Entrevista

Uma voz conta os bastidores do rádio gaúcho

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Uma voz conta os bastidores do rádio gaúcho

Música, radionovela, futebol, censura e programa de humor fazem parte da trajetória de Couto, que começou nos anos 70

A ideia nasceu de um passeio pelo facebook, essa espécie de pátio de colégio. Não parece mesmo? Tem valentão, tem o tímido doentio, tem o amigo que faz tempo que tu não contacta, tem as figuras desejáveis e as abomináveis, tem o líder da própria namorada (essa não é minha, mas do Nelson Rodrigues), tem realmente de tudo. É bolha, como qualquer pátio de colégio, portanto depende do teu colégio, naturalmente. Mas é variado.

Conheço o Couto de uma curta convivência na antiga rádio PopRock, atual Mix, quando fiz por um tempo uma participação do programa Cafezinho, na virada do milênio. Soube então de sua figura simpática, conheci sua risada franca, me falaram que era um cara do tempo da Continental, rádio que a minha geração toda teve como uma universidade aberta da música boa, brasileira e estrangeira (sim, era basicamente o rock, mas a Continental tocava, por exemplo, o “Grândola, vila morena”, do Zeca Afonso, a senha da Revolução dos Cravos, em Portugal). Sei de cor uns Paulinhos-da-Viola, para dar outro exemplo, por ouvir na Continental. Imagina isso?

(Se quiser, tem até bibliografia de apoio: Continental, a rádio rebelde de Roberto Marinho, de Lucio Haeser, pela editora Insular, de Florianópolis, 2007, que vem até com um cd de gravações históricas junto.)

Aí, passeando no pátio do face, então, me ocorreu: vou falar com o Couto. Por extenso, eu ainda não sabia, ele se chama Carlos César Cardoso Couto, o que não é pra qualquer um, essa sequência de quatro C. Pedi para o Arthur de Faria (que trabalhou com o Couto cotidianamente na PopRock por anos) para fazermos juntos essa conversa, e assim foi. Conversamos por whatsapp, num somatório de várias horas, que foram degravadas e editadas inicialmente pela Cláudia Laitano, e a seguir revisadas por este seu criado. (Sobre a PopRock, aliás, tem outra bibliografia altamente recomendável: Pop, rock e cafezinho – Aconteceu desse jeito, de Mauro Borba, pela editora BesouroBox, de Porto Alegre, lançado em 2019.)

Memória viva de muito bastidor, da passagem do mundo do AM para o do FM, da profissionalização crescente, a história pessoal do Couto interessa a quem estava vivo nas últimas cinco décadas. Aproveita.

Parêntese – Como chegaste a trabalhar em rádio e em sonoplastia, como foi esse caminho? Onde nasceste?

Carlos CC – Nasci em Lages, Santa Catarina, em 1954. Meu pai tinha saído do Rio Grande do Sul rumo ao Rio de Janeiro, e a primeira parada dele foi em Lages, onde conheceu minha mãe e acabou ficando. Viemos para o Rio Grande do Sul quando eu tinha quatro anos. Quando eu estava com 16 ou 17 anos, meu pai, vendo que eu não estava rendendo muito na escola, ficava só na esquina de papo com os amigos, falou para o meu irmão mais velho por parte de pai, o Nabor Couto, que trabalhava na época na Rádio Gaúcha, que era preciso dar um jeito em mim. Meu irmão então me levou para conhecer a Rádio Gaúcha, onde ele era programador musical e chefe da discoteca. Eu era cabeludo, roqueiro, e a primeira coisa que ele fez foi abrir a porta da discoteca da rádio e dizer: “Fica aí um pouco que eu já volto”. Cara, eram duas salas cobertas de discos por todos os lados. Tudo que eu podia imaginar na época estava ali ao meu alcance. Coleções completas de Led Zeppelin, Beatles, tudo. Enlouqueci. Bom, no primeiro dia que eu fiquei ali (acho que isso foi em setembro de 1971) não vi o tempo passar. Passei a visitar meu irmão todos os dias, olhar o pessoal operando a mesa de som, e foi amor à primeira vista. Como eu era um gurizão, e a galera que trabalhava na rádio era da velha guarda, comecei a dominar a coisa com muita facilidade. Fiquei deslumbrado total. E o que aconteceu? As putas velhas, vendo um guri cheio de gás, me botavam para trabalhar. Pediam para eu ir de manhã, eu ia. Ficava na mesa de som operando a rádio, e os caras iam ir embora pra casa. E eu adorava isso! Comecei a ter responsabilidades. Aquilo foi uma coisa deslumbrante.

[Continua...]

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