Filosofia na vida real

Até que a imaginação os separe – Cena 4

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Até que a imaginação os separe – Cena 4

“O Casamento” de Nelson Rodrigues

“Esquerdista” já foi o vitupério da moda nestas paragens muito antes da onda bolsonarista ganhar tração. Contra a ameaça vermelha, prenunciada nas reformas de base do governo de João Goulart, as “Marchas da Família com Deus pela Liberdade” constituíram-se numa das mais agudas formas de reação da temerosa classe média urbana tupiniquim.

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“O Casamento”, de Nelson Rodrigues 

“Esquerdista” já foi o vitupério da moda nestas paragens muito antes da onda bolsonarista ganhar tração. Contra a ameaça vermelha, prenunciada nas reformas de base do governo de João Goulart, as “Marchas da Família com Deus pela Liberdade” constituíram-se numa das mais agudas formas de reação da temerosa classe média urbana tupiniquim.

“Liberdade” naquele contexto significava, entre outras cousas, resistir ao “Comunismo”, mas cada uma das quatro palavras que designam o contra-ataque conservador do início dos sessenta mereceria um comentário à parte. Releia com atenção para ativar as conexões mais imediatas: “Marcha”, “Família”, “Deus”, “Liberdade”. 

Para não dar mais ibope do que é merecido, pinço o vetusto combo “Família com Deus” que está diretamente implicado na recepção de O Casamento, de Nelson Rodrigues. Aliás, e não menos relevante, o primeiro livro a ser censurado em terra brasilis depois do ano-chave de 1964.

É no mínimo irônico que a censura ao primeiro e único romance de Nelson Rodrigues tenha sido gestada em um clima político no qual a defesa do casamento e, por conseguinte, da família cristã, serviu de anteparo para o avanço de pautas progressistas. Se o rótulo de “esquerdista” não colava em Nelson, que tal a pecha de devasso ou licencioso? 

A justificativa da portaria de 12 de outubro de 1966 para as proibições de “edição, distribuição e venda, em todo o território nacional” e “apreensão dos exemplares” em circulação de O Casamento é esclarecedora da moral que inflou a tropa perfilada das senhoras e homens de bem de antanho, avós dos bolsonaristas verde-amarelos de hoje:

O Ministro de Estado da Justiça e Negócios Interiores, considerando que o casamento é a base da família e se encontra sob a especial proteção do Estado; 

Considerando que, em face da proteção que o Estado deve dispensar ao casamento, como instituição, cabe-lhe o dever de velar pelo seu decoro;

Considerando, assim, que a desmoralização do casamento, importa, sem sombra de dúvida, a da família e, em consequência, a subversão de nosso sistema de vida cristão e democrático;

Considerando que a liberdade de manifestação do pensamento não importa permitir a licenciosidade, máxime quando atinge a instituição do casamento;

Considerando, por fim, que o livro “O Casamento”, de autoria de Nélson Rodrigues, pela torpeza das cenas descritas e linguagem indecorosa em que está vasado, atenta contra a organização da família, impondo-se, por esse motivo, medidas que impeçam a sua divulgação […].

Dado que “o casamento é a base da família”, “a desmoralização do casamento” atenta “contra a organização da família”, promovendo a “subversão de nosso sistema de vida cristão”. Deixo de fora da citação o adjetivo “democrático” que aparece no texto original da portaria, em respeito ao fundamento republicano da laicidade, tão tragicamente esnobado deste lado do Atlântico.

E quais foram as ferramentas narrativas utilizadas por Nelson Rodrigues para, aos olhos dos censores de plantão, promover tamanho alvoroço? A “torpeza das cenas descritas” reside, em larga medida, na demonstração de quão difícil é manter o sexo dentro do cercadinho do matrimônio. Quem acompanhou a série “Até que a razão os separe”, deve lembrar da seguinte passagem: 

A caracterização do casamento como o único contexto onde o sexo é permitido é uma das grandes diferenças da filosofia cristã na comparação com os gregos e romanos. Com o cristianismo surge no Ocidente a seguinte equação: “Quer transar? case primeiro!” E depois não sabem a razão do matrimônio andar sempre “em crise” no Ocidente.

“Família com Deus”, quando da publicação de O Casamento, implicava a recomendação de estrita observância dessa dificultosa equação. Afinal de contas, para darmos o primeiro passo na direção do enredo do romance: “Ninguém mais se casava virgem. Só Glorinha”.

As peripécias do personagem Sabino Uchoa Maranhão, às vésperas do casamento de Glorinha, sua filha caçula, nos oferecem um saboroso aperitivo do tamanho da crise em questão. Em especial, com o dilema que Sabino enfrenta ao saber da suposta homossexualidade de Teófilo, seu futuro genro. 

O acepipe vem no sabor carioca Zona Sul, mas muito facilmente poderia servir como modelo da hipocrisia nacional, que aceita de bom grado a convivência sub-reptícia entre o decoro dos casamentos de véu e grinalda da família tradicional, e as escapadelas imperiosas do desejo, tanto na versão do adultério, quanto na sua configuração pré-matrimonial.

Como bem reconhece Sabino, em um de seus momentos reflexivos, remoendo na memória afetiva a figura da tia Moema: 

Essa tia — era realmente tia, irmã do pai de Sabino — tinha uma particularidade que a distinguia de todas as outras tias, vivas ou mortas: traía o marido. Não existe família sem adúltera. Sabino achava isso de um óbvio total. Mas há no adultério um pudor. E tia Moema traía sem remorso, nem sigilo. Simplesmente traía, com uma naturalidade cordial, quase doce. Esse parentesco com uma adúltera confessa, proclamada, punha Sabino fora de si.

“Há no adultério um pudor.” Não poderia pensar em fórmula melhor para expressar o que chamei de hipocrisia nacional com respeito ao casamento. Trair com pudor é aceitável. O que me faz recordar um conselho recebido em infindáveis rodas masculinas no começo da vida adulta: já que trair é quase uma inevitabilidade, faça de tudo para que sua consorte nunca descubra. O problema não está na traição em si, mas na sua “má execução”, isto é, no rompimento, proposital ou acidental, do sigilo que a resguarda. 

Para escapar da rigidez do “Quer transar? case primeiro!”, surge um novo lema, agora para os casados: “Quer trair? faça bem feito”.

Estes vazamentos do desejo para fora do matrimônio são diversificados em O Casamento. Selecionei cinco cenas contundentes para os interessados. 

Primeiro, a traumática experiência de uma broxada juvenil de Sabino no prostíbulo, que propicia um revelador fluxo de consciência: 

Tempo depois, numa briga com a mulher, esta fez, chorando, a pergunta:

— Casou-se comigo por quê?

Não teve coragem de dizer a verdade. Desviou o olhar:

— Ora, por quê? Gostei de você, claro!

Mas eis a verdade inconfessa: casara-se porque era impotente com a prostituta.

Segundo, o súbito interesse erótico de Sabino por sua secretária Noêmia ao ouvir e ver o Monsenhor Bernardo mijando “bonito como os jumentos”: 

No mictório, ele abre a batina num gesto largo.

Fala, exultante:

— Sabino, quando mijo eu me sinto um jumento.

Sabino crispa-se, quase agredido. O padre podia ter dito “urino”, mas preferiu “mijo”, que lhe parecia uma palavra úmida, quente, saturada de élan, de uma tensão muito mais rica. Uma súbita felicidade inunda o vaso enorme. Vira, certa vez, na infância, um jumento no capinzal. E, de repente, começou a jorrar aquela urina forte, dourada, de espuma abundantíssima. Agora, olhando o próprio jato vital, ele experimentava uma sensação de onipotência. Repetiu: — Mijo bonito como os jumentos.

Naquele momento, Sabino começou a pensar em d. Noêmia. Via o Monsenhor, por trás, a nuca potente, o cabelo cortado rente, à escovinha. Todo ele uma construção sólida e inexpugnável.  E tivera enfarte, ora bolas! Sabino imaginava d. Noêmia nua, ou se despindo.  A calcinha deslizando pelas pernas, aninhando-se nos pés.

Terceiro, o arremedo desastrado de suruba entre Romário, Zé Honório, Antônio Carlos, Maria Inês e Glorinha, na presença do pai acamado e paralítico de Zé Honório, que o tinha severamente punido na infância em razão de uma relação homossexual. Num macabro desagravo, Zé Honório desafia o pai: 

— Velho, você não está dormindo. Não está dormindo, nem morreu.  Eu sei que tu vê e ouve. Então, escuta. Escuta o que eu vou te dizer. Esperei 15 anos por esse momento. Está ouvindo, velho? 

Deita-se na cama, ao lado do doente. Fala ao seu ouvido:

—  Aqui tem duas meninas. Eu nunca, nunca, quis ser homem.  Durante toda a minha vida, eu quis ter xoxota como as meninas, como todas as meninas. Escuta o resto.

Pausa e continua, ofegando:

—  Agora, eu vou fazer, na tua frente. Vou fazer na tua frente com um chofer de ônibus, o que eu fiz com aquele menino. Vou fazer aqui dentro. Tu vendo, vendo e ouvindo.

Quarto, o beijo de Zé Honório e Teófilo, flagrado pelo Doutor Camarinha, origem do dilema moral de Sabino: 

— Me diz uma coisa, doutor. Não há dúvida? Possibilidade de engano?

O outro bate na própria coxa:

—  Ora, Sabino, ora. Que dúvida? Que engano? Você acha pouco? Sabino, dois barbadões se beijam na boca e na boca a troco de nada? Por simples cordialidade?  Olha aqui, presta  atenção.  Você se lembra daquela noite, no aniversário de tua filha? Dei vexame, dei. Mas o meu porre foi profético. Está aí: teu genro é pederasta!  Só não sei qual dos dois é a mulher.

O passivo e o ativo. Sabino esmaga a brasa do cigarro no fundo do cinzeiro:

— Mas eu não entendo, dr. Camarinha! Minha filha namorou esse rapaz dois anos, está noiva há um. Tempo pra burro. E será que ela não viu nada, não desconfiou nunca?

Camarinha ri:

—  Sabino, mulher não entende nada de homem. Entra em cada fria!  Em matéria de homossexual, é sempre a última a saber. E, muitas vezes, sabe e aceita. Há também as que gostam, preferem o pederasta.

Quinto, no momento de máxima tensão do romance, imersos em um clima de insinuação incestuosa, em uma praia deserta, Glorinha revela para Sabino o motivo do ódio que sente por sua mãe:

— O senhor sabe que mamãe sempre me deu banho. Até hoje, ou até outro dia. Dizia que eu não sabia me lavar direito. Aquela conversa. E, depois, me enxugava, passava talco no corpo todo.  Passava entre as pernas, dizendo: “Você transpira aí, pode dar assadura.”

Sabino balbuciou:

— Que mais:

E ela, num crescendo:

— Até que, na última vez, depois de me enxugar.  Está ouvindo, meu pai? Minha mãe me agarrou, me virou e me deu, na  boca, um  beijo  de língua. Como se fosse um homem, papai!

Sabino recua:

 — O que é que você está dizendo? O que é que você está insinuando? Não é possível! — E abria os braços para o céu. — Ninguém pode dizer isso da própria mãe!

Veio, de mão levantada, para esbofeteá-la. A menina desafiou:

— Bate! Bate!

E ele não bateu. Como um louco, ficou rodando pela praia, rodando.

Falava sem parar:

— É mentira! Mentira! Sou católico praticante, cristão. Eu não acredito que uma mãe seja lésbica da própria filha. Não acredito!

Que cenas como estas tenham horrorizado os moralistas das Marchas da Família com Deus pela Liberdade não espanta. A rigor, o que deveria levantar os sobrolhos da audiência é a completa obsessão de Sabino pela ideia do “Homem de Bem” que é descrita, nos clássicos moldes da sátira de costumes, no que poderíamos chamar de cena inaugural de “O Casamento”. Não menos classicamente, ambientada num bordel:  

Ainda solteiro, voltara à casa de mulheres. A cafetina era a mesma e lia, num canto, um romance de carruagens e adúlteras (não gostava de história moderna). Aquela gorda tinha uma graça defunta de retrato antigo. Sabino veio caminhando por entre as mulheres. Uma delas, de busto forte, ventas de tarada, pediu-lhe um “amorzinho”. Quase fugiu. Com a sua timidez de magro, vagou algum tempo por entre as mesas e as cadeiras.  E, de repente, lembrou-se da morte do pai. Meia hora antes de morrer, já com a dispneia pré-agônica, o velho agarrara a sua mão. Disse e repetiu: Homem de bem. Homem de bem.

A mãe catucara o filho:— É contigo, é contigo.

Era sim, com Sabino. O pai queria que ele fosse um homem de bem. E, desde então, a vontade do defunto o acompanhava por toda a parte. Sabino andou de um lado para outro e, por fim, dirigiu-se à Madame que estava, no seu lugarzinho, com o livro no regaço. 

Disse, vermelho, com ardente humildade:   

— Madame, eu queria ir com a senhora. 

A literatura de ficção continuamente nos lembra de colocar um pé atrás com o falso zelo do tal Homem de Bem. Acompanhar a saga das atribulações morais de Sabino é um reforço de peso na suspeita.

No frigir dos ovos, O Casamento é um retrato cru e, em alguns momentos, grotescamente amplificado, da ineficácia do matrimônio como “remedium concupiscentiae”, isto é, como receituário para disciplinar o desejo sexual. 

Cada época e situação têm uma Ivermectina para chamar de sua, não é mesmo?


Eduardo Vicentini de Medeiros é professor de Filosofia na UFSM, desde fevereiro de 2019. No doutorado escreveu sobre Henry David Thoreau (aquele da desobediência civil), autor marginal – de borda – da terra do Tio Sam, lugarzinho que se acha o centro do mundo.

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