Entrevista

Roberto Menescal “ataca” João Gilberto

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Roberto Menescal “ataca” João Gilberto

Musicista fala sobre o “cantor mais afinado que conhece” e a bossa nova, neste compilado de conversas realizadas em diferentes encontros com o jornalista Cristiano Bastos

Roberto Menescal, um dos mentores da bossa nova, acredita que João Gilberto não deve ter apreciado muito a enorme exposição desencadeada por sua morte, ocorrida em 6 de julho de 2019. “Mesmo tendo feito incontáveis shows no Brasil e no exterior, João era uma pessoa avessa à exposição, que preferia viver recluso, no apartamento em que morava, aqui no Rio de Janeiro”, afirma Menescal.

Passados dois anos de sua morte, a data, este ano, parece não ter causado tanto “barulho” na imprensa. Isso, com certeza, deve ter agradado mais o misantropo baiano de Juazeiro. A vida de João, segundo Menescal, tomou outro rumo depois do lançamento do disco de estreia e da revolução provocada por Chega de Saudade, responsável pela criação do movimento que viria a se chamar bossa nova, que, inicialmente, tinha Tom e Vinicius como outros pilares – “e do qual fui um dos participantes”, comenta Menescal.

Na concepção do coautor de O barquinho, outro clássico bossanovista, a batida do violão e o jeito de cantar foram a base da bossa nova. Aquilo que, inicialmente, causou estranheza para muita gente, mesmo entre os músicos, viria a revolucionar a música brasileira (e deixaria indeléveis marcas na música mundial). Artistas da geração que chegaria em seguida, a de Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso e Gilberto Gil, foram frutos da semente plantada por João Gilberto.

Segundo Roberto Menescal, a expressão que melhor define o termo bossa nova é “quebra de paradigma”. Porém, pontua ele, tudo aconteceu de maneira muito natural, e nenhuma campanha foi feita, de forma pensada, contra a geração anterior: “Não fizemos campanha nenhuma contra ninguém da geração anterior – mas fizemos, sim, a favor de nós mesmos. Afirmávamos que tínhamos uma nova maneira de fazer as coisas, que a tecnologia havia mudado”. 

A bossa nova, lembra ele, nasceu abaixo de bordoadas e rejeição, tanto por parte da imprensa quanto dos músicos da “velha guarda”. Contudo, ninguém foi capaz de impedi-la de ser o gênero musical brasileiro mais popular no mundo. Foi apenas uma questão de tempo para que a bossa ficasse em alta. Entretanto, com toda badalação que passou a merecer da imprensa brasileira, passada a fase de rejeição, a bossa nova, com seu seletivo público, jamais chegou a converter-se num fenômeno de multidões – tal qual, aliás, acontecera nos anos 30 e 40 com Orlando Silva, o “Cantor das Multidões”, um dos grandes expoentes da Era do Rádio, e influência maior de João.

Na época em que realizava entrevistas para a esgotada biografia O Rei da Boemia (Plus, 2019) – a qual, em breve, deverá ganhar uma reedição –, sobre o igualmente superlativo cantor Nelson Gonçalves, em mais de uma ocasião entrevistei longamente Roberto Menescal. Foram sabatinas nas quais falamos, entre outros assuntos, sobre as desavenças entre os bossanovistas e a “geração anterior”: Orlando Silva, Nelson Gonçalves (para surpresa de muitos, João afirmou, em entrevista à Revista do Rádio, em 1959, que o “Metralha” também fora um de seus grandes ídolos da música brasileira). E, é claro, o bate-papo orbitou muito em torno do constelar João Gilberto. 

Sempre muito gentil e atencioso, Roberto Menescal, com seu peculiar bom humor e leveza, “atacou” João Gilberto em tópicos: 

Volume sonoro

“A gente [a turma de jovens que iniciaram o movimento da Bossa Nova] tinha uma nova maneira de fazer as coisas. Sabíamos que a tecnologia havia mudado. Como dizia o João Gilberto, a gente chegava pra gravar as coisas, e os caras falavam: ‘Tem como cantar um pouco mais forte?’. E o João tascava: ‘Tá vendo aquele segundo botão da esquerda? É o volume. Aumenta ele’. Como quem diz: ‘Não precisa mais… não precisa gritar. Aumenta o volume’. E até hoje é isso: a coisa vai se aperfeiçoando. Naquela época, o cara tinha um canal de gravação, então tinha de ter voz, e gravava normalmente tudo junto, com acompanhamento de orquestra. E a gente era fruto dessa outra era, onde pode ser tudo baixinho e daí aumenta-se o volume, né?”.

Batida

“A batida [do violão], na verdade, era a necessidade também, porque a gente não sabia tocar samba, era muito complicado pra gente, então a gente estava tentando criar uma maneira mais simplificada de tocar samba. Eu tinha uma batida, o Carlos Lyra tinha outra, o Durval Ferreira tinha outra, Baden Powell tinha outra, um pouco mais samba. E aí o João Gilberto veio e trouxe a [batida] que simplificou tudo e definiu. A batida dele foi a definitiva, porque ele se baseou no tamborim. Querer fazer todos os instrumentos do samba em um só não pode. Tinha que achar alguma coisa que englobasse isso tudo. Então, quando o João ouviu o som do tamborim, ele se deu conta de que aquela era a batida, e nós todos fomos para ela”. 

O dia em que se conheceram

“O João eu conheci em 1957. Ele bateu na minha casa. Eu só o conhecia de nome, não sabia quem ele era pessoalmente, até aquele dia. E ele bateu lá num dia de festa, festa de aniversário de casamento dos meus pais, de 30 anos de casados. Eles nunca deram uma festa em casa na vida, só aquela. E claro que o João tinha de aparecer em minha casa justo naquele dia. E apareceu lá e nem falou o nome dele. Já chegou e disse: ‘Você tem um violão aí?’. Eu disse: ‘Tenho. Pra quê que é?’. E ele: ‘Você não pode tocar?’. Eu disse: ‘Olha, tá tendo uma festa aqui’. E abri a porta. Ele olha pra dentro e manda ver: ‘Ih, é grave, hein?’… (risos) Daí ele falou: ‘Mas não tem um cantinho onde a gente possa tocar?’. Ele já era um craque do violão”.

Boates

“Uma das grandes influências do João foi o Orlando Silva, que ele considerava uma das vozes mais bonitas da música brasileira. Vindo pro Rio, ele começou a frequentar as boates em Copacabana. Naquela época, no Rio, todo bairro tinha sua boate. E ele viu que ali dentro rolavam umas coisas mais suaves. Copacabana era um bairro novo, na época, as pessoas todas iam às boates, ficavam até tarde, nem sei como trabalhavam no dia seguinte (risos)… E ali era a capital do Brasil… Tinham os deputados, levavam secretárias para as boates, aquela zorra toda. E tocava uma música mais suave, como Johnny Alf, por exemplo. Johnny Alf veio quatro, cinco anos antes de todos nós”.

Canção de amor demais

“Na verdade, antes do disco Chega de Saudade, aconteceu assim: o Tom [Jobim] e o Vinícius [de Moraes] foram gravar aquele famoso disco com a Elizeth Cardoso, ‘A Divina’ – Canção do Amor Demais. E Tom tinha dois sambas já nessa ‘coisa da bossa nova’. Daí o Tom chamou o João Gilberto, porque ele conheceu o João, já o tinha visto tocar e queria aquela batida dele. Foi assim que o João, então ilustre desconhecido, foi tocar no disco da Elizeth. Ninguém sabia quem era o João ali. A Elizeth também não sabia, olhou assim meio de lado, e, quando ela começou a cantar aquela coisa chorada, chegou num ponto em que ela cantou [Menescal cantarola] ‘apertado assim, calado assim, abraços’…  O João, então, chegou e falou para ela, bem baixinho: ‘Olha, Elizeth, não é assim, não, a música’. E ela era a Rainha, né? E ela: ‘Como não é assim? Eu conheço muito bem a música!’. E o João: ‘Eu também conheço, não é assim’. A Elizeth perguntou: ‘Então como é?”. O João cantou baixinho pra ela, cantarolando, enfatizando as pausas: ‘Apertado assim, calado assim’… Mas a Elizeth insistiu: ‘Mas eu estou cantando assim’. Ficou um clima ruim no estúdio”.

Desafinado

“Até hoje eu acho João Gilberto o cantor mais afinado que eu conheço. Para mim é. As notas são perfeitas”.



Cristiano Bastos é jornalista. Autor dos livros Gauleses Irredutíveis – Causos & Atitudes do Rock Gaúcho, Julio Reny – Histórias de Amor e Morte, Júpiter Maçã: A Efervescente Vida e Obra, Nelson Gonçalves: O Rei da Boemia e Nova Carne Para Moer: Seleção de Textos Sobre Cultura Pop, Grandes Reportagens, Perfis, Entrevistas e Artigos. Atualmente trabalha no livro 100 Grandes Álbuns do Rock Gaúcho.

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