Filosofia na vida real

Até que a imaginação os separe. Cena 7

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Até que a imaginação os separe. Cena 7

Cadeira de balanço, de Osman Lins

Três páginas! Apenas três páginas foram suficientes para Osman Lins retratar à perfeição um cenário de assimetrias dramáticas no casamento de Júlia Mariana e Augusto em Cadeira de balanço.

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Cadeira de balanço, de Osman Lins

Três páginas! Apenas três páginas foram suficientes para Osman Lins retratar à perfeição um cenário de assimetrias dramáticas no casamento de Júlia Mariana e Augusto em Cadeira de balanço.

O cenário de opressão e subjugação de Júlia Mariana é tão vívida e sinteticamente construído que pinçar passagens do conto é uma difícil escolha. Para quem ainda não leu, pare tudo, encontre uma edição da coletânea Os Gestos, onde foi publicado Cadeira de balanço, e delicie-se por intensos cinco minutos, que é o tempo que você precisará para ler o texto integral. Aviso que o tempo necessário para processá-lo é doutra dimensão.

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Antes de entrarmos de cabeça na leitura, gostaria de compartilhar uma hipótese. 

A narrativa de Cadeira de balanço, lançado em 1957, antecipa a crítica da imagem da heroína doméstica, tal como seria apresentada em Mística Feminina, de Betty Friedan, em 1963, obra seminal para o surgimento da consciência pública sobre o impacto negativo da sociedade de consumo na autonomia das mulheres, em especial, da mulher urbana de classe média. Este impacto foi claramente descrito para o contexto do Grande Irmão do Norte, mas vale com algum delay para as terras abaixo da Linha do Equador. 

Comentando o conteúdo editorial das publicações norte-americanas do início da década de 1960 direcionadas a esta fatia do público feminino, Friedan escreve no capítulo A heroína doméstica

A figura de mulher que emerge dessas bonitas revistas é frívola, jovem, quase infantil; fofa e feminina; passiva, satisfeita num universo constituído de quarto, cozinha, sexo e bebês. A revista não deixaria, com certeza, de falar em sexo, a única paixão, o único objetivo que se permite à mulher em busca do homem. Está atulhada de receitas culinárias, modas, cosméticos, móveis e corpos de mulheres jovens, mas onde estaria o mundo do pensamento e das ideias, a vida da mente e do espírito? Na imagem da revista as mulheres só trabalham em casa e no sentido de manter o corpo belo para conquistar e conservar o homem.

A promessa veiculada à época circunscrevia a realização feminina ao espaço limitado da vida doméstica, na esfera privada do cuidado com os filhos, no zelo para com móveis e utensílios e na satisfação do marido. 

Em contraste com as imagens politicamente mais emancipadas da mulher que circulavam amplamente no final da década de 1930 e nos anos quarenta, no começo dos sixties a heroína feminina estava identificada integralmente com a dona de casa: 

Mas a nova imagem de que essa mística reveste a mulher é também uma velha imagem: «ocupação—dona de casa». Transforma a esposa-mãe, que jamais teve oportunidade de ser outra coisa, em modelo para todas as mulheres; pressupõe que a história tenha atingido um final glorioso neste capítulo. Sob roupagens sofisticadas faz de certos aspectos concretos finitos, domésticos, da vida feminina, conforme era vivida pelas mulheres limitadas que estavam por necessidade a cozinhar, lavar, procriar, dentro de uma religião, dum padrão pelo qual deviam todas pautar-se, sob perigo de perder a feminilidade. Realização como mulher só tinha uma definição para a americana, após 1949: esposa-mãe. Rápido como num sonho, a imagem da mulher como indivíduo, transformando-se e ampliando-se num mundo em evolução, foi destruída. Seu voo solitário em busca de uma identidade ficou esquecido na corrida para a segurança de uma situação a dois. Seu mundo ilimitado encolheu, confinando-se às confortáveis paredes do lar

O alvo preferencial da crítica de Cadeira de balanço à imagem da heroína doméstica está na pergunta: quão confortáveis são as paredes do lar para uma mulher? E para ampliar a dramaticidade e radicalidade da pergunta: quão confortáveis são as paredes do lar para uma mulher grávida? 

Vejamos o início de nossa estória de hoje: 

Júlia Mariana levou as mãos ao estômago. Mas a ânsia, agravada nos últimos dias por uma fadiga que nem o sono lograva dissipar, não cessava.

Deu alguns passos, sentou-se no lugar predileto do esposo – uma cadeira ampla em cujos braços ele apoiava as mãos fortes e onde permanecia longas horas calado. Ah! Esses silêncios, esses silêncios… Mas para que pensar neles? Sentada na cadeira de Augusto, a balançar-se de leve, sentia-se tão bem! Só mesmo ali conseguia desoprimir o peito – castigado pelo ventre crescido – e respirar com alívio. Para que pensar em coisas tristes? 

Na parede branca, em sua moldura dourada que contrastava com a mobília pobre, o grande espelho não lhe refletia a imagem. Júlia Mariana achou bom que assim fosse: não queria se ver. Não queria ver as manchas pardacentas no rosto, a barriga enorme e as pernas inchadas, que a martirizavam tanto quando tinha de andar. E os pés?…Como estariam? Ergueu-os, curvou-se um pouco: lívidos, com as veias ocultas sob a inchação, tinham a aparência de um ex-voto de cera. 

– Abstenha-se de carne – dissera o doutor. – Abstenha-se de sal. E faça pouco esforço, entende? Pouco esforço.

A criança moveu-se. Júlia Mariana pôs-se a observar os leves tremores que seus movimentos causavam. 

“Nascerá?”, pensou. “Terei forças, fraca, depauperada como estou? Faça pouco esforço…”

Muitas cousas estão em jogo na largada. O corpo doído e fatigado de Júlia Mariana, que mal consegue deslocar-se no confinado espaço doméstico, os silêncios persistentes de Augusto quando está em casa, a autoimagem desgastada de Júlia Mariana em triste sintonia com a “mobília pobre”, a abstinência compulsória e, para tornar tudo mais trágico, os riscos de uma interrupção involuntária da gravidez.

O único local da casa onde Júlia Mariana consegue “respirar com alívio” é a cadeira de balanço…do marido. Mas o alívio dura pouco. As duras e repetidas exigências do trabalho doméstico se impõem: 

Ora…Tinha que lavar ainda as camisas de Augusto, acender o fogo, por a mesa, preparar o jantar, servi-lo. E lavar os pratos, depois, se já não estivesse exausta. Faça pouco esforço…Bem gostaria de obedecer. Sentia-se bem ali, mas não era possível balançar-se a tarde inteira. Tinha tanto que fazer! 

Arrastando os pés grossos, foi buscar as camisas. Apanhou a bacia, o sabão, dirigiu-se ao quintal. 

Quando chegou à bomba, estava ofegante. Apoiou-se à alavanca. No alto, sobre o quintal feio e sujo, brilhava o calmo sol das quatro horas. Grandes nuvens claras passavam, tão vagarosas que mal se notava o seu voo. Uma mulher, nas vizinhanças, batia roupa e cantarolava.

O espaço doméstico em Cadeira de balanço é de completo isolamento. O único reflexo imediato de um evento exterior à domesticidade, que se mescla ao fluxo de pensamentos de Júlia Mariana, é o som da voz da vizinha que “batia roupa e cantarolava”. Outras mulheres, as mesmas tarefas. Ou seja, o retrato, sutilmente, pretende-se generalizável.  

Na tentativa de dar conta da tarefa de lavar as camisas do marido, Júlia Mariana tem uma crise de vertigem, uma tontura, mas persiste na tentativa, por uma razão imperiosa: 

Tinha que lavar as camisas. Mais tarde, se não as encontrasse no arame, Augusto ficaria aborrecido e haveria de perguntar-lhe o que andara a fazer a tarde inteira. E já bastava o afastamento dele, que aumentava sempre, desde que a cintura dos vestidos…Ora, para que pensar em coisas tristes? 

Perseguir o “modelo da esposa-mãe” é uma tarefa ingrata. Na proporção do aumento na circunferência da cintura de Júlia Mariana, consolida-se o desinteresse de Augusto por ela. A cartilha do “modelo da esposa-mãe” cobra um preço psicológico alto para “manter o corpo belo para conquistar e conservar o homem.”

A vertigem e a fraqueza do corpo persistem. Júlia Mariana volta, exausta, para o conforto da cadeira de Augusto. O embalo suave no silêncio da tarde desencadeia “antigas e amáveis lembranças” que são interrompidas bruscamente pela culpa mesclada ao pranto por não ter executado suas tarefas do diário: “Não fizera o jantar, não lavara as camisas. E quando ele chegasse…Quando chegasse, iria reclamar.”

E quando Augusto finalmente chega em casa, a assimetria conjugal se escancara em um desfecho cruel no último parágrafo do conto: 

Quando Augusto voltou, o pranto cessara mas seus olhos ainda estavam vermelhos. Sem olhá-la, ele jogou ao sofá um jornal e o chapéu, tirou o paletó, a gravata e pendurou-os num gancho. (Era o ritual da chegada.) Abriu a janela, apanhou o jornal, tocou no ombro da mulher. Júlia Mariana se ergueu com esforço e ele ocupou o lugar. 

Preciso comentar? 


Eduardo Vicentini de Medeiros é professor de Filosofia na UFSM, desde fevereiro de 2019. No doutorado escreveu sobre Henry David Thoreau (aquele da desobediência civil), autor marginal – de borda – da terra do Tio Sam, lugarzinho que se acha o centro do mundo.

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