Filosofia na vida real

Até que a razão os separe. Cena 8: Emma Goldman

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Até que a razão os separe. Cena 8: Emma Goldman Retrato de Emma Goldman
Antes de começarmos o nosso encontro de hoje preciso fazer uma confissão. Sou completamente apaixonado pela Emma Goldman (1869-1940). Se você procura uma avaliação imparcial e distanciada das opiniões dela sobre casamento, amor livre, emancipação humana e anarquismo, sugiro que interrompa a leitura agora. Sou completamente incapaz de não me entusiasmar com Emma. O que turva um tanto o apregoado distanciamento crítico.  Quando embarco na leitura de alguns de seus ensaios e discursos me projeto para a Union Square de Nova Iorque em 1916, como se estivesse imerso em uma plateia de rua, formada por miríades de trabalhadores, imigrantes das mais diversas nacionalidades, alguns segurando embrulhos de compras debaixo do braço, outros puxando filhos pela mão ou no intervalo de jornadas cansativas em empregos muquiranas. Todos magnetizados pelo vórtice energético de uma certa ideia da América. O novo éden, a América que sinaliza um perpétuo recomeço, um horizonte repleto de possibilidades. Dominando a plateia, com dedo em riste, postura firme e discurso afiado, ouço a voz de Emma. Emma discursando na Union Square, Nova Iorque. Autor desconhecido, 1916. Domínio Público John Cage, membro destacado na assembleia privada que costumo convocar para diálogos sobre liberdade, quando da confecção dos mesósticos do fabuloso Anarchy (1988), selecionou uma citação de Goldman, pinçada do ensaio The Tragedy of Woman’s Emancipation (1911), com a qual quero dar o pontapé inicial. Lá vai:  A paz ou a harmonia entre os sexos e os indivíduos não depende necessariamente de uma equalização superficial dos seres humanos; nem exige a eliminação de traços e peculiaridades individuais. O problema que nos confronta hoje, e que cabe ao futuro mais próximo resolver, é como ser você mesmo e contudo estar em união com os outros, sentir profundamente com todos os seres humanos e ainda manter as qualidades que lhe são próprias. Esta me parece ser a base sobre a qual a massa e o indivíduo, o verdadeiro democrata e a verdadeira individualidade, o homem e a mulher, podem se encontrar sem antagonismo e oposição. O lema não deveria ser: Perdoar uns aos outros; em vez disso, compreender uns aos outros. Como ser você mesmo e estar em união com os outros? Como conciliar os valores da autenticidade e da solidariedade? Em que medida a construção ativa da minha identidade moral não acaba erguendo barreiras empáticas, afastando do meu horizonte aqueles que adotam estratégias diversas para a construção das suas identidades?  Experimente direcionar estas perguntas desafiadoras para a arena das relações matrimoniais e você terá a dimensão das respostas de Goldman para uma filosofia do casamento. Respostas que iniciam com um diagnóstico radical: o Estado e a Igreja inviabilizaram a instituição do casamento. O melhor a fazer é abolir o casamento e começar do zero, estabelecendo novas bases para relações interpessoais, que promovam a compreensão mútua, a autonomia, a liberdade e a emancipação das partes envolvidas. Estado e Igreja foram especialmente eficientes para legitimar o sexo tão somente no cercadinho do casamento monogâmico. E igualmente eficazes para manter os indivíduos ignorantes sobre […]

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