Entrevista

Zilá Bernd: Da França para a francofonia, do centro para as margens

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Zilá Bernd: Da França para a francofonia, do centro para as margens Recebendo o canudo das mãos de Guilhermino César

Fui aluno da nossa entrevistada no distante ano de 1976, quando ingressei na UFRGS. Virei professor no mesmo Instituto de Letras, em outra área, e pelo tempo fomos nos vendo, compartilhando cafezinhos no bar e preocupações intelectuais, até que ela foi minha orientadora na fase final do meu doutorado. Sempre com a mesma correção e gentileza.

Zilá Bernd tem uma trajetória, como se vai ver, que mescla dedicação ao trabalho com deslocamentos intelectuais muito significativos, que escaparam ao círculo do já conhecido para entender fenômenos que entre nós eram quase invisíveis, mas relevantes. Em seu percurso, muito se pode entender sobre relações culturais para além do mundo brasileiro. 

Professora de francês, o que se esperava dela era em última análise que se restringisse a divulgar aqui a cultura parisiense – o Brasil letrado foi, até pouco tempo atrás, um colonizado querendo ouvir qual era o “dernier cri”, o último grito, como se dizia. Um parisiense gritava lá, e aqui o pessoal se mexia para atender o que ele ordenava.

A Zilá foi uma das protagonistas da virada que ocorreu nos anos 80 e 90: ora, também se falava e se escrevia em francês aqui nas Américas, a sede de parte das colônias que garantiram a riqueza de Paris por séculos. Que tal prestar atenção a essa voz? E que tal, pensou a Zilá pioneiramente, pensar em ouvir os afrodescendentes brasileiros, que compartilhavam uma série de experiências sociais (cruéis) e formas culturais (algumas sublimes) com aqueles camaradas de fala francesa nas Américas? 

Seu depoimento, concedido em entrevista por email, ajuda a entender um trecho decisivo dessa história, que tem novos capítulos mas não começou ontem.

Parêntese – Conta da tua infância e juventude, os anos escolares: como foi? Onde? Onde tu estudaste? Qual a história próxima da tua família? Havia algo já, neste período, de ligação com o mundo das Letras, do Francês, da literatura?

Zilá – Minha mãe era professora primária, como se dizia naquela época, hoje seria professora do ensino fundamental público, então fiz meu ensino fundamental que – à época – ia até a quinta série, na Escola Estadual Floriano Peixoto, em Porto Alegre, na mesma escola em que minha mãe era professora do jardim de Infância. Pensar em ser professora, ouvindo as queixas dos baixos salários e da falta de condições das escolas, estava fora de cogitação. 

Nesse tempo, eu morava na praça Dom Feliciano e ao lado de meu edifício havia uma Biblioteca Pública Infantil: ali me iniciei na leitura de todo tipo de livro: de Monteiro Lobato a Karl May, das historinhas infantis aos contos dos irmãos Grimm e às aventuras de Robinson Crusoé. Em um determinado dia, a diretora da biblioteca, Lucília Minssen, informou a meus pais que meu irmão e eu havíamos lido praticamente todos os livros da biblioteca…  

Zilá com 6 anos de idade

Fiz o exame de admissão para entrar no ginásio (que corresponde ao que é hoje o fundamental (da sexta à nona série) no Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho. Não veio dessa instituição nenhuma inspiração para a literatura, uma vez que fui várias vezes discriminada por ter vindo da escola pública, já que o Bom Conselho era, na época, um colégio frequentado por uma certa elite porto-alegrense… Ia para a escola diariamente de bonde, que pegava na praça Dom Feliciano, onde morava, seguindo pela avenida Independência. 

Passei a última série do ginásio pensando em voltar para o ensino público para fazer o Clássico, hoje ensino médio, o qual não distingue mais os alunos que optam pelas ciências humanas dos que optam pelas ciências exatas. Foi uma alegria migrar para o colégio Júlio de Castilhos, em sua nova sede na av. João Pessoa onde está até hoje. 

Naquele ano de 1960, as meninas estudavam pela manhã e os rapazes à tarde. Era misto, porém separado.

Colégio Bom Conselho

Pois foi no Júlio de Castilhos, nosso inesquecível Julinho, que se deu o despertar de minha paixão pela literatura francesa com as aulas de Mme. Geneviève Ledû e sua dedicação ao ensino da literatura e da língua francesas. Nos três anos de curso clássico, com seis aulas de francês por semana, pude ler dos clássicos aos modernos, da poesia à prosa e ao ensaio, com os textos inesquecíveis de Michel de Montaigne.  

Dessa experiência nasceu o projeto de cursar Letras na UFRGS, que iniciei em 1964. Que ano para ingressar em uma universidade pública, hein? Mal iniciamos o curso e os brilhantes professores Gerd Borheim, Dionisio de Oliveira Toledo e Ângelo Ricci, entre outros, foram expurgados pela ditadura de 1964, aquela que alguns não querem que se chame de Ditadura. Foram perdas irreparáveis, pelo nível dos professores e pelo ambiente que se criou de desconfiança e de insegurança. 

P – A tua experiência como aluna de Letras da UFRGS, como foi? Que professores foram marcantes? Podes fazer um retrato de alguns deles? 

Z – Um dos mais marcantes foi Guilhermino César da Silva, grande conhecedor da literatura brasileira e sul-riograndense, que veio a ser meu orientador de Mestrado. 

Marcel Laccarat, leitor de francês, Nora Thielen, Ignácio Neis, Donaldo Schuler, entre tantos outros. 

Guilhermino César era uma figura instigante, pois ao mesmo tempo em que assombrava os alunos com seu imenso saber, intimidava aqueles que eram displicentes, pois naquele período não havia o politicamente correto e os professores podiam chamar os alunos de vira-latas. Apesar da rabugice, ele tinha um humor fantástico, e quando gostava do aluno e de seu tema de tese se tornava uma pessoa admirável e inesquecível. Conheci sua biblioteca particular que ficava em um apartamento ao lado daquele que habitava com sua família na av. Independência. Dado o extraordinário volume de livros que possuía teve que alugar um apartamento ao lado do seu para acomodar sua vasta biblioteca. Sábio e generoso mestre. 

Formatura no Instituto de Letras

P – Qual era o horizonte histórico que tu viveste nesse tempo da graduação? O que era ser uma mulher jovem, estudante de Letras, no contexto? 

[Continua...]

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