Entrevista

Sérgio da Costa Franco – Histórias de um historiador

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Sérgio da Costa Franco – Histórias de um historiador Sérgio da Costa Franco (Acervo Pessoal).

Nesta entrevista Sérgio da Costa Franco relembra o assassinato do pai, conta sobre os anos de repressão militar e descreve momentos da trajetória profissional.

A obra de um historiador se mede menos pelo número de páginas que produziu e mais, muito mais, pela consistência do que pesquisou e deu a conhecer. A obra de Sérgio da Costa Franco pode ser avaliada pelos dois critérios, e nos dois será aprovada com amplos méritos. Aqui vai se ler parte de uma entrevista que fiz com ele, em setembro de 2003, para uma série em Zero Hora. Nesta, reeditada, salienta-se sua formação e sua obra inicial, especialmente dois livros que se converteram em clássicos absolutos, sem os quais o debate historiográfico entre nós não seria o que é: Júlio de Castilhos e sua época (segunda edição, pela editora da UFRGS) e Porto Alegre: Guia histórico, atualmente em quinta edição (pela Edigal).

Formado numa das primeiras turmas de História da UFRGS, levou consigo o preparo do historiador, que manteve em estado de latência ao longo de uma carreira inteira de promotor; aposentado dessa função, dedicou-se por inteiro ao empenho historiográfico, vindo a produzir um conjunto de estudos que se impõe pela segurança e precisão documental, que se apresenta num texto de corte clássico, limpo, elegante, ao mesmo tempo informativo e inteligente.

Nos últimos anos, Sérgio da Costa Franco tem produzido livros que continuam a impressionar. Um é um verdadeiro prodígio de livro de referência: Dicionário político do Rio Grande do Sul (ed. Suliani). Finalmente, outro milagre de concisão e informação: Porto Alegre ano a ano: uma cronologia histórica, 1732-1950 (ed. Letra & Vida). Qualquer um desses trabalhos seria suficiente para inscrever o nome do autor na galeria das figuras centrais da cultura letrada da cidade e do estado. 

Luís Augusto Fischer

Parêntese – O senhor nasceu em Jaguarão? 

Sérgio da Costa Franco – Nasci e passei a primeira infância em Jaguarão. Mas o meu pai foi assassinado lá em 1935, quando eu tinha seis anos. Foi algo muito marcante, de um impacto muito forte na vida da família e na minha. Meu pai tinha sido juiz, depois deixou a magistratura para advogar. Aliás, foi no exercício da advocacia que ele foi assassinado. Aí a família se mudou para Porto Alegre, só ficou por lá uma irmã. Vim estudar no Anchieta. Depois, com a ideia de ser professor – o que estava ligado à ideia comunista, eu odiava o bacharelismo –, saí do Anchieta e fiz vestibular para a Faculdade de Filosofia. Retardei, com isso, em quatro anos a minha carreira profissional no Direito. Concluí o bacharelado em História, mas não cheguei a fazer a Licenciatura. O curso de História era novo, eu fui das primeiras turmas, entrei em 46. 

Formandos do Anchieta: Sérgio da Costa Franco é o segundo, sentado, da direita para a esquerda. (Arquivo Pessoal).

P – O senhor, pela militância comunista, tinha uma posição clara sobre método?

SCF – Ah, sim, ao menos pretendia. Mas eu tinha uma formação muito precária, de manuais, não tinha condições de grandes análises. O que não impedia que eu fosse muito arrogante nos primeiros trabalhos, é claro. Trabalhos que, aliás, me abriram caminhos, marcados por essa pretensão de interpretar tudo, de ter no bolso a chave da compreensão do mundo. Eu cheguei a publicar coisas naquela revista Horizonte, que era uma revista de apoio ao Partidão; ali eu fiz uma série de artigos intitulada História do povo Gaúcho.

P – E o interesse pela matéria local já existia?

SCF – Não, esse interesse surgiu comigo em 48. Eu sempre desprezei História de segunda mão. Nesse ponto, o Dante de Laitano me abriu caminhos, porque ele tinha interesse pelos documentos, pelas fontes. Ele não gostava muito de perguntas, mas (risos)… abriu caminhos. Foi o primeiro a pesquisar sobre a história do negro no Rio Grande do Sul.

P – Em 47 o Paixão Côrtes e uma turma estão fundando o Movimento Tradicionalista. Esse fenômeno tem alguma relação com o seu interesse?

SCF – Não, porque eu era contra o tradicionalismo. Eu fui dos primeiros que escreveu contra o tradicionalismo, porque eu achava que era uma tentativa de reviver o latifúndio, de prolongar o latifúndio pastoril. Um pouco o que se diz até hoje (risos). Eram uns guris simpáticos, sem dúvida. O Barbosa Lessa, principalmente. E o que a gente dizia deles é que eles eram gente de cidade, não tinham mais nada a ver com o campo.  Tinha um sujeito muito divertido que eu conhecia, o Carlos Rafael Guimarães, que dizia deles: “Mas esse camarada é ali do Alto da Bronze, o quê que ele quer com essa história de gaúcho!”. (Risos). Era o Glaucus Saraiva.

P – Em 1949 o Érico lança o primeiro volume do Continente. O senhor o leu na época? Teve algum impacto?

SCF – Sim, o livro agradou muito. Até foi o primeiro livro do Érico de que eu gostei. Ele sofria uma pressão forte, achavam que ele era meio Coca-Cola, quer dizer, meio americanófilo. Mas aquele livro agradou. Foi significativo, para a época.

P – O debate sobre a brasilidade do gaúcho era forte na época?

SCF – Sim, e eu o acompanhei. Houve um episódio em torno de Sepé Tiaraju: um município queria erguer um monumento em homenagem a Sepé Tiaraju, mas os dirigentes municipais resolveram ouvir antes o Instituto Histórico, que opinou contra a construção do monumento.

P – Quem é que opinou pelo Instituto?

SCF – Othelo Rosa. Era o pesquisador maior. Mas em 49 já tinham entrado o Moysés Vellinho, o Guilhermino César, o Manoelito de Ornellas, que era mais um discrepante. Aquele Gaúchos e Beduínos era considerado um livro singular. Eu não estava no Instituto mas me meti no debate sobre o monumento. Escrevi um artigo: História: culto de heróis ou ciência? Para mim era isso, a discussão era besta. E eu fiquei contra os dois lados. (Risos).

P – O senhor chegou a pensar em fazer vida acadêmica, como pesquisador na Universidade?

SCF – Não. A universidade praticamente não existia. O Instituto Histórico e Geográfico é que fazia as pesquisas relevantes. A Universidade não passava dos catedráticos, era estadual, paupérrima, e mais nada. Depois da federalização, com o Vargas, nos anos 50, aí que começa a melhorar.

P – O senhor falou sobre sua briga com o bacharelismo. Havia uma ideia modernizadora no seu ímpeto de acabar com aquela retórica ruibarbosiana?

SCF – Eu via o bacharelismo como um dos males. Achava que havia um excesso de bacharéis no país. Mas eu mesmo decidi, uns anos depois, fazer o curso de Direito. E foi um mero acidente. Eu digo mesmo que não há vocações. Eu tinha um amigo, o Nilo Teixeira, que tinha resolvido estudar Direito. Aí começamos a estudar juntos. Então começamos a estudar latim, eu mais por diletantismo. Como eu peguei a reforma de ensino em 42, acabei tendo só um ano de Latim no Anchieta. É bem verdade que o Latim do Anchieta era muito puxado, com cinco horas por semana, o padre Schneider era um verdadeiro sargento prussiano nos fazendo estudar. Como estava estudando, acabei fazendo o vestibular também.

P – O senhor se formou no Direito em que ano?

SCF – Em 54. Depois, em 57, eu entrei no Ministério Público. A acumulação de atividades só seria possível com cadeiras de Direito. Então não tinha como trabalhar na área de História. Mas eu cheguei a lecionar no primeiro ano da Faculdade de Erechim, e antes eu só tinha lecionado no secundário do colégio Rui Barbosa, aqui em Porto Alegre.

P – O senhor rodou pelo interior, como promotor?

SCF – Eu tive várias encarnações. (Risos). Eu tinha publicado alguns artigos no Correio do Povo sobre os graves problemas econômicos e sociais do país (risos). No IBGE, aqui em Porto Alegre, precisavam um camarada que redigisse bem e se enganaram comigo (risos). Alguém de lá leu meus artigos no Correio e me chamou para uma chefia de seção. Foram os dois artigos mais valiosos da minha vida (risos). E eu, que ganhava salário mínimo no colégio Rui Barbosa, multipliquei isso por quatro, cinco. Depois, quando o Getúlio se elegeu presidente, mudou toda a cúpula do IBGE, e eu perdi meu cargo. Foi então que eu fiz concurso para o Banco do Brasil. Estive dois anos e tanto no interior como bancário. Depois voltei para Porto Alegre e fiz concurso para o Ministério Público, e por isso voltei de novo para o interior, mas aí passei uns doze anos entre Encantado, Quaraí, Soledade e Erechim. Na época, Quaraí era um exílio. O Correio do Povo levava dois dias para chegar lá. Rádio de Porto Alegre não pegava nenhuma. Só se escutavam os castelhanos. Em 1969 eu volto para Porto Alegre.

P – Depois de sair do Partidão, o senhor não teve mais filiação partidária?

SCF – Não, eu fui próximo do PTB, mas não fui inscrito, propriamente, porque eu era promotor e tinha meus pudores. Mas era muito próximo do antigo PTB e tive até uma prisão em 64, em Soledade. E uma prisão curtinha, em Santa Cruz. Não deu para tirar nem carta de mártir, nem para pedir indenização, como alguns fizeram depois. (Risos). Quando eu saí do Partidão e depois casei, minha mulher – que tinha graves restrições ao meu stalinismo – e eu fizemos um pacto para eu ficar afastado da atividade política. Eu até respeitei, mas depois comecei a escrever para a Última Hora e me reaproximei da política. Depois, quando eu me aposentei, em 1982, entrei no PDT, com vagas pretensões de ser vereador.

Com esposa Ignez na temporada de verão em Torres (RS), em 2012. (Acervo pessoal)

P – O senhor começou a escrever para jornal com 20 anos, aqueles dois artigões, não?

SCF – Graças à tolerância e à simpatia do dr. Breno Caldas. Ele não mostrava os dentes para ninguém, mas era um liberal clássico, um homem aberto. Enquanto eu estava trabalhando no IBGE, continuei a publicar algumas matérias, mais estatísticas, censo, etc. Eu comentava coisas mais ou menos óbvias. O primeiro artigo foi O desequilíbrio econômico entre o sul e o norte, esse era o tipo de assunto. Instrução pública no Brasil, as migrações internas, essas coisas; e eu fazia a minha modesta defesa da reforma agrária. Eram mais problemas de geografia, até. Eram artigos que ninguém lia (risos). Por isso que depois eu passei a escrever crônicas curtas, porque as pessoas me diziam “Vi que tu escreveste um artigo, mas era muito grande, então recortei para ler no domingo”. Que ler no domingo, o quê! Ninguém lê artigo grande (risos). 

P – O senhor tinha uma sensação de mudança no panorama de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul naquela altura? Por exemplo, essas migrações sobre as quais o senhor chegou a escrever, elas pareciam significar algo de novo?

SCF – Eram problemas antigos, na realidade. Eu apenas estava apresentando a minha interpretação paramarxista, o que até me levou a posições inesperadas. Um artigo meu de 1949, Esquema sociológico da fronteira, impressionou o Moysés Vellinho, que até publicou na prestigiosa revista Província de São Pedro. Aquilo me projetou, ele até me chamou de sociólogo. A verdade é que a época era pobre de intelectuais nas áreas de estudos sociais. Fora dos bacharéis, não tinha ninguém.

P – E como é que o senhor começou a fazer pesquisa com vistas à publicação?

SCF – Meus primeiros trabalhos foram coisas de segunda mão. O primeiro trabalho em livro foi pelo IBGE, uma Sinopse estatística do município de Porto Alegre, de 52. A parte histórica é minha, feita com material de segunda mão, com base na historiografia disponível na época, cheia de erros. Depois veio o convite da Globo para escrever na coleção Vidas de estadistas americanos sobre o José Bonifácio. Isso graças ao prestígio do Correio do Povo.

P – Qual é o seu primeiro livro solo?

SCF – É a biografia do Júlio de Castilhos, de 67.

P – E por que lhe despertou interesse justamente o Júlio?

SCF – Foi rigorosamente por encomenda. O Leôncio Basbaum tinha uma editora em São Paulo e estava publicando uma História dos Fundadores da República, uma seqüência de biografias. Ele já tinha publicado uma sobre o Benjamin Constant, outra sobre o Quintino Bocaiúva, o Marechal Floriano, e queria uma do Júlio de Castilhos. Foi aí que entrou a indicação do Otto Alcides Ohlweiler. Isso foi em 1963, eu era promotor em Soledade, e então eu me concentrei no trabalho. Mas aí veio o golpe de 64 e a editora fechou. Eu fiquei com os originais prontos, mas sem editora. Então, por intermédio do Moysés Vellinho – de quem eu tinha ficado muito amigo desde os artigos na Província de São Pedro – eu ofereci o livro para a Globo.

P – Já havia biografia do Júlio de Castilhos?

SCF – Sim, tinha a do Otelo Rosa, mas era tarefa partidária, muito parcial. É um bom trabalho, mas muito comprometido. O que é muito bom é a seleção de artigos políticos do Júlio que ele fez.

P – E quando saiu Os donos do poder, do Raymundo Faoro, o senhor leu com entusiasmo?

SCF – É um livro muito pesado, muito complicado para quem não conheça Max Weber. O livro é de 58, mas eu só li por volta de 60, quando estava lá em Quaraí, onde o Wilson Chagas trabalhava comigo. E o Wilson era muito amigo do Faoro, foi quem me fez ler o livro. Eu tenho até hoje o exemplar todo assinalado por ele.

P – Para o senhor, como aparecia o tema nacional, por exemplo, como no Faoro?

SCF – Não me balançava muito, porque aqui nós estávamos limitados, em termos de arquivos, à história regional. E eu tive sempre a obsessão da fonte primária. Sempre tive uma saudável desconfiança em relação aos textos dos historiadores, porque muito poucos trabalham realmente com a fonte primária e escapam do blablablá e da apoteose cívica. Desde cedo eu senti a necessidade de me libertar disso. Por exemplo, em 1955, no 20 de setembro, eu dei uma palestra sobre a Revolução Farroupilha organizada pela Liga de Emancipação Nacional, que era uma entidade paramarxista. Nessa palestra eu, pela primeira vez, disse que a Revolução Farroupilha não era uma revolução popular como os marxistas diziam, era uma revolução de fazendeiros, que de liberal tinha muito pouco, já que nem tinham pensado em abolir a escravidão.

P – Mas não lhe parece que a Farroupilha era, no limite, mais progressista em relação ao Império?

SCF – Eu acho muito difícil dizer o que é mais progressista. Do ponto de vista econômico, os comerciantes de Porto Alegre e de Rio Grande que queriam manter as relações comerciais com o resto do Brasil talvez fossem mais progressistas do que os fazendeiros que estavam preocupados com o preço do charque. E é preciso lembrar que os farroupilhas se levantaram contra a Regência, que era republicana, progressista. Já com Feijó a Regência implantava um dos períodos de maior liberalismo que o país conheceu. É o tempo do código do processo criminal de 1832, tivemos ali justiça eletiva, os promotores escolhidos pelas câmaras, os juízes municipais e de paz eleitos. Tudo isso termina com a maioridade do imperador. A Regência foi um regime muito liberal, tanto que foi muito tolerante com os farroupilhas. Deu anistia, negociou. Nunca simpatizei muito com a feição farroupilha. Basta ver a constituição que eles fizeram, uma cópia da constituição do Império, só diminuía um pouco o nível de renda para o voto. Nem imaginação eles tiveram.

P – E Júlio lhe pareceu uma figura boa para o estudo?

SCF – Sim, ele chama a atenção. Era um grande jornalista, escrevia com contundência, com impacto, com capacidade de polemizar. Isso é um aspecto que desde logo atrai. Se vê que é uma personalidade superior, avançada para o seu tempo. Na questão do escravismo, por exemplo, ele logo se pronuncia pela imediata abolição, ao contrário do próprio Partido Republicano Paulista, que estava tergiversando. Por uma série de aspectos, o Júlio de Castilhos me atraiu. Depois, a firmeza com que ele defendeu a república, a coragem com que ele agrediu os liberais do Gaspar Silveira Martins, tudo isso me atraiu. 

P – Mas o comando da guerra em 1893 não parecia um pouco assustador?

SCF – Sim, como disse no meu livro, é um pouco como Robespierre. E todos os ex-comunas tínhamos uma simpatia pelos robespierres (risos). O “terror” não nos aterrorizava muito (risos). O que me fez pensar numa revisão do livro foi um episódio engraçado. Logo que saiu meu livro, Brizola estava no exílio em Montevidéu e deu uma entrevista para o Diário de Notícias, dizendo que estava lendo meu livro. Foi um marketing e tanto. Dali uns dias, um amigo, o velho Poty Medeiros, me disse: “Dei o seu livro para o general Médici e ele ficou encantado”. (Risos de todos). E aí começou o meu processo revisional… O homem estava agradando os autoritários. E o Médici tinha sido libertador, na sua juventude. O Mem de Sá, outro maragato, também escreveu elogiando o meu livro. No livro de memórias, ele disse que o meu livro era o primeiro a tratar com isenção sobre o Júlio. Não foi o caso do Antero Marques. Eu dei o meu livro para ele, anticastilhista notório, e dali uns dias ele me liga: “Terminei de ler o seu livro. Muito bem escrito. Mas, me perdoe, não é uma biografia, é um panegírico”. (Risos). Ele vinha de uma geração de maragatos ferozes. 

P – E o Borges, nunca lhe pareceu digno de um estudo?

SCF – Eu até fiz um fascículo para a editora Abril sobre o Borges. Foi copidescado pela Abril – muito bem, por sinal -, mas a informação histórica é minha. Mas quando me aprofundei no Borges, achava mais e mais uma figura antipática. E depois tem aquele excesso de informações sobre ele. Ele guardava tudo, cada correspondência, cartão de visitas, tudo. Então, até ler tudo aquilo… E tem outro aspecto ainda: ele era um safado, ele era um moleque, o que o Castilhos não era. O Júlio era faccioso, teimoso, mas era um sujeito correto. O Borges, não. 

P – Vamos falar um pouco do clássico Guia Histórico de Porto Alegre. Como é que o senhor chegou no Guia?

SCF – O Guia está aí, nesses arquivos (mostra os arquivos). Eu comecei pelas ruas, as praças, porque me impressionava o fato de que nós não sabíamos nada a respeito da cidade. A historiografia de Porto Alegre era muito pobre, além de imprecisa, cheia de erros e bobagens que se repetiam. A história de que Porto Alegre foi fundada pelos casais açorianos em 1742 só pode ser explicada por um erro de imprensa, no livro do Achylles Porto Alegre. Só pode ser um erro de imprensa, porque no mais ele acerta tudo. Mas isso foi repetido exaustivamente. 

P – E teve a história do bicentenário…

SCF – Aquilo foi um erro intencional. 1740 é a data da concessão da sesmaria para o Jerônimo de Ornellas, de quem o então prefeito Loureiro da Silva era descendente. Então se inventou um bicentenário na marra. Houve grandes comemorações, teve o congresso do Instituto Histórico dedicado a Porto Alegre. Claro, o Walter Spalding era funcionário da prefeitura, homem de confiança do Loureiro. Foi ele quem arquitetou isso. 

P – O Guia não foi seu primeiro livro sobre Porto Alegre, não é?

SCF – O Guia teve um antecedente que foi um livro que eu escrevi para a Associação Comercial, Porto Alegre e seu comércio. O presidente era o meu amigo Fábio Araújo Santos, que me pediu para escrever uma história da Associação. Eu disse que uma história da Associação não seria interessante para mim, mas que eu poderia escrever uma história do comércio da cidade. Trabalhei com livre acesso aos arquivos da Associação e foi aí que eu me deparei com o problema de Porto Alegre. Até então eu não tinha tocado no assunto Porto Alegre. Eu tinha feito alguns trabalhos ainda na época do IBGE e o tema me agradava. Então mergulhei no Arquivo Municipal – eu já estava aposentado. Aliás, enquanto eu estava trabalhando como promotor eu só escrevi a biografia do Júlio de Castilhos e uma pequena história de Soledade, cidade com a qual eu fiquei com vínculos sentimentais. Foram as únicas coisas mais longas que eu escrevi antes de me aposentar. Depois eu dispensei meus livros de Direito, passei para minha filha que é promotora, e transitei para a pesquisa histórica.

P – E o senhor o concebeu desde o início como um guia de consulta?

SCF – Eu adotei como método registrar tudo o que eu encontrava nas atas municipais, que são abarrotadas de informação. E isso me permitiu montar uma história da cidade. Primeiro eu fiz um levantamento das ruas que existiam em 1924, porque depois disso a cidade se multiplicou muito. Além das ruas e bairros, fui pesquisando sobre outros aspectos da vida da cidade: o mercado, as enchentes, abastecimento de água, eletricidade.

P – Depois o senhor publicou um belo livro sobre a época em que Porto Alegre esteve sitiada, na Guerra dos Farrapos.

SCF – Isso, Porto Alegre sitiada. Surgiu em função dos estudos sobre Porto Alegre, quando eu encontrei várias informações sobre as dificuldades da cidade durante o sítio. É um tema muito interessante. Eu acho até que daria um belo filme – caro, mas um belo filme. As trincheiras, os vales profundos ao redor da cidade, os fortes com artilharia para proteger a cidade, o forte dos Farrapos – que dá o nome da Estrada do Forte. Ali ficava o forte Farrapo que sitiava a cidade.

P – Uma pergunta de balanço. Como é que o senhor enxerga a sua trajetória como historiador? Dá a impressão de serviço bem feito?

SCF – É, não me encabula (risos), assim como gosto das minhas crônicas. A minha grande frustração é literária, por não ter entrado na ficção, eu sempre tive o desejo de entrar na ficção. Até tenho os meus continhos, mas acho que a publicação deles pode implicar num decréscimo do meu conceito.

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