Entrevista

Zé Adão Barbosa – Nunca pensei em outro ofício

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Zé Adão Barbosa – Nunca pensei em outro ofício

Tem gente que se queixa da vida e tem gente que vai lá e faz. O Zé Adão Barbosa é do segundo tipo, desde sempre e definitivamente. Faz, persiste, continua fazendo, ou então inventa outro caminho, mais um percurso, e tudo feito com qualidade. 

Não há na cidade quem desconheça o trabalho dele, direta ou indiretamente; no meio dos atores Brasil afora, igualmente o Zé Adão é figura de referência, em trabalhos que fez como ator e como professor de teatro – e também em lances de coragem e altivez que não sei quem mais teria coragem e discernimento para fazer. 

Uma parte dessa trajetória vai contada aqui, em modo sintético, pelo próprio. Sondei o Zé para essa entrevista há tempos, e finalmente a realizamos agora, em modalidade ainda remota, por escrito. Ao ler as respostas, o leitor vai entender a riqueza de sua vida que tem aspectos de roteiro de telenovela – uma adoção, o retorno à mãe, muitos irmãos… Mas na realidade tudo tem, ao contrário, o aspecto de vida bem resolvida, tomada pelo protagonista como coisa a ser vivida, não como drama a ser chorado.

Grande Zé Adão! 

(Entrevista por escrito, para Luís Augusto Fischer)


Parêntese – Zé, uma pergunta geral sobre uma coisa admirável que sempre me fascinou na tua trajetória: de onde vem essa tua criatividade na invenção de estratégias de sobrevivência – trabalhos para rádio e tevê, a tua escola de atuação, etc.? Vira e mexe tu apareces com uma nova ideia. É coisa de família? Tua?

Zé Adão – Meu pai era comerciante, tinha um baita tino para negócios, acho que herdei dele este “empreendedorismo”. Quando fiz a novela “Laços de Família” (da qual fugi) percebi que jamais iria embora daqui para ser ator de tv, que é uma das poucas possibilidades de ter uma carreira ascendente e ganhar dinheiro, então decidi investir em algo que eu sempre adorei, formar atores. Não fiz faculdade mas trabalhei com os maiores diretores de Porto Alegre, Irene Brietzke, Luciano Alabarse, Luis Paulo Vasconcellos, Maria Helena Lopes, Carlos Carvalho, e com eles aprendi muito do que hoje ensino, além de ser um estudioso contumaz. Este ano faço 42 anos de carreira e 35 anos como professor. 

O TEPA [Teatro-Escola de Porto Alegre] era uma forma de transformar o prazer de ensinar em um negócio rentável. Foi o que aconteceu, durante 14 anos a escola foi um grande sucesso. Por motivos ideológicos deixei o TEPA para fundar a Casa de Teatro, que hoje é considerada uma das maiores escolas do Brasil. Neste meio tempo criei um programa de treinamento para profissionais diversos, onde trabalho elementos da retórica com a persuasão com as técnicas de um ator (expressão corporal, técnica vocal, improvisação e análise do discurso). Foi um dos cursos mais vendidos pela USEN do SEBRAE, ministrei em dezenas de grandes empresas, juízes, professores, jornalistas e até políticos. Hoje o curso faz parte da grade da minha escola.

P – Como foi essa tua “fuga” na novela global. Por quê? Alguma razão específica? 

ZA – Hahaha, essa o Zé Vitor Castiel conta melhor. Eu tava odiando o meu personagem, que até crescia mas eu nem nome tinha. Um dia o Zé Mayer, que virou um amigão, ligou pro Manoel Carlos e disse que eu era um ator conhecido no sul e que meu peão tinha que ter um nome. No próximo capítulo já veio o “Zé Tenório”. Mas eu estava insatisfeito com tudo, minha escola precisava de mim, eu tinha que viajar pro Rio às vezes 2, 3 vezes por semana pra gravar umas ceninhas chochas. Um dia eu e Zé Victor andávamos no calçadão de Ipanema e eu falei que ia cair fora. Ele ficou louco e disse:  ¨Zé, a gente tá numa novela das oito! Isso pode nos trazer muitas coisas boas”. Um dia eu tinha um evento em Porto Alegre, com cachê alto, e fui chamado na noite anterior para gravar uma ceninha na novela em que eu só entrava com uma mala e saía. Aí explodi, perdi o evento e fui, mas quando vim embora enviei um email pra produção dizendo que meu contrato tinha expirado uma semana antes e eu não queria mais fazer a novela. Foi um horror, o personagem apareceu num capítulo e sumiu no próximo. Até hoje não faço nem figuração na Globo. Barrado no baile. Depois de ?”O Tempo e o Vento” o Jayme [Monjardim] me chamou pra próxima novela dele, mas não fui aceito, acho que ainda pela fuga.

P – Conta da tua formação familiar. Jaguarão é tua terra natal? O que significa essa origem? Viveste muito tempo lá? 

ZA – Nasci em Porto Alegre e com um ano de idade fui para Jaguarão com meus pais adotivos. Vivi lá até os 10 anos. Lá tem o lindo Theatro Esperança, onde pisei com 5 anos declamando um poema. isso foi a faísca do ofício que escolhi. Quando fui morar com meus pais em Camaquã, com 16 anos, montei um grupo de teatro, e com 17 anos vim para Porto Alegre para me profissionalizar. Jaguarão até hoje é a “minha” cidade.



P – Tu pode falar mais da tua adoção? Era gente conhecida? Tu conheces a tua família biológica? Foi tudo bem? Tu fala em irmãos que já viviam em Porto Alegre: tu era dos mais novos?

ZA – Quando minha mãe Ceny foi me parir teve uma peritonite com hemorragia e quase morreu, chegou a receber a extrema-unção. Então pediu para minha tia Ely, irmã mais velha do meu pai, me criar, e distribuiu os outros filhos entre os irmãos dela. Daí que eu fui com meus tios Ely e Dalmácio (um turco enorme, maravilhoso) para Jaguarão.

Com dez anos saímos de Jaguarão para Porto Alegre porque meu pai turco havia falido e ia trabalhar na recém-inaugurada TV Difusora. O emprego não rolou e fomos morar em um sítio de um tio em Viamão. Como eles viram que estava difícil se manter e não queriam que eu passasse trabalho, eu fui morar com meus pais biológicos em Camaquã (Adão e Ceny). Eu já ficava com a família biológica nas férias de verão, mas desta vez fui em definitivo, e vivi com os seis irmãos, quando fazíamos os “teatrinhos” no sótão. Fiquei em Camaquã até os 17 anos, quando vim para Porto Alegre ser ator. Minha vida parece roteiro de melodrama, hahahaha.

P – E a origem da tua família: é gente de lá mesmo? Alguma ligação com o mundo do campo, do cavalo, dessa matriz gauchesca? Ou era gente urbana? 

ZA – Meus pais eram de Tapes, meu avô era de uma família de fazendeiros que perderam quase tudo. Família conhecida, respeitada até hoje. Meu pai, comunista desde jovem, conseguiu estudar em Porto Alegre no colégio Rosário. Dali fez vestibular para Economia na UFRGS (hehehe). Tornou-se comerciante de sucesso, foi um dos fundadores do PTB, depois do PDT, era amigo do Brizola, até que em 65 foi preso, o que causou um sofrimento enorme e muitas perdas à família. Camaquã é uma cidade bem de direita e nós éramos os “filhos do comunista”. Minha mãe, quando jovem, era atriz de teatro amador em Tapes, fez várias peças até casar com o belo comunista de olhos azuis. Teve com ele sete filhos e passou mil perrengues em função da política. Hoje meu pai é nome de escola e praça em Camaquã. Os dois já são falecidos.

P – Como nasceu o teu interesse pelo teatro? Teve alguma outra hipótese de vida profissional?

ZA – Nunca pensei em outro ofício, jamais, sempre fui conhecido como o artista da família e levei isso a sério. As brincadeiras de teatro com os irmãos firmaram a vocação. 

P – E em Camaquã, alguma experiência importante?

ZA – Saí de lá com 17 anos com muita mágoa pelo que minha família passou e só voltei para as primeiras gravações da novela “Laços de Família”. É uma cidade que me traz lembranças boas com o grupo de teatro, os bailes, os amigos, mas é uma cidade reacionária, parada no tempo. Nunca mais fui lá.

P – Como foi tua chegada a Porto Alegre? Que cidade era aquela? E como tu aprendeste a geografia, física e cultural, da cidade? Conta alguma experiência tua.

ZA – Meus irmãos já moravam aqui e eu vinha todos os fins de semana para ver teatro e cinema e para comprar livros na Livraria do Globo. Herdamos do meu pai a paixão pelos livros. Quando vim morar aqui já conhecia bastante a cidade, na época a gente andava muito a pé, não tinha essa violência. Nos 80 caí no Bonfim fervilhante de gente, punks, darks, artistas, hippies, fiz dezenas de amigos. Depois veio o bar do IAB, onde fiquei amigo de artistas conhecidos na época, Claudia Meneguetti, Oscar Simch, Zé Vitor Castiel, Guto Pereira, que me abriram muitas portas.

P – Tu tiveste relação com o teatro operário, ou de origem operária, na zona norte? Como foi isso? Quem eram teus parceiros nessa época? 

ZA – Meus primeiros cursos foram no Círculo Operário da avenida Polônia. Na época eu trabalhava no Badesul como office-boy e ia a pé pela Farrapos com meu amigo Elison Couto, grande ator. Íamos a pé pra voltar de ônibus às 23 horas e comer um cachorro-quente no Mercado. Nos anos 80, cheguei a dar aulas de teatro em Alvorada e na Febem. Experiência forte e necessária para entender o teatro como um riquíssimo instrumento de educação.

P – Tua formação escolar alcançou a universidade? Por quê?

ZA – Nunca pude fazer vestibular porque me profissionalizei muito cedo e nunca parei de fazer teatro. Mas adoraria ter feito o DAD [Departamento de Arte Dramática, do Instituto de Artes da UFRGS]. Para compensar, como era amigo de muitos professores, assistia as aulas de Ivo Bender, Graça Nunes, Irene Brietzke. Com quem aliás vim a trabalhar mais tarde.

P – Como foram tuas primeiras atuações no teatro? Conta um pouco daquele ambiente, dos camaradas, dos inimigos…

ZA – No colégio Pio XII, eu era do grêmio e vivíamos o auge do movimento estudantil. Montamos um grupo de teatro chamado “Veio d’Água” e montávamos peças políticas desde “Os Saltimbancos” do Chico, até Plinio Marcos, Guarnieri, etc. Em 81 fui trabalhar com Ronald Rahde e me profissionalizei, aí os estudos foram pras cucuia.



P – E no cinema? Como começou e como se desenvolveu?

ZA – Eu 1985 eu fazia uma peça que foi um sucesso e um divisor de água na minha carreira, “A Lição”, de Ionesco. Eu era um ator ainda desconhecido e esta peça me deu muito prestígio na classe. José Pedro Goulart e Jorge Furtado foram assistir e me chamaram para meu primeiro filme, “O Dia em que Dorival Encarou a Guarda”, em 1986.



P – E o rádio? 

ZA – Durante os anos 80 vivi muito bem com locuções publicitárias, o que me deu um bom know-how em estúdio de voz. Anos depois tive um programa na Rádio Gaúcha que durou 6 anos, “Era uma vez em Porto Alegre”, em que eu contava as histórias das ruas e dos bairros de Porto Alegre. Tinha uma audiência incrível. 

P – E a tua escola de teatro, a atual? 

ZA – A Casa de Teatro faz 12 anos e formou alguns dos melhores atores da nova geração, muitos, hoje, conhecidos nacionalmente. Somos a única escola com “selo verde” que garante o DRT do SATED, que é a profissionalização. Temos cursos para crianças, adolescentes e sempre tivemos alunos de idades mais avançadas. Tenho um aluno no curso de formação que tem 74 anos, aposentado, e é um baita ator.

P – E o que tu vais inventar em seguida? 
ZA – Estou começando os ensaios de uma peça escrita para mim pelo médico e escritor Gilberto Schwartzman, com quem eu desenvolvi este ano o lindo projeto “Poesia nas Ruas”, em que declamava os maiores poetas brasileiros da sacada da Biblioteca, do Theatro São Pedro e na porta do Memorial do RS. Esta peça chama-se “O Sol Brilhou na Corrúpnia” e conta a história de dois atores quase centenários que resolvem voltar ao palco para fugir da morte. Estreamos em julho.


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