Folhetim

A parada – Capítulo 3

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A parada – Capítulo 3
Faz tempo já. Que isso aconteceu? Já, já tem um bom tempo. Mais tempo que isso acho que só na época do homem que vinha aqui quando ainda tinha as barraquinhas de arte, aquelas que o pessoal armava ali naquela rua ali adiante, me lembro bem. Era um homem velho já, mas trabalhava desde menino, desde os cinco anos de idade ele já mexia com aquilo que depois veio a ser o trabalho dele, trabalho de uma vida. Foi ele mesmo que me contou isso, que bem criança ainda ele pegava um punhado de cera e fazia os bonequinhos, um mais lindo que o outro. E era verdade, era mesmo. Aqui, moça, seu troco do mandolate, ó. Obrigada, moça, vai com deus. Mas esse homem era assim uma alegria de ver trabalhando e trabalhando e fazendo aquela arte dele pra vender pras pessoas que passavam por aqui. Ele dizia que nos tempos de guri ele fazia os tais bonequinhos, mas que tinha que cuidar se os outros meninos vinham vindo. Cuidava os outros pra não dizerem que ele tava brincando de boneca, sabe? Porque um menino com bonequinha de cera podia dar nessas coisas de preconceito, de que não é coisa de guri ficar pra lá e pra cá com fru-fru de bonequinha e bonequinho. Essas coisas chatas de que brincadeira de menino é de um jeito e de menina é de outro, sabe? Gente doida que não podia vestir menina de azul e menino de rosa, deus meu, não dava. Coisa de cinquenta, sessenta anos atrás e que a gente vê até hoje. Até hoje tem, não é possível, é possível? Menos que antes, é verdade. Eu acho que menos, será que não? Porque hoje a gente já vê mais, tem gente que deixa a criançada ser o que é, como é bom de ser mesmo. Mas ainda assim a gente vê, nem parece que existe, mas existe. Como eu penso? Olha, criança tem que ir ganhando a liberdade de escolher as coisas, as pequenas coisas, coisinha de nada pra ir ganhando noção de escolher, ir sendo o que é, ir vivendo e vivendo e vivendo. Senão sofre, não sofre? Pois esse homem que eu falo teve que brigar pra ir seguindo com seus bonequinhos, com suas bonequinhas. Por isso que quando ele via alguém vindo, e isso bem menino, bem criança, pra não ficar com vergonha dos outros, ele esmagava o que fazia na palma da mão. Era de cera o que ele fazia. Resistiu, eu digo, porque resistiu do jeito dele, sabe como? Porque no silêncio de esmagar ele tinha que depois refazer. E assim foi criando uma prática e um exercício, já que a cera era coisa fácil de apertar assim na mão, ó. Imagina isso? Uma vida de criança que, pra brincar com o que gostava, precisava esconder o brinquedo. Apertava na mão pra se proteger da vergonha que ia passar com os outros, mas não desistia de fazer e fazer e fazer. Assim ele […]

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