Filosofia na vida real

Até que a imaginação os separe. Cena 8

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Até que a imaginação os separe. Cena 8

Divórcio de Lupicínio Rodrigues.

Não olhei as estatísticas mas aposto que, sob o imenso guarda-chuva da canção brasileira, há um volume significativamente maior de composições narrando antes o fim do que o começo do casamento. Repito, não olhei todos os números. Nem saberia como montar essa equação pra fazer as contas direitinho. A rigor, estou extrapolando alguns achados do interessantíssimo artigo “Sonoridades da vida conjugal registradas em versos de canções brasileiras produzidas entre 1940 e 1960” (se ficou curioso, dá um Google e confere) para um contexto temporal mais amplo. Defiro uma resposta precisa para os especialistas. Aliás, que temeridade palpitar sobre a canção brasileira na vizinhança do Luís Augusto Fischer e do Arthur de Faria!

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Divórcio, de Lupicínio Rodrigues. 

Não olhei as estatísticas mas aposto que, sob o imenso guarda-chuva da canção brasileira, há um volume significativamente maior de composições narrando antes o fim do que o começo do casamento. Repito, não olhei todos os números. Nem saberia como montar essa equação pra fazer as contas direitinho. A rigor, estou extrapolando alguns achados do interessantíssimo artigo “Sonoridades da vida conjugal registradas em versos de canções brasileiras produzidas entre 1940 e 1960” (se ficou curioso, dá um Google e confere) para um contexto temporal mais amplo. Defiro uma resposta precisa para os especialistas. Aliás, que temeridade palpitar sobre a canção brasileira na vizinhança do Luís Augusto Fischer e do Arthur de Faria! 

No entanto, se meu palpite generalizado estiver certo, me permitiria mais um chute: os gêneros do samba-canção e do sertanejo são, provavelmente, os principais responsáveis pelo desequilíbrio pro lado do desquite, da separação, da cizânia, do rompimento e do divórcio, na comparação com as canções que narram trocas de alianças, que ecoam loas à noite de núpcias e votos esperançosos de “felizes para sempre”. 

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Mesmo supondo que nada disso seja o caso, mesmo que meus palpites estejam irremediavelmente furados, tenho ainda outras duas hipóteses para apresentar. Elas dependem de intuições compartilhadas por aqueles que algum dia já prestaram atenção às letras das composições de Lupi e não de resultados estatísticos. 

A primeira é quase um truísmo. Lupicínio consolida no samba-canção a imagem do homem que sofre por amor. Antes da masculinidade tóxica aportar nas discussões contemporâneas sobre performance de gênero, desigualdades no matrimônio e desconstrução do papel do macho alfa, Lupi enraizou a masculinidade frágil no imaginário nacional. 

A segunda hipótese é complementar à primeira. As chagas abertas no “coitadinho do meu coração” da fragilidade masculina são produzidas pela mulher que abandona o lar ou a relação. O que vier primeiro. E vai parar “nos braços de um tipo qualquer”. Eis a celebérrima dor-de-corno, na sua mais acabada versão tupiniquim. 

Para oferecer maiores e melhores evidências, deixa eu colocar as cartas na mesa, ou melhor, as letras na mesa. Começando por Caixa de ódio

Tem coisas que às vezes tão fácil julgamos / Que até nos achamos capaz de fazer / Até num coqueiro às vezes trepamos / depois não achamos por onde descer/ Um arranhãozinho uma simples batida / Tem feito ferida capaz de matar / Por isso que eu sempre vos disse querida / Que a gente na vida deve se cuidar / Você por exemplo jamais pensaria / Que uma fantasia em um carnaval / Um simples prazer de uma noite de orgia / Pudesse algum dia causar tanto mal / Matar um amor que já tem tantos anos / Criar um inferno dentro do seu lar / Fazer do meu peito uma caixa de ódio / Como um coração que não quer perdoar 

Um aspecto especialmente interessante da masculinidade frágil “lupicínica” (valeu, Aldir Blanc e Ednardo) é que a mulher é o polo ativo na ruptura. Ela que vai pro Carnaval ou pra orgia. Ela que mata o amor, que cria o inferno. Enquanto ao homem, resignado e quase sempre impotente, resta o polo passivo da sofrência. Tá aqui Loucura que não me deixa mentir: 

Era um verdadeiro inferno / Uma tortura / O que eu sofria / Por aquele amor / Milhões de diabinhos martelando / Um pobre coração que agonizando / Já não podia mais de tanta dor/ E aí / Eu comecei a cantar verso triste / Os mesmos versos que até hoje existe / Na boca triste de algum sofredor

A impotência é tamanha que ganha contornos transcendentes. Até mesmo os santos jogam contra em Pra São João decidir: 

Ah que alegria / Levantei de madrugada / Por que a noite passada / Eu não consegui dormir / Rosinha disse que ia por num papelzinho / O meu nome e o do vizinho / Pra São João decidir / O que ficasse de manhã mais orvalhado /Ia ser seu namorado / Ia com ela casar / E eu tinha tanta confiança / Neste santo / Que apostei um conto e tanto / Que era eu que ia ganhar / Sabem o que foi que eu vi quando rompeu o dia?/ Vi foguete que explodia / Buscapé, bomba, rojão / Era o vizinho que já tinha triunfado / Festejando entusiasmado / O dia de São João / Então de noite / Foi mais grossa a brincadeira / Acendeu-se uma fogueira / Todo mundo foi pular / Só eu chorando a traição / Daquele santo / Soluçava no meu canto / Vendo a lenha se queimar

Quando o “pobre moço” resolve sair prum rolê num barzinho, tão serelepe quanto permite a verve tristonha de Lupi, adivinhem quem ele vê, sentada na primeira mesa? Rosário de Esperança dá o tom: 

Eu fui convidado / Por alguns amigos / Pra ir a uma festa beber e cantar / Peguei a viola, afinei a garganta / E até pus a manta, pra me agasalhar / E fiz um convite pra dona alegria / Melhor companhia pra festa não há / Mas eu não sabia, digo com franqueza / Que dona tristeza morava por lá / Levei um Rosário feito de esperança / Pra aquela festança que fui convidado / Cheguei satisfeito, alegria no peito / Sorriso na boca, viola de lado / Mas vi, com surpresa / Na primeira mesa / Sentada com outro / A mulher que eu amei / Voltei desolado, tristonho, magoado, / Viola do lado / Não bebi, nem cantei.

Se alguma agência é possível pro macho ferido, restringe-se, talvez, à Fuga

Teu pecado foi tão grande / Que eu não te perdoarei / Pois ninguém tem o direito de zombar do que eu sonhei / Para mim / Só existe um caminho a seguir / É fugir de ti, sim, é fugir

Sem mencionar o ethos tragicamente resignado daquele que recebe a mulher de volta depois de anos de ausência. Afinal de contas, como nos ensina Castigo: “Homem que é homem / Faz qual o cedro que perfuma o machado que o derrubou”.

Como dizia o título de um romance (por sinal, sofrível) de um ex-professor de língua portuguesa, nem tudo são flores na vida de um craque. Se vocês acham que estou no bom caminho até agora, apresentando evidências robustas para as duas hipóteses, é justo que eu apresente um contra-argumento. Sabe qual a canção de Lupi que foge a este modelo onde o sofrimento passivo é exclusivo do homem? Pois é, provavelmente aquela que lhe rendeu maior audiência, Vingança

Eu gostei tanto, tanto quando me contaram / Que lhe encontraram chorando e bebendo na mesa de um bar / E que quando os amigos do peito por mim perguntaram / Um soluço cortou sua voz, não lhe deixou falar / Ah, mas eu gostei tanto,/ Tanto quando me contaram / Que tive mesmo que fazer esforço / Pra ninguém notar / O remorso talvez seja a causa do seu desespero / Você deve estar bem consciente do que praticou / Me fazer passar essa vergonha com um companheiro / E a vergonha é a herança maior / Que meu pai me deixou / Mas enquanto houver força em meu peito / Eu não quero mais nada / Só vingança, vingança, vingança aos santos clamar / Você há de rolar como as pedras / Que rolam na estrada / Sem ter nunca um cantinho de seu / Pra poder descansar

Na minha defesa, posso alegar que Vingança é gender neutral como se diz hoje em dia. Não à toa a interpretação clássica veio à público na voz de Linda Batista! 

Mas calma lá que ainda temos o grand finale, em tonalidade escatológica.     Evidências a galope! Eis que chegamos na composição que dá título a este capítulo da série. Com vocês, Divórcio. Tá tudo aí, paradigmaticamente, como gostamos de dizer na Filosofia.

Pra ficar melhor, ouça na voz de João Dias: 

Não, não me culpe por crime alheio / Não me chame de mau ou feio / De tudo o mais que quiser / Só não me obrigue a ser condenado / A ter sempre o meu nome manchado / Pelo erro daquela mulher / Sou na verdade com ela casado / Isso não quer dizer ser culpado / Do erro que ela cometeu / Pois ela que foi embora! / E como é que agora / Quem leva a culpa sou eu? / Se a humanidade deixasse / Eu desta mulher me vingar / Talvez meu nome parasse / De tanto, tanto rolar…/ Se a sociedade escutasse / O que diz meu coração / Talvez me penalizasse / Também me desse razão / Se pelo menos deixasse / Eu novamente casar / Pra que feliz eu voltasse / A viver no meu lugar… / Mas tudo, tudo me ajuda / A imitar a Jesus / Que por um erro de Judas / Morreu pregado na cruz

Supondo que eu tenha conseguido motivar vocês para aceitar as minhas duas hipóteses, para qual direção elas apontam no nosso mapeamento das relações matrimoniais na literatura ficcional nacional? 

Como tudo que é bom e duradouro nas artes, aponta para vários lugares. Mas não posso deixar passar a oportunidade de plagiar na cara dura o comentário que li numa postagem de uma querida amiga uns dias atrás. Dizia ela que homem levando chifre é reparação histórica. Se é assim, as composições de Lupicínio começaram a pagar a conta com juros e correção monetária, muito antes do vencimento do boleto da justa crítica feminista chegar chegando entre nós, algumas décadas depois.


Eduardo Vicentini de Medeiros é professor de Filosofia na UFSM, desde fevereiro de 2019. No doutorado escreveu sobre Henry David Thoreau (aquele da desobediência civil), autor marginal – de borda – da terra do Tio Sam, lugarzinho que se acha o centro do mundo.

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