Entrevista

Zoravia Bettiol: Inquieta, inteligente e divertida

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Zoravia Bettiol: Inquieta, inteligente e divertida Prêmio ABCA 2018, homenagem pelo conjunto da obra. SESC Vila Mariana

O nome nada tem de comum – “Zoravia”, numa busca pelo google, resulta em indicações apenas da própria Zoravia Bettiol. Sabe lá o que é ter um nome dessa raridade? Se é verdade que cada pessoa, qualquer pessoa, é sempre única e irrepetível, muito poucas terão essa marca distintiva já no nome. 

E tem a obra. Zoravia Bettiol (que tem também um segundo nome, Augusta, mas não usa) tem uma trajetória notável, nas artes visuais e na vida cidadã. Em Porto Alegre e noutras partes, sua presença é certa ao lado das melhores causas, com uma gentileza que faz par com a serenidade de seu olhar. 

Aqui, Zoravia responde a perguntas de 16 entrevistadores, arregimentados por Renato Rosa, marchand e artista plástico que empresta mais esse brilho à Parêntese.

(Luís Augusto Fischer)


1 – Luís Augusto Fischer, editor: Como é tua história familiar, pais e avós, etc.? Onde passaste tua infância? Como nasceu o interesse pelas artes? O ambiente familiar, escolar ou de amizades teve importância?

Querido Fischer, meus avôs maternos e paternos eram italianos. Já a avó materna era sueca e a avó paterna de origem austríaca. Nasci em Porto Alegre em 1935, na rua Santa Cecília, e tenho uma irmã, Dilmer, dois anos mais velha do que eu, e meu irmão, Arrenius, é dois anos mais moço.  Meu pai, Sigefrido Bettiol, que tinha uma forte cultura humanista, era professor e advogado. Na época do Estado Novo, foi perseguido e exonerado dos colégios onde lecionava. Nos mudamos para Bento Gonçalves, depois Erechim e São Paulo. Minha mãe, Emma Bettiol, tinha um sentido muito objetivo e prático, e administrava a parte econômica da família.  Voltamos para Porto Alegre quando eu tinha 11 anos e entrei para o primeiro ano ginasial no Instituto de Educação.


Emma e Sigefrido Bettiol, Rina Chitolina (os três sentados à frente), Dilmer, Zoravia e Arrenius (os três ao fundo) – PORTO ALEGRE, 1953

Não conheci meus avós, pois eles já tinham falecido quando nasci, mas eu e meus irmãos     nunca sentimos falta deles porque meus pais e minha tia, Rina Chittolina, que era   assistente social e sempre morou conosco, eram muito carinhosos e compreensivos. Eles nos transmitiram muita segurança afetiva. Além disso, proporcionaram um ambiente intelectual muito estimulante, princípios de justiça social e respeito ao ambiente natural. Desde criança, desenhar e pintar eram uma atividade profundamente prazerosa, tanto assim que nas férias de dia a minha casa era cheia de crianças, mas à noite eu encontrava tempo para desenhar e pintar. Portanto, quando decidi entrar para o Instituto de Belas Artes minha família aprovou minha decisão. Fui aluna de pintura do professor Ado Malagoli, que foi um bom professor. Também tive aulas com João Fahrion, ótimo artista, porém um professor que não tinha didática. Resolvi entrar no atelier do escultor Vasco Prado para aprender desenho e acabei aprendendo linoleogravura e xilogravura. Comecei, também, a fazer tapeçaria bordada, que não me satisfazia, pois ela imita o ponto linho do tear. 


2 – Clara Pechansky, artista plástica: Zoravia querida, tu és conhecida por abraçar muitas técnicas. Qual delas melhor te identifica?

Querida Clara, gostei imensamente e fiquei conhecendo muitos aspectos da tua vida e obra na entrevista que deste para o programa “Prata da Casa”, da minha filha Nora Prado. 

As técnicas a que mais de dediquei foram a gravura: linoleogravura, monotipia, xilogravura, litografia e, mais recentemente, a gravura digital, cuja mais recente série que fiz foi a “Divina Rima”. A arte têxtil também me envolveu durante muitos anos. Comecei com tapeçaria bidimensional e acabei fazendo muitas séries. Posteriormente, comecei a me dedicar a formas tecidas e obras tridimensionais. Estudei arte têxtil em Varsóvia em 1968. Sou, juntamente com Ieda Titze, percussora da nova tapeçaria no Rio Grande do Sul, sendo que Jacques Douchez e Norberto Nicola introduziram a nova tapeçaria em São Paulo e no Rio de Janeiro. Participei da 4ª Bienal Internacional de Tapeçaria de Lausanne, no Musée Cantonal de Beaux Arts, e no Mobilier National, em Paris, ambas em 1969. Fui a única brasileira desse ano, sendo que nos 34 anos que durou este importantíssimo evento têxtil, somente mais 3 brasileiros participaram: Sheila Paes Leme, Jacques Douchez e outro artista de que não me lembro o nome. 


O CASTELO – Série Kafka – Xilogravura – 80 X 47 cm – 1977

3 – Liana Timm, artista multimídia: Querida Zoravia! Feliz por ter te encontrado nos caminhos da arte. Lá se vão 43 anos. Convivemos intensamente lutando pela liberdade e pelo patrimônio cultural tanto de nossa cidade, quando do estado e do Brasil. Aprendi contigo essa consciência cidadã. Obrigada. Pensando em tua produção, gostaria de saber sobre algumas séries cuja temática gira em torno dos Orixás, e principalmente Oxalá e Iemanjá. Como situas a religião em tua arte?

Querida Liana, realmente nos envolvemos em muitas lutas e fiquei muito feliz em ter participado das comemorações recentes dos teus 35 anos dedicados a poesia. Gostaria de esclarecer que sou ateia, mas a beleza dos rituais religiosos e as histórias das religiões são envolventes e criativas. Esses aspectos me interessam como artista, por este motivo fiz séries de xilogravuras sobre os Deuses Olímpicos, Gênesis, os Orixás, representei a Iemanjá em xilogravura, desenho, tapeçaria e algumas vezes Oxalá, Xangô, Oxum e Oxôssi. O que sempre me chamou muita atenção é o fato de que as religiões monoteístas dizem que seu Deus é melhor do que os outros. É uma concorrência enorme para atrair seus fiéis (ou são clientes?). 


4 – Ivette Brandalise, jornalista: Bibi Ferreira dizia que “a velhice é uma prova irrefutável da existência do inferno”. Tu te sentes no inferno, no paraíso ou não tens como responder porque ainda não chegaste na velhice?

Querida Ivette, amiga de longa data e de muitas entrevistas memoráveis, gostei das tuas provocativas considerações. Também me lembrei das reflexões da Bette Davis que dizia mais ou menos o seguinte: “Depois dos 40 anos a vida é um plano inclinado, só vai…”, vender a alma ao diabo e, se possível, não entregá-la, como tentou Dr. Fausto, do Goethe. Como a morte é inevitável, almejo ir para o inferno, onde se encontram almas mais inquietas, inteligentes e divertidas. Vou encontrar muitos amigos lá! Paraíso… sentar no colo da virgem Maria, à direita de Deus, e entoar cânticos monótonos e chatos com os anjos e arcanjos… longe de mim!



5 – Margarete Moraes, agente cultural: Querida Zoravia, gostaria que você comentasse como se deram, na longa convivência com o igualmente artista plástico Vasco Prado, as mútuas influências e aprendizados no campo artístico, humano e político.

Querida Margarete, responsável por muitas realizações importantes na área cultural do nosso estado, especialmente quando foi Secretária Municipal de Cultura, e uma das fundadoras do Instituto Zoravia Bettiol. Na minha relação com Vasco, aprendi muito as bases do desenho e da gravura, pois fui sua aluna. Durante nos nossos quase 25 anos de convivência, nossos três filhos, Fernando, Eleonora e Eduardo, tínhamos um atelier muito ativo. Vasco se envolvia com suas criações e encomendas. Quando as crianças eram pequenas, acompanhava suas lições. Eu, além do meu trabalho de artista, acumulava as funções de administradora do nosso atelier, da galeria e da casa. Era um trabalho pesado pois a casa com as três funções tinha 1.000m², implantada em um terreno com quase um hectare. Chegamos a ter 12 funcionários, todos com carteira assinada. Vasco e eu tínhamos uma diferença de 21 anos de idade. Ele tinha um temperamento mais introvertido, e eu sou muito extrovertida. Quanto à questão política, ele era uma pessoa de esquerda, eu também, ambos muito preocupados com a desigualdade social gritante de nosso país, com as injustiças sociais e os governos corruptos e ditatoriais. Cada um de nós tinha seus próprios atelieres, mas sempre comentávamos e criticávamos o trabalho um do outro, o que é muito valioso. Naquela época, os turistas vinham para nossa casa e depois na casa do Érico Veríssimo e da Mafalda, ou vice-versa. Porto Alegre era uma cidade tranquila, com poucas atrações. Por isso, nosso atelier e Galeria eram um ponto cultural, turístico e afetivo de nossa cidade.   


6 – Paulo Dalacorte, colecionador: Prezada Zoravia, como analisas o sentido e a importância do colecionismo e das coleções privadas para os artistas?

Prezado Dalacorte, até hoje me lembro da magnifica e marcante pintura da querida e talentosa Maria Lídia Magliani, que tu compraste do meu acervo. Me encanta ver e apreciar coleções privadas e seria muito proveitoso se expusesses a tua em alguma instituição de Porto Alegre. Realmente, quando um colecionador ou colecionadora adquire obras de artes visuais de um determinado artista, elas estarão muito melhor cuidadas, poderão ser vistas e apreciadas e sua cotação no mercado poderá alcançar preços mais altos e, de mais a mais, os artistas profissionais precisam vender suas obras e poder continuar produzindo mais. O Nei Vargas da Rosa fez uma tese, intitulada “Colecionismo de arte contemporânea: entre a centralidade das bordas e o mainstream”, que será publicada, espera-se, proximamente. Será ótimo conhecermos colecionadores e colecionadoras de muitos estados brasileiros. Embora tenha obras, principalmente gravuras, em muitos museus do Brasil e do exterior, quem mais adquiriu minhas obras é minha amiga, pesquisadora, professora e curadora, Paula Ramos. São 25 xilogravuras e uma grande e linda forma tecida intitulada “O Standarte de Oxôssi”. Sendo que o Gilberto Chateaubriand adquiriu serigrafias, xilogravuras e 8 cadeiras da série “Cadeiras para que te quero” que estão in-comodato no Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro. 


7 – Jacob Klintowitz, crítico de arte: Existe um dado fundamental na tua longa jornada na arte e ele marca e diferencia o teu trabalho. Este dado é a clara intenção de permanecer inserida na grande vivência cultural da espécie humana. Muito jovem você interpretou os mitos épicos gaúchos. A dureza dos guerreiros. Posteriormente, num momento em que a tapeçaria brasileira era constituída de formas tecidas, você criou tapeçarias narrativas onde nos mostrou o outro lado do mito, evidenciou a ternura e o amor, incluindo até textos literários. Depois, numa coragem extrema, criou um álbum de gravuras a partir dos temas de Kafka, o último dos profetas. Enfrentou o Profeta da nossa época, o gênio de escrita opaca que nos revelou um futuro no qual todas as coisas são postergadas, onde não há fatos, mas somente a culpa. Em Kafka o Pecado Original nasce a cada dia. Que tema para um jovem artista! E, para simplificar, este ano que passou nos trouxe as suas ilustrações sobre Dante. Agora, Zoravia, enfrenta o mito fundador da nossa literatura. E não se atemorizou em refazer os passos de gigantes, como Boticelli. Pois bem, Zoravia, você desde sempre optou pela grandeza. E isso numa época em que um simples fragmento de linguagem parece suficiente para satisfazer uma humanidade atordoada…. Eu queria que você nos falasse dessa vertente que percorre a tua obra e da fascinação que a linguagem exerce em você.

Querido Jacob, nos conhecemos em Porto Alegre no início da década de 1960. Te mudaste para o Rio, depois foste para São Paulo e convivemos bastante nos 8 anos nos quais morei na capital. Muito importante, sensível e abrangente a apresentação para a série Kafka, com 16 xilogravuras, o teu texto sobre arte têxtil brasileira e tua participação no filme “Zoravia”, do cineasta Henrique de Freitas Lima. O que consigo te dizer é que sou uma pessoa mais intuitiva do que racional, e na minha vida pessoal e profissional esbocei algumas linhas gerais, mas, no mais, as circunstâncias de vida foram indicando caminhos e eu escolhendo e trilhando o que mais conveniente (pois a vida é uma eterna escolha). Comecei a fazer gravura em 1956 e me apaixonei. Resolvi ilustrar a obra “A Salamanca do Jarau”, de Simões Lopes Neto, que narra a saga de Blau Nunes com seus personagens reais e míticos. Quanto às tapeçarias da série “Homenagem a Poetas”, gravei partes da poesia dos poetas homenageados aos tecidos, realizados em tear. Já na série Kafka, interpretei O Castelo, O Processo, Amerika e os contos “Metamorfose”, “Médico Rural” e “Carta ao Pai”. Finalmente, no belo texto de Gilberto Schwartsmann, uma adaptação em tercetos da Divina Comédia, o livro Divina Rima: Um Diálogo com a Divina Comédia de Dante Alighieri, onde procurei captar o clima poético da narrativa do bardo Italiano. A vertente relacionada na grande vivencia cultural da espécie humana, como bem observas, foi se desenvolvendo naturalmente, sem nenhum planejamento, intuitivamente.  Quanto à linguagem, a palavra escrita é uma das formas mais completas e vibrantes dentre as manifestações artísticas. 


8 – Vera Chaves Barcellos, artista multimídia – Zoravia, tu foste uma atuante  batalhadora pela cultura. Hoje, que aconselharias aos artistas jovens nesse sentido?

Querida Vera, nossa amizade remonta ao início da década de 1970, quando reativamos a Chico Lisboa, que ficou desativada durante aproximadamente 15 anos. Convivemos depois durante minha gestão como Presidente da Chico, entre 1980 e 1982. Será que conselho adianta? Eu aconselharia o jovem artista que seja curioso, corajoso e persistente. Que procure se informar do que está acontecendo nas artes, na cultura e em outras áreas do conhecimento, que trabalhe muito e viva intensamente. Só assim terá condições de encontrar um caminho pessoal. 



9 – Tânia Carvalho, comunicadora – Querida Zoravia, sei que fazes isso a vida inteira. Fizeste protestos através da arte, de teus trabalhos, sempre engajadérrima. Poderias nos falar um pouco sobre tua atuação cidadã?

Querida Tânia, nosso contato começou quando trabalhavas na Galeria Esfera, do Sonilto Alves, e depois continuou nas inúmeras vezes que tive o prazer e a alegria de ser entrevistada por ti. Respondendo a tua pergunta, eu achava que havia um paralelismo entre minha atuação cidadã, política e profissional. Mas, há anos, constato que essas atuações são entrelaçadas e isto ocorre naturalmente, sem nenhum esforço ou programação prévia. Comecei a me envolver com a política cultural quando estava no Instituto de Belas Artes, participando de congressos de estudantes em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, na Bahia, quando terminei o bacharelado em pintura, em 1955. Em 1956, entrei para a Associação Chico Lisboa e foi uma “escola” trabalhar na diretoria, com Xico Stockinger, Vasco Prado, Joel Amaral, Francisco Riopardense de Macedo e Gastão Hofstätter. Observava a atuação deles e via, mas não comentava, quem tinha tido o melhor desempenho ou razão. Em 1959, entrei para o grupo de poesia “Quixote”, fiz ilustrações de poesia brasileira e as apresentei na III Jornada Pan-Americana de Poesia, em Piriápolis, no Uruguai. Na década de 1980, ingressei na AGAPAN, e permaneço até hoje nesta instituição, ligada ao ambientalismo, e na Associação Chico Lisboa. Participei da criação de associações artísticas e culturais em Porto Alegre, São Paulo e San Francisco, na Califórnia. E, claro, quando havia manifestações públicas, como contra a chacina de jovens adolescentes na Candelária, no Rio de Janeiro, participei da manifestação contra este ato brutal em frente ao consulado brasileiro, em San Francisco. Em 2016, com golpe e impeachment da presidente Dilma e até o início da pandemia do coronavírus de 2019, estive presente nos protestos públicos.  Como consequência do golpe, criamos, também, o Comitê pela Democracia e o Estado Democrático de Direito. Atualmente, tenho dificuldade de me locomover, mas continuo me manifestando por meio de meu trabalho e nas redes sociais, combatendo a ignorância, a crueldade e os desmandos deste governo genocida. 



10 – Vera Pellin, agente cultural – Zoravia, mulher que muito admiro, de tantas causas, com reconhecimento público internacional em todas as suas ações, me responda: de todos os trabalhos ou projetos que realizou, qual lhe deu mais prazer? Poderias destacar um como sendo o que melhor expressou o seu pensar e o seu fazer artístico?

Minha relação contigo, querida Vera, remonta ao tempo em que foste professora e uma diretora muito ativa e realizadora do Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre. Destacaria, ao invés de um, dois trabalhos que me deram muita satisfação: as xilogravuras da série Iemanjá, meu orixá preferido, pela riqueza da lenda a seu respeito, e a série de formas tecidas “Metamorfose”, verdadeiras esculturas têxteis, com as quais se que pode fazer diferentes combinações, com seus dois ou três elementos, no solo.  



11 – Irene Santos, fotógrafa: – Pergunta azeda de uma viúva da fotografia analógica: Zoravia, será que resistirão os artistas plásticos às novas realidades que já se mostram substituindo a prática manual por aplicativos e as pinceladas por filtros do Instagram?

Querida Irene, minha fotógrafa por muitos anos. As mais antigas práticas das artes visuais, como a pintura a óleo, a pintura acrílica e a pintura feita digitalmente, coexistem harmoniosamente. Quando surgiu a fotografia, em 1839, na França, com Joseph Nicéphore Niépce, artistas plásticos achavam que ela iria lhes roubar compradores. A realidade provou que as artes visuais acabaram influenciando a fotografia, assim como ela acabou influenciando as artes visuais. Com os avanços tecnológicos nas mais recentes décadas, o e-book é uma realidade. Mas, como dizia Umberto Eco, “Os eletrônicos duram 10 anos, os livros 5 séculos”. Bom que hoje há público, principalmente entre os leitores jovens, que adoram ler no notebook, e há um público vasto fiel ao livro impresso, no qual me incluo. Nos dias atuais, pode se reunir milhares de músicas no Spotify que foram produzidas pelos vinis bem como pelos CDs. Portanto, querida amiga, felizmente há fartura de luminosidade e sol para a pintura, a fotografia, o livro e a música. 


Zoravia e elementos dos desenhos.


12 – Eduardo Vieira da Cunha, artista plástico: – Minha pergunta é uma espécie de homenagem ao José Ottoni Outeiral, ele foi meu psicanalista e gostava muito de ti, Zoravia. Sintetizando, pergunto: a arte é uma forma socialmente aceita de extravasar a libido?

Eu também gostava muito do Outeiral, algumas vezes ele tentou ser meu aluno, mas o excesso de trabalho dele acabou não permitindo. A arte é indomável e a libido pode aparecer de forma implícita, explícita ou ser somente insinuada ou evocada, não apenas nas artes visuais, mas em todas as manifestações artísticas. 



13 – Paula Ramos, curadora: – Zoravia, o teu trabalho tem um elemento muito forte de lirismo, fantasia e evocação do universo infantil. Como foi a tua infância e em que medida ela repercute na tua obra?

Querida Paula, a quem recorro quando tenho alguma dúvida sobre artes visuais. Tive uma infância muito feliz na companhia de meus irmãos, Dilmer e Arrenius, que se desenvolveu nas cidades de Porto Alegre, Bento Gonçalves, Erechim, São Paulo e novamente em Porto Alegre, como disse. Meus pais e a tia Rina, que sempre morou conosco, nos proporcionaram um ambiente amoroso e intenso que nos deu muita segurança emocional e um ambiente cultural rico e variado. Nossa casa sempre teve muitas crianças com as quais compartilhava muitas brincadeiras. Esse ambiente alegre e intenso, vinculado ao impacto positivo do nascimento de meus filhos, Fernando e Eleonora (Eduardo nasceu onze anos depois) estimulou a criação das séries “Primavera”, em 1964, e “Namorados”, em 1965, nas quais as brincadeiras têm presença marcante, assim como a amizade e o amor, com referências de sóis, luas, estrelas e flores, o que acaba criando um clima poético. 



14 – Francisco Marshall, professor de História e ativista cultural: – O que significa o nome Zoravia, para ti e para o mundo?

Querido Marshall, com o qual convivi virtualmente por um curto período na Prosperartes e cuja crônica quinzenal no caderno DOC é esperada com muita curiosidade por todos, inclusive por mim, pela forma provocativa, erudita, poética e, muitas vezes, contundente com a qual aborda os mais variados assuntos. “VIA” vem do Latim e Iugoslavo, significa “caminho”, e “ZORA”, “amanhecer”. Portanto, o significado do meu nome é “caminho do amanhecer”. Meu segundo nome, Augusta, me foi dado em homenagem à minha avó sueca. São dois nomes fortes, mas eu penso que Zoravia Bettiol é suficiente para uma artista visual. Desde cedo, fui ensinada que o nome é uma marca, um passaporte na vida, pelo qual temos que zelar, para termos credibilidade como cidadãos e como profissionais. 

Sabe-se que, depois da morte, seremos lembrados, em média, por até três gerações, quando muito. Só que a vaidade e a pretensão humana são tão descabidas que as pessoas acham que serão lembradas eternamente… Um Leonardo da Vinci, um Dante Alighieri, um Galileu, um Karl Marx e um Sigmund Freud são exceções. No ponto que está a humanidade, com a crise climática acentuadíssima, uma superpopulação e, brevemente, os 2 graus a mais na temperatura média global tornariam a vida humana impossível. Não haveria comida para todos e poderão ocorrer inundações das cidades, em consequência do derretimento dos polos glaciais. Portanto, é sombrio o futuro do nosso planeta azul se a humanidade não parar de destruí-lo. 


Cartaz de lançamento do filme “Série grandes mestres: Zoravia”


15 – Núbia Silveira, jornalista – O Brasil vive um momento de polarização política, radicalidade, ódios, preconceitos e racismo. Momento triste da nossa História. Como a senhora – uma reconhecida artista plástica – retrataria o Brasil de hoje em uma obra? A senhora pode fazer um esboço para os leitores da Parêntese?

Cara Núbia, fiz uma série de monotipia intitulada Brasil 98, onde mostro crianças e jovens marginalizados, sem escola, sem moradia e expostos a doenças. Mostro também o desmatamento, manifestações reivindicando escola, casa e comida para todos, e contra os maus governantes. Na série Brasil 2016, abordando problemas relacionados à política, educação, à moradia, à demarcação de terras indígenas e dos quilombolas. Penso que em um retrato do Brasil 2022, as cores sombrias e desalentadoras se acentuariam por um lado, com as consequências de um governo que prima pela ignorância, pela crueldade e o genocídio. Por outro lado, as cores vibrantes e claras apontariam para um horizonte de igualdade, equilíbrio ambiental, solidariedade, democracia, caminho que poderá acontecer nas eleições em novembro. O que se observa é que o sofrimento e a desilusão em quem votou neste governo despertou sua consciência política. Espera-se que agora estas pessoas analisem com profundidade em quem votar. 


16 – Antônio Hohlfeldt, jornalista, professor e agente cultural: – Zoravia, no período passado experimentaste a divulgação de teus trabalhos nos meios de comunicação e, mesmo em visitas às redações, com a sempre presença do jornalista. Agora, como te comportas lidando com os meios atuais onde a rigor sequer podes ver o rosto do entrevistador? Ou seja, aquele contato quente e humano desapareceu. 

Querido Antônio, amigo de muitos anos que sempre esteve muito presente e atuante, quer seja na política, nas artes ou no jornalismo em nossa Porto Alegre. A comunicação há décadas se fazia por telefone, pelo correio e visitando as redações. Depois, o fax tornava mais rápida a comunicação. Como consequência da pandemia, as lives são uma realidade, o contato pessoal foi substituído pelo e-mail, o whatsapp e por mais que tenhas curiosidade de ver o rosto do jornalista, muitas vezes isto fica frustrado, pois as pessoas podem colocar imagens de um filho, neto, ou de algum animal de estimação…desculpe, um pet… Muito frequentemente, participamos de uma live com o jornalista e a matéria sai online, poucas vezes como matéria impressa e com fotografias. Sim, sinto falta do contato direto com o jornalista pois muitas vezes acabávamos ficando amigos deles, o que era muito enriquecedor para todos. 

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