram ao enterro, pois naquela época não recomendavam grávida ir a cemitério. Muitas pessoas me perguntam se isso tem a ver com o fato de mais tarde eu ter feito a tese de doutorado sobre Vargas e eu respondo que, conscientemente, não. Quando me inscrevi para o doutorado na USP, meu projeto de tese era sobre inflação inercial, tema em moda na época. Trabalhar sobre Vargas foi ideia de meu orientador na Faculdade de Economia da USP, Iraci del Nero da Costa. Como minha dissertação de mestrado fora sobre a interação entre economia e política na Primeira República no Rio Grande do Sul, tinha estudado Vargas antes de ser presidente, o que de certo modo era novidade. 

Usei uma metodologia que incorporava os dados quantitativos, como tradicionalmente se trabalha na área de História Econômica, e análise de discurso, o que não era usual entre economistas. Os números ajudam muito, mas nunca explicam as razões, os motivos, o que fez eles serem tais grandezas e não outras. Queria entender a razão dos conflitos entre chimangos e maragatos e ir além da interpretação vigente à época, de que eles se deviam basicamente a razões ideológicas, como entre as opções por império ou república, centralização ou federalismo, presidencialismo ou parlamentarismo. Ninguém se arrisca em revoltas tão violentas só por isso, deveria haver algo mais para se chegar a uma explicação mais acabada e convincente. Nunca tive a pretensão de que a economia fosse determinante sobre as outras instâncias “superestruturais”, como era dominante no marxismo da época, mas entendia que era bem possível que tivesse influenciado. A dissertação recebeu em 1981 o segundo lugar no Prêmio BNDES de Economia, a premiação mais importante na área para mestrado. Ao chegar na USP, o professor Iraci sugeriu que eu aprofundasse os estudos e analisasse o período após 1930, o que implicava acompanhar a trajetória de Vargas do Rio Grande do Sul ao Governo Federal.

Voltando a São Borja: vivi lá até os 14 anos, quando vim para Porto Alegre cursar o ensino médio, ou secundário, como se dizia então. Ao contrário da maioria dos colegas que optavam pelo curso Científico ou Clássico, resolvi cursar Técnico em Contabilidade, em parte porque sabia que era de bom nível e ficava perto de onde morava, no começo da Duque de Caxias, na Praça do Portão (oficialmente Conde de Porto Alegre). Vim a Porto Alegre em dezembro de 1969 fazer um tipo de vestibular, um processo seletivo para ingresso na Escola Técnica de Comércio da UFRGS, que era anexa à faculdade de Ciências Econômicas e sediada em um prédio atrás desta, entre os da Economia, Engenharia Nova e Direito. Fui aprovado e nunca mais saí desta esquina entre a João Pessoa e o início da Osvaldo Aranha: cursei graduação e mestrado em Economia no mesmo lugar, onde também comecei para dar aula em 1978. Lá estou até hoje, pois completarei em março 44 anos de docência na UFRGS. Se somar com o período de aluno já são mais de 5 décadas. Costumo dizer que, quando morrer, se meu fantasma sofrer da mesma angústia do pai de Hamlet e resolver vagar por aí, certamente o cenário será aquele quarteirão. 

P – E a tua família: tem raízes locais? Antigas? 

PC – Sim, tanto os Dutra como os Fonseca. Ambos estão em São Borja há várias gerações, mais de dois séculos. As raízes são ibéricas. Tarso Dutra (político que foi deputado, senador e ministro da Educação, primo-irmão de minha mãe) fez a árvore genealógica da família, e concluiu que a origem é Utrecht, na Holanda. Migrando a Portugal, fora simplificado por como lá pronunciavam: d’Utra. E assim se escreveu por bom tempo; posteriormente, chegamos a Dutra. Já os Fonseca provavelmente são originários da região norte de Portugal, ou talvez da Galiza; até hoje em Santiago de Compostela há o Palácio dos Fonseca, cujo patriarca também dá nome à biblioteca de Salamanca, da qual, pelo que sei, foi o mecenas. Como todas as famílias que vieram da Península para o Brasil, há a suspeita de que eram cristãos novos. Acho que foi no livro de Ana Miranda, Boca do Inferno, onde li que o primeiro rabino do Brasil era Fonseca.

Todavia, não deixa de ser estranho, pois se tivessem ascendência judaica o tal palácio seria confiscado pela Inquisição e os familiares não receberiam doação de sesmarias, já que eram sumariamente expulsos, ao contrário do que aconteceu com meus ancestrais que vieram para o Rio Grande do Sul. 

No plano político local, ambas as famílias eram alinhadas ao PRR. Éramos vizinhos dos Vargas, daí a amizade antiga entre as famílias.  A casa deles era separada da nossa por apenas por um muro, no mesmo quarteirão, e foi posteriormente herdada pelo general Serafim Vargas, sobrinho do Getúlio e excelente figura humana. Já os Goulart também eram amigos, mas não tão próximos como os Vargas; a amizade maior era com minha mãe, que fora colega de aula do Jango quando criança e a mantiveram ao longo da vida.  

Minha avó materna contava que em 1893, na Revolução Federalista, os partidários da oposição, geralmente chamados de maragatos ou libertadores – a denominação variou ao longo do tempo – invadiram a fazenda da família. Em 1923, até a casa da cidade recebeu a visita de um grupo armado e foi vasculhada em busca de materiais incriminatórios (entre estes incluíam-se até livros de Comte, veja só) e armas. Na casa só estava minha vó com as filhas, pois meu avô ficara na fazenda, para defesa em caso de nova invasão. Ela contava que, quando foi assinado o pacto de Pedras Altas, que deu fim ao conflito, foi uma festa lá em casa, pois comemoravam o que teria sido a maior derrota dos maragatos: a confirmação de mais um mandato para Borges de Medeiros. 


O pai de Pedro Fonseca (o segundo da direita para a esquerda) se preparando com os amigos para ir à Revolução de 1930.

Os Dutra sempre foram mais metidos em política do que os Fonseca, e um dos coronéis mais influentes do castilhismo era Vazulmiro Dutra, irmão de minha vó e chefe político na região de Palmeira das Missões e Júlio de Castilhos, mas cujas terras iam até as atuais Iraí e Frederico Westphalen, próximas do município de Vicente Dutra, que é o nome de outro irmão dela. Já os Fonseca, embora da mesma facção política, eram menos participativos. A ponto de meu avô casar com uma Escobar, uma das mais destacadas famílias maragatas de São Borja. Não eram muito usuais na política local tais casamentos, e por isso as biografias de Getúlio, como a de Lira Neto, sempre lembram que ele descendia de duas famílias também rivais na política, os Dorneles e os Vargas, o que era inusitado. É até hilário que, em análises “psicológicas”, há a hipótese de daí ter vindo a tendência dele, em 1930, de fazer a união da política gaúcha para concorrer contra chapa paulista. Até isso Freud explica… Brincadeira freudiana ou não, o certo é que Borges de Medeiros teve que engolir tal união com os tradicionais adversários e nunca o perdoou: mais tarde entrou para a UDN, o principal partido de oposição ao varguismo.

P – Como se desenvolveu tua escolaridade? 

PC – Estudei o primário em São Borja em colégio católico, de irmãs da congregação do Sagrado Coração de Jesus. Fui coroinha. Mas quando se ingressava no ginásio, no meu caso com 11 anos, precisava-se migrar para o Colégio Estadual (CESB), pois as irmãs não admitiam turmas mistas a partir daí, pois colocar lado a lado adolescentes de ambos os sexos deveria ser algo perigoso. Depois, como já disse, vim para Porto Alegre. Meus pais entenderam que o nível médio em São Borja não teria nível suficiente para, mais tarde, eu prestar vestibular para ingresso em um curso superior. Mas, como falei anteriormente, fiz um exame de seleção para entrar na Escola Técnica da UFRGS e fui dos primeiros colocados. Nunca tive dificuldade em aula, sempre tive muito boa base em disciplinas como Português, Matemática, História… Passei no vestibular de Economia logo ao terminar o ensino médio, em 1973. Minha nota de maior escore padronizado foi em matemática. Nada tenho a reclamar do ensino em São Borja, até hoje recordo os excelentes professores, tanto na escola privada como na pública. 

E em 1975 prestei outro vestibular e comecei a cursar simultaneamente Ciências Sociais, também na UFRGS, o que então era permitido. Por alguns anos, tinha aula na Economia pela manhã e à noite, e à tarde fazia Ciências Sociais, que ainda não era no Campus do Vale, mas no antigo “prédio da Filô”, hoje chamado de Anexo I. Fui privilegiado e sempre tive consciência disso, pois conseguia só me dedicar aos estudos, enquanto vários colegas precisavam conciliar com o trabalho. A primeira vez que trabalhei com carteira assinada foi em 1977, último ano da faculdade, e já no magistério, ao lecionar Estatística e outra disciplina chamada de Economia e Mercados, na Escola Rainha do Brasil, no Partenon, ao lado da igreja Santo Antônio (na rua Luís de Camões). 

Não terminei Ciências Sociais. Após 3 anos no curso, concluí a graduação em Economia e ingressei na pós-graduação nesta área. Não havia mais como conciliar dois cursos. Minha intenção inicial era posteriormente terminar os créditos que faltavam, mas logo fui para o doutorado e apareceram outros projetos. Até hoje considero o curso de Ciências Sociais essencial em minha formação, pois me deu uma base de História, Sociologia, Ciência Política e Antropologia bem maior que a média dos colegas formados só em Economia. E isso foi fundamental para, logo após formado, ser contratado como Professor Colaborador (horista) para dar aula de História do Pensamento Econômico, uma disciplina difícil para quem não tem bom trânsito nas demais ciências humanas. Hoje vejo que eu era pretensioso e corajoso, tinha 23 anos… 

Mas eu adquirira boa experiência na área, pois fora monitor por três anos do professor Francisco Machado Carrion (pai do ex-deputado Carrion Junior, tragicamente falecido num acidente aéreo). Devo ao professor Carrion o incentivo para me dedicar ao ensino e à pesquisa, coisa que até sonhava, mas achava além da exequibilidade ao ingressar no curso. Sempre me portei de modo a ele nunca poder lamentar, referindo-se a mim, como o professor de melancolia do apólogo de Machado, ter servido de agulha para linha ordinária…  Ele dizia que esta era minha vocação e apostou muito em mim. Era conservador assumido, arenista militante, e eu, na época, como era usual entre os estudantes, bem mais contestador, embora nunca tenha me considerado um militante de carteirinha ou radical. Era e sou defensor intransigente da democracia, não consigo transpor esse limite, mesmo em prol de “valores maiores”; por isso, não sou condescendente a nenhuma ditadura, nem mesmo as que se intitulam benevolentes e populares, seja na Rússia, Cuba, Albânia ou aqui… 


Pedro Fonseca (à direita) com Maurício Sirotsky Sobrinho (centro) e Carrion Jr em debate sobre política agrícola

Então, sempre tive dificuldade de me alinhar a facções do movimento estudantil. O professor Carrion possuía uma cultura enciclopédica. Católico convicto, participou da Liga Eleitoral Católica e criticava os três grandes materialismos do século XIX, todos, segundo ele, negadores da dualidade categorial da ontologia clássica do aristotélico-tomismo: o marxismo (por ser ateu e aniquilador dos direitos naturais, não admitindo que estes eram anteriores ao estado e não concessão deste); o positivismo (pelo ceticismo metafísico e negar qualquer transcendência); e o liberalismo (por seu materialismo hedonista e individualista, defensor do consumo e da acumulação desenfreada). Levava ao pé da letra a relação de Max Weber entre capitalismo e ética protestante. 

P – Quando tu vens para a capital? Como foi essa chegada? Tu conhecias Porto Alegre antes de viver aqui?

PC – Minha chegada foi tranquila, já conhecia a cidade, pelo menos o Centro e os bairros mais próximos. O fato de morar com parentes e de terem também vindo colegas de São Borja estudar aqui ajudou, pois tinha uma turma para sair nos fins de semana. Mais tarde, aluguei apartamento com alguns desses amigos. Isso me tornou desde cedo muito independente, embora eu passasse todas as férias em São Borja. Adorava a cidade, as festas, a turma, o carnaval. Jorge Ferreira, em seu livro sobre Jango Goulart, ao descrever São Borja comenta que entre seus moradores era comum ouvir que de lá era o segundo melhor carnaval do país, só atrás do Rio de Janeiro. Eu estudei música, piano, sou formado em Teoria Musical e Solfejo. Uma burrada de cujo arrependimento decorre certo lamento até hoje foi ter parado de estudar música ao vir para Porto Alegre. A professora, dona Noêmia, dizia que o diploma permitia dar aula de música na rede escolar, mas nunca conferi essa possibilidade.  Meus vínculos também continuaram por escrever uma coluna na Folha de São Borja, com crítica de livros e discos. Às vezes me dá vontade de ir atrás desse material, deve haver um arquivo por lá. Lia muito literatura, principalmente brasileira e latino-americana, e estava no auge do Tropicalismo e da MPB. Era impressionante o número de excelentes compositores e cantores de nível convivendo em um mesmo tempo e lugar. 

Como alguém já mencionou, talvez sem igual no mundo na mesma época e, talvez, em um século nunca volte a ocorrer por aqui, pois foi um evento probabilisticamente raro. Eu dizia que quando ficasse velho não iria repetir a geração de meus pais, que detestavam os novos gêneros (bossa nova, rock, jovem guarda, MPB, música eletrônica) e glorificavam as serestas, sambas-canção e boleros. Infelizmente a música brasileira decaiu tanto em qualidade que não pude cumprir minha promessa. Até hoje não sei por que chamam o tal “sertanejo” de “universitário”, pois não vejo nada de universitário no gênero, está mais para pré-primário. 

P – Teu período de graduação foi no miolo da ditadura militar, e a faculdade de Economia era conhecida por ser um centro de direita, entre professores e alunos. Era isso mesmo? Como era estudar nesse contexto?

PC – O curso era conservador, mas não era só a Economia, pois houve cassação e aposentadoria de professores em toda a UFRGS. Entrei na faculdade em 1973 e já em 1974 começou o governo Geisel e sua “distensão lenta e gradual”. Parece que o professor mais de esquerda teria sido o Temperani Pereira, político com vínculos com o PTB, mas não o conheci. Uma aposentadoria, penso que voluntária e se adiantando aos fatos, foi a do professor Peri Pinto Diniz, o grande mentor do IEPE e introdutor da pesquisa na faculdade, e que fazia questão de enviar os melhores estudantes após formados a estudar no exterior, algo inédito na área. O professor Peri foi grande administrador e empreendedor, pois também foi idealizador da Secretaria de Estado do Planejamento e do BRDE. Na leva dos excluídos, uma grande perda foi o Claudio Accurso, que estudara na CEPAL [veja a entrevista dada por ele aqui], era inteligentíssimo e atualizado, mas nunca foi marxista nem militante e, ao que consta, saiu por inveja de certo professor integrante da comissão de expurgo, já que era adorado pelos alunos e não abria espaço para o tal professor ser paraninfo, algo que este prezava muito. 

Nas ditaduras ocorre muito isso: os recalcados e invejosos aproveitam o clima de arbítrio e a censura para agir sem punição. O próprio Vargas, certa vez, depois do Estado Novo e já em São Borja, teria feito esse comentário, pois – dizia – só ficara sabendo de muitas arbitrariedades depois da democratização. Agora, no curso de Economia predominava o paradigma neoclássico. Os únicos professores diferentes, em termos teóricos, mais para o lado da esquerda, eram o José Bonetti Pinto, de História Econômica Contemporânea, e o José Fraga Fachel, de Sociologia, ambos, é claro, queridos pelos alunos. Mas havia bons professores no curso, ao lado destes e dos ruins, como em todo lugar. Destaco o Ary Burger, Hélio Portugal Silva, José Truda Pallazo, Edgar Irio Simm e Carlos Crusius. Entretanto, o curso de Ciências Sociais era mais aberto ao debate, havia um pluralismo teórico que só pelo final da década de 1990 foi possível ocorrer na Economia. 

P – Tua amizade e parceria com a Sandra Pesavento começou quando e como? Que lembranças tu guardas dela? O pensamento crítico e historiográfico que marca a tua trajetória teve a ver com tua interlocução com ela?

PC – Sempre gostei de História e da área de Humanas, tanto que optei pelos cursos de Economia e Ciências Sociais e me tornei monitor de História do Pensamento Econômico muito antes de conhecer a Sandra. Vim a conhecê-la como aluno da disciplina de História do Rio Grande do Sul, no curso de Ciências Sociais. Neste tive grandes professores: José Tavares, de Ciência Política (não confundir com o José Vicente, nem sei se este na época já era professor), Milton Bins e a ótima Élida Rubibi Liedke, de Sociologia – acho que fui aluno em uma das primeiras turmas de ambos. O curso tinha a peculiaridade de permitir muitas disciplinas eletivas, quase 40 % da carga horária. Optei por cursar quase todas no Departamento de História. Assim, conheci a Helga Piccolo, que já era a sênior da área, uma espécie de referência para a nova geração. Amada por uns por suas aulas inigualáveis e, como sói ocorrer, também odiada por outros. Para começar, os militantes viam com nariz torcido o fato de ela não ser marxista e admiradora de Max Weber – na época um pecado. E para os não muito chegados a estudo e acostumados com seminários onde só ouviam e pouca cobrança, Helga era professora aos moldes tradicionais, com aulas predominantemente expositivas e provas sem consulta e extensas; corrigia nos detalhes; dava nota com duas casas depois da vírgula, como 8,25 – como pode alguém, perguntávamos, ser tão precisa assim ao avaliar questões dissertativas? Mas, se alguém fosse reclamar, ela explicava detalhadamente como lá chegara. No início do semestre, avisava: “com média 8,5 já fica com A”. E a seguir, entre a ironia e a ameaça: “Claro, se alguém conseguir 8,5”. Mas nada a abalava: “sou prussiana e luterana”, costumava dizer. Maravilhosa! 

Já na nova geração despontavam professores e professoras também destacados, como Maria Luiza Martini, que tivera experiência em teatro e, quando inspirada, transformava a aula em verdadeiro show; Vera Cohen, Sílvia Petersen (embora desta eu não tenha sido aluno) e Sandra Pesavento. A Sandra tinha a peculiaridade de ser, na minha opinião, a mais voltada à pesquisa. Me ajudou muito, inclusive me repassando material inédito – coisa que ninguém faz – para eu escrever artigos e a dissertação de mestrado. O fato de esta ser sobre o Rio Grande do Sul nos tornou grandes amigos, frequentávamos a casa um do outro e a amizade se estendeu aos demais familiares. A Sandra incentivou e auxiliou não só a mim, mas a todos os que a procuravam. A generosidade era uma grande virtude sua, assim como capacidade de trabalho. Isso despertou ciúme e inveja, como é usual na academia (e acho que também em outros lugares) quando alguém se destaca além da conta. 

Começou a ser criticada – inicialmente a boca pequena, depois de forma escancarada – até por outros professores em sala de aula; acusada de “produtivista”, de não conseguir manter qualidade frente à quantidade de publicações, de ser autora de análises “mecanicistas”… Ela sempre ficava sabendo e parecia se abalar com isso, mas também dava a volta por cima, publicava cada vez mais e optou por passar longas temporadas na França. Obteve reconhecimento nacional e internacional. Com extrema facilidade de comunicação, em qualquer congresso ou exposição conquistava a plateia já nos primeiros minutos. Indo além, gostava de não ficar presa nos muros da academia: escrevia em jornais, dava palestras, se expunha socialmente, enquanto na área de Ciências Humanas isso não era hábito, nem, tampouco, a pesquisa, pois ainda esta estava restrita na UFRGS a áreas como Física, Genética, Biologia e Agronomia. 


Com Sandra Pesavento na FAPERGS

Estes dias, assistindo a um documentário sobre Nara Leão, lembrei-me da Sandra: ela sempre estava à frente de seu tempo, desbravava tendências. Primeiro, começou a escrever sobre história do Rio Grande do Sul, uma área cujo reconhecimento ainda estava por vir, e sob perspectiva crítica, não laudatória, desvinculada da historiografia oficial e tradicionalista. Foi alvo de diatribes as mais diversas por parte dos “velhos” historiadores. Quando parte dos “novos” começou a criticar seu materialismo “mecânico”, parcialmente acatou as críticas mas, antes que esses ganhassem espaço, deu um giro total em seu approach teórico e foi para a História Cultural, então emergente. Foi uma das introdutoras dessa área não só na UFRGS, mas no Brasil. Para completar, nela fez mais sucesso ainda. 

Certa vez, em Paris, na entrada do Louvre, vi um cartaz convidando para uma palestra sua, e sobre arte – o que é raro, pelo que sei, para oriundos da América Latina. Seu sucesso era imperdoável. Quando ficou gravemente doente e veio a falecer, esses mesmos detratores passaram a socialmente lamentar a perda. Conheci na prática, em experiência revoltante, o realismo e o lado dramático da ironia empregada ao honesto tabelião: “Está morto: podemos elogiá-lo à vontade”. 

P – E teu doutorado? Como foi estudar Vargas na USP? Como era (como é, ainda, talvez) a visão dominante sobre Getúlio na USP? E a tua pesquisa, foi bem vista? Teve resistência? 

PC – Já mencionei que a escolha do tema do doutorado foi sugestão de meu orientador Iraci del Nero da Costa, um caso raro de intelectual paulista que vê Getúlio com simpatia e o entende historicamente e não de forma preconceituosa. Na USP, não havia a mesma estrutura departamental das federais, as disciplinas eram vinculadas às faculdades. Tive pouco contato com os cursos de História e de Sociologia. A figura central da História Econômica da FEA (Faculdade de economia e Administração) era Alice Canabrava, que fez verdadeira escola na área e formou inúmeros discípulos, dentre os quais Iraci. A eminência parda era o Delfim Neto. Mas ambos já estavam aposentados, embora deixassem sua marca. Entrei na USP em 1983, quando a abertura política já era realidade. Franco Montoro havia sido eleito governador, havia um clima de euforia, vários professores contribuíam com o novo governo, seu filho André já era professor da casa. 

Minha pesquisa sobre Vargas seguia todos os cânones do padrão acadêmico internacional; o que era diferente e mais inovador era a metodologia empregada – até hoje há quem considere que a chamada “História Econômica” (de cujo nome já decorrem limites ao escopo da área) deve se restringir a coletar números e fazer séries temporais, no máximo testar hipóteses por métodos econométricos. Nunca tive preconceito contra método nenhum, tanto que já orientei dissertações e teses com os mais diversos métodos e approaches. Entretanto, Hegel me convenceu que o método depende do objeto a ser pesquisado, de modo que a tese – que se apoiava no material empírico na leitura de todos os discursos, relatórios, entrevistas, pronunciamentos de Vargas – trazia à baila temas não usuais, como a consciência e intencionalidade com relação aos fatos econômicos. 

A política econômica tem um lado técnico, mas, para ser entendida, precisa levar em conta as relações de poder e as instituições. Tal concepção mantenho até hoje em meus trabalhos, mas agora o mainstream acadêmico já incorporou as variáveis políticas e institucionais na análise econômica. Na época, entretanto, eram inseridas na cláusula “ceteris paribus” – que em latim significa “todo o resto permanece constante”, um recurso utilizado pelos economistas para excluir determinadas variáveis da análise, pelo menor temporariamente, a fim de viabilizar a construção de modelos simplificados. Mas se considero tal recurso válido e legítimo na elaboração de teorias, de forma alguma estendo tal entendimento aos estudos históricos ou mesmo a conjunturais mais complexos, quando justamente se tem de incorporar à análise as variáveis mantidas constantes nos modelos.

Completando a resposta: nunca percebi preconceito nenhum. Ao contrário, fiz grandes amigos, destacadamente entre os paulistanos. O coordenador do programa de pós-graduação era Eleutério da Silva Prado, professor muito respeitado e aberto a temas históricos e sociais, embora fosse oriundo da Engenharia. Ele sugeriu que procurasse o Iraci, pois de meu currículo depreendeu que nossas áreas eram próximas. Iraci era conhecido como exigente e rigoroso, qualidades que lhe transmitira Canabrava, e ele a mim; se passasse por seu crivo, é provável que ninguém ousaria contestar. Conversar com ele era um privilégio. E minha banca foi bastante heterogênea, inclusive com dois professores da UNICAMP, Sônia Draibe e Paulo Renato de Souza, este, na época, reitor desta universidade. Mas lembro que, ao terminar a defesa, o professor José Juliano de Carvalho Filho, conhecido por todos como Juca, profissional de mão cheia e extremamente simpático, foi até a sala me cumprimentar e disse algo como: “Trabalhamos a vida inteira para que hoje aqui pudesse ser defendida uma tese como a sua”. Fiquei surpreso, o que pode indicar que em esferas nas quais eu não participava, pois era aluno, as coisas teriam sido ser mais complicadas, principalmente no passado. Mas o trabalho no ano seguinte recebeu Menção Honrosa no Prêmio Haralambos Simeonidis, concedido pela ANPEC às melhores teses de doutorado, de modo que a experiência foi exitosa e o reconhecimento nacional por parte de uma banca exigente foi também uma conquista para a escola.

Já a visão dominante e fortemente crítica a Vargas ficava mais circunscrita à Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, principalmente nas Ciências Sociais, que era a mais importante escola da América Latina e fazia a cabeça da maioria da intelectualidade brasileira da área e – é óbvio – eu à época comungava com muitas dessas teses. Entretanto, depois que me aprofundei nos estudos sobre economia brasileira, fui me desapegando delas. Claro, nem todos os professores compartilhavam das mesmas ideias, mas a tese hegemônica, a meu ver, nunca conseguiu entender o projeto varguista, nem o processo de substituição de importações, tampouco o trabalhismo brasileiro. Este foi desqualificado como populista – rótulo que passou a ser usado com tal extensão que nele cabia tudo, de Jango a Jânio, de Getúlio a Lacerda. 

Achavam-se sofisticados por analisar processos e não indivíduos, mas adjetivos a Vargas abundavam: além de autoritário, pragmático e sem ideologia (sic), manipulador, caudilho e até fascista, pois inspirado na Carta de Lavoro na legislação trabalhista, o que não tem respaldo empírico, mas até hoje é repetido por muita gente. Pouco importa o fato de o Brasil ter sido o único país latino-americano a se alinhar totalmente com os EUA na guerra, ao ponto de permitir o ingresso de soldados americanos em seu território e enviar tropas para a Itália. Todas essas qualificações, por antítese, contribuíam para enaltecer subliminarmente o status quo anterior a 1930. Assim, tais intelectuais reivindicavam para si um viés crítico e de esquerda, mas não deixa(va)m, em vários aspectos, de reproduzir o imaginário da velha oligarquia paulista cujo epicentro era o café e atividades conexas. 

A população emergente com a urbanização, mesmo tendo acesso ampliado à informação com a “era do rádio”, era suposta ignorante e se deixava manipular pela demagogia – quem tinha a posição “correta”, é claro, eram os intelectuais uspianos: um socialismo vago e teórico que não encontrava espaço em nenhuma instância da “real política” do país. Para começar, detestavam o positivismo e fizeram o possível para associá-lo a uma elite civil e militar autoritária e retrógrada, artifício que caía como uma luva para legitimar o liberalismo de fachada, defensor tradicional do agrarismo e da escravidão. Liberalismo nenhum: a política econômica da Primeira República era fortemente intervencionista, corporativista e protecionista ao café, usavam todos os instrumentos cambiais e monetários a seu favor, a ponto de gerar uma superprodução que, mesmo antes da crise iniciada em 1929, superava em três vezes a demanda internacional. A economia era exportadora, mas nem para equilibrar o balanço de pagamentos servia: acumulou déficits externos e gerou uma vultosa dívida que, com a retração econômica da década de 1930, o governo brasileiro teve, a contragosto, de fazer uma moratória temporária. 

Gabavam-se ao dizer que São Paulo era a locomotiva que levava o Brasil para frente, quando, na verdade, o Brasil o sustentava, como bem qualificou Celso Furtado como “socialização dos prejuízos”. Talvez por serem exportadoras, essas elites se achavam cosmopolitas. Veja algo de tua área: a pretensão de glorificar a Semana de Arte Moderna de 1922 a ponto de rotular de “pré” e “pós” modernistas os autores a partir desse ano, como se toda a literatura brasileira se resumisse à do planalto de Piratininga. Desqualificavam a “Revolução de 30” e defendiam que a tal semana foi que mudara o Brasil. Inacreditável. E enalteciam a revolta de 32, a quem consagraram o nome de “constitucionalista”, quando, na verdade, seus principais líderes não queriam uma constituição nova, mas a volta à de 1891, bem como, no pacote “democrático” exigido, a anulação de todos os atos do Governo Provisório – dentre os quais, é claro, as leis do trabalho e as que incentivavam a diversificação econômica. Vargas deu uma rasteira ao convocar uma Assembleia Constituinte, para a qual adotou o voto secreto e o estendeu às mulheres, o que significava quase dobrar o eleitorado, e a eleição de parte de seus membros pelos segmentos econômicos emergentes, o chamado “voto classista”. 

O resultado foi uma constituição bem avançada para o padrão da época, fortemente inspirada na Social-Democracia europeia. Paulo Arantes me contou certa vez que o jornal O Estado de São Paulo, por longo período, recusava-se a por como principal manchete de capa notícia sobre o Brasil, pois achava que isso diminuía o caráter “internacional” do jornal. Mas alguém lia o jornal no exterior? Qual a porcentagem de sua tiragem ia para fora? Desprezível, o jornal não era café. Essa elite tinha vergonha do Brasil. Qualquer coisa nacional lhe causa(va) repulsa: daí usar sempre o termo nacionalismo em sentido pejorativo, mesmo para se referir a um projeto de industrialização que a beneficiava, embora também impusesse que deveria ser compartilhado por outros segmentos sociais e regiões além de seu próprio umbigo, por isso era nacional e não apenas de um estado ou atividade econômica. Imaginava-se cosmopolita, quando, de fato, era provinciana. Nada mais brega do que se achar moderno e cosmopolita. Nunca conseguiu superar seus limites locais e enxergar o país como nação, em sua diversidade e complexidade. Até hoje quando ouço alguém se achar cosmopolita eu fico com pé atrás. Me lembra o Pestana, o pianista de “Um homem célebre”, que tinha vergonha da autoria de suas músicas de sucesso, com raízes locais, sonhava compor minuetos e noturnos e usava casaca para ir num sarau em pleno verão do Rio de Janeiro.

P – Tu tiveste importantes experiências na administração acadêmica. Como foi essa experiência? Olhando de agora, com a tua experiência acumulada, tu terias alguma sugestão nítida de melhoria para a administração? Tu tens alguma crítica forte ao que existe?

PC – As experiências foram positivas, pelo menos na minha avaliação. Sempre ao ocupar os cargos me dediquei muito a eles, embora tenha procurado conciliar com as demais atividades acadêmicas, pois nunca abandonei a sala de aula nem as pesquisas, mesmo quando fui Presidente da FAPERGS e Vice-Reitor. Sou pesquisador do CNPq, ininterruptamente, desde 1987, quando terminei o doutorado. Felizmente minhas atividades administrativas se deram em período em que havia mais verba para a educação e para a pesquisa, diálogo com os governos e respeito à ciência. 

Fui coordenador de área na CAPES, membro do Comitê do CNPq e diretor da Faculdade de Ciências Econômicas por duas vezes, não em sequência, sou contra reeleição para qualquer cargo e procurei ser coerente. Assumi a FAPERGS no governo Britto (a lista tríplice enviada ao governador para escolha é elaborada pelo Conselho Superior), que na época prometeu elevar os repasses à FAPERGS, embora ponderasse ser difícil chegar ao 1,5% definido na Constituição estadual. E cumpriu, os repasses mais que dobraram, e o secretário da Fazenda, César Busatto, depositava a verba mensalmente sem atraso, o que permitia programar e honrar compromissos, como dar bolsas e auxílios aos pesquisadores e lançar editais para áreas específicas. Até então fora o período de maior receita da fundação, em termos reais, e acho que em toda a sua história, pois de lá para cá as coisas só pioraram. 


Posse na Fapergs (arquivo pessoal)

Já a UFRGS, ao longo das décadas em que lá estudei e trabalho, sempre me pareceu bem administrada. Havia e há críticas, o que é normal, mas mais reivindicações setoriais, de unidades e institutos, mas não da administração como um todo. Isso decorre, a meu ver, do fato de ser uma instituição em que o ingresso se dá por mérito, com caráter impessoal. O ingresso na graduação e na pós-graduação é bastante concorrido, o que atrai bons alunos, pelo menos acima da média; os concursos para docentes e técnico-administrativos são cada vez mais concorridos, transparentes e exigentes, de modo que a qualidade é mantida. Mesmo com todas as dificuldades políticas e de financiamento, temos professores e técnicos comprometidos e dedicados, o que faz toda a diferença. O argumento de que a estabilidade gera acomodação é uma balela. Não por acaso a universidade se mantém entre as primeiras do país em todas as avaliações, tanto do MEC como de organismos independentes internacionais, e o mesmo ocorre com o Hospital de Clínicas. Não é pouca coisa num estado onde a educação é decadente há anos e sequer tem órgão de financiamento do porte da FAPESP e, tampouco, o vínculo constitucional de repasses, como as estaduais paulistas.

Crítica maior eu teria ao que vem acontecendo de uns anos para cá, pois a Universidade, como parte da sociedade, incorporou o radicalismo e a polarização vigente na sociedade brasileira. Para o país, é péssimo: nenhuma nação passou impunemente por cisões irreconciliáveis, veja a Rússia czarista e a Espanha de antes da guerra civil. Isso me preocupa muito. E, para a universidade, pior ainda, pois esta, por sua natureza, como instituição comprometida com a criação, guarda e difusão do conhecimento, precisa do ar da tolerância, da dúvida, do respeito, do diálogo. 

Sempre vi o país com otimismo, sou professor de Economia Brasileira, e gostaria de mantê-lo, até como incentivo para pesquisar e lecionar. Mas está difícil. Ver jovens que estudam anos a fio irem para o exterior pelo fato de aqui não encontrarem perspectiva profissional é muito dolorido para quem é professor e orientador. Eles até encontram solução para seu problema individual, mas quem perde é o país.

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