Crônica, Parêntese

Fogos de artifício

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Fogos de artifício Lá na escola Gonçalves Dias, no início dos anos 2000, a professora Carmen Luci foi interrompida na aula de português com um barulho estridente. Dessa vez, não eram meus colegas que faziam bagunça na sala de aula: eram os foguetes vindos lá de fora, que pareciam não acabar. Lembro de todos nós nos olhando e tentando entender o porquê daqueles barulhos, até alguém lembrar que era a inauguração do Carrefour Passo D’Areia. Um grande empreendimento que, obviamente, afetou o comércio da região. O armazém dos meus pais dentro do IAPI foi um deles. Era localizado em uma garagem na Avenida dos Industriários. Ainda que fosse criança, lembro do meu pai articulando alternativas para propor um serviço que fosse diferente do Carrefour – ficar aberto por mais tempo, focar mais na cerveja no balcão, fazer churrasquinho na frente do armazém, entre outras estratégias para não seguir ladeira abaixo, já que o aluguel daquela garagem e as contas do boteco eram muito caras.  De qualquer modo, a ladeira só seguiu abaixo mesmo. Minha família sempre teve hábitos muito simples, mas eu percebia que meus pais trabalhavam cada vez mais, em qualquer tempo, com qualquer dor no corpo que tivessem (minha mãe com seus joelhos inflamados e meu pai reclamando da bursite nos ombros), até mesmo trabalhando de luto, nas muitas mortes familiares que enfrentamos. Ainda que houvesse conflitos entre meus pais e clientes (eu acredito que sempre vão ter), as minhas maiores lembranças são de clientes que iam lá pra falar que precisavam de emprego, que tinham brigado com a namorada, que queriam parar de fumar, que queriam tanto que seus filhos entrassem em uma universidade… Mesmo que o objetivo fosse só tomar uma cerveja, ou até mesmo comprar um leite, às vezes as pessoas também iam no armazém pra um desabafo, uma conversa. Sem contar as brigas e discussões do meu pai petista contra todos, dos gremistas contra colorados e se a Elis Regina, que nunca mais havia voltado ao seu bairro de nascença, era motivo de orgulho ou não. E isso tudo o Carrefour da Plínio não tinha.  Além disso, o supermercado também não tinha o caderninho ou o papelzinho, do famoso fiado. Tenho uma caixa guardada dos que nunca foram pagos. Certa vez, quando estávamos apenas eu e meu pai no armazém, lembro de perguntar pra ele com um pouco de raiva: por que tu vende igual se sabe que muitas pessoas não pagam? Não sei se minha pergunta foi dura demais, ou se era óbvia a resposta, ou se era uma questão na qual ele reconhecia a sua fraqueza pra dizer “não”, mas ele respondeu de forma ríspida: se a pessoa veio até aqui me pedir pra botar no fiado, é porque ela precisa!  Relacionei essa fala do meu pai a todos que precisaram dos meus pais um dia, de sair correndo pra levar alguém às pressas ao hospital, de levar algumas compras na casa de alguém que não podia caminhar, de dar algumas balas para uma criança […]

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Lá na escola Gonçalves Dias, no início dos anos 2000, a professora Carmen Luci foi interrompida na aula de português com um barulho estridente. Dessa vez, não eram meus colegas que faziam bagunça na sala de aula: eram os foguetes vindos lá de fora, que pareciam não acabar. Lembro de todos nós nos olhando e tentando entender o porquê daqueles barulhos, até alguém lembrar que era a inauguração do Carrefour Passo D’Areia. Um grande empreendimento que, obviamente, afetou o comércio da região. O armazém dos meus pais dentro do IAPI foi um deles. Era localizado em uma garagem na Avenida dos Industriários. Ainda que fosse criança, lembro do meu pai articulando alternativas para propor um serviço que fosse diferente do Carrefour – ficar aberto por mais tempo, focar mais na cerveja no balcão, fazer churrasquinho na frente do armazém, entre outras estratégias para não seguir ladeira abaixo, já que o aluguel daquela garagem e as contas do boteco eram muito caras.  De qualquer modo, a ladeira só seguiu abaixo mesmo. Minha família sempre teve hábitos muito simples, mas eu percebia que meus pais trabalhavam cada vez mais, em qualquer tempo, com qualquer dor no corpo que tivessem (minha mãe com seus joelhos inflamados e meu pai reclamando da bursite nos ombros), até mesmo trabalhando de luto, nas muitas mortes familiares que enfrentamos. Ainda que houvesse conflitos entre meus pais e clientes (eu acredito que sempre vão ter), as minhas maiores lembranças são de clientes que iam lá pra falar que precisavam de emprego, que tinham brigado com a namorada, que queriam parar de fumar, que queriam tanto que seus filhos entrassem em uma universidade… Mesmo que o objetivo fosse só tomar uma cerveja, ou até mesmo comprar um leite, às vezes as pessoas também iam no armazém pra um desabafo, uma conversa. Sem contar as brigas e discussões do meu pai petista contra todos, dos gremistas contra colorados e se a Elis Regina, que nunca mais havia voltado ao seu bairro de nascença, era motivo de orgulho ou não. E isso tudo o Carrefour da Plínio não tinha.  Além disso, o supermercado também não tinha o caderninho ou o papelzinho, do famoso fiado. Tenho uma caixa guardada dos que nunca foram pagos. Certa vez, quando estávamos apenas eu e meu pai no armazém, lembro de perguntar pra ele com um pouco de raiva: por que tu vende igual se sabe que muitas pessoas não pagam? Não sei se minha pergunta foi dura demais, ou se era óbvia a resposta, ou se era uma questão na qual ele reconhecia a sua fraqueza pra dizer “não”, mas ele respondeu de forma ríspida: se a pessoa veio até aqui me pedir pra botar no fiado, é porque ela precisa!  Relacionei essa fala do meu pai a todos que precisaram dos meus pais um dia, de sair correndo pra levar alguém às pressas ao hospital, de levar algumas compras na casa de alguém que não podia caminhar, de dar algumas balas para uma criança […]

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