Folhetim

Mil manhãs semelhantes – Capítulo 4

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Mil manhãs semelhantes – Capítulo 4

Roberta passava boa parte do dia envolvida com as atividades escolares, tentando encontrar-se em sua nova rotina. Porém, o fato com o qual lidávamos é que ela era uma parte concreta do apartamento durante o tempo inteiro, do abrir os olhos até fechá-los. Encontrar espaço dentro daquele pequeno aquário exigia que, como peixes, olhássemos um para o outro sem nos confundirmos, ou acreditar que éramos nosso reflexo no vidro. Significava saber quando nadar e quando apenas flutuar contemplando a água.

Falávamos sobre o vírus, a doença, sobre como aquilo tudo era absurdo, se era um castigo ou sinal do fim dos tempos ou, ainda, apenas a vida. Roberta não compartilhava das visões que eu tinha sobre o novo mundo que se aproximava e a derrocada de um ciclo inteiro da história. Ela dizia que isso era fantasia da minha cabeça, “o real é concreto e você não sabe viver a realidade”. Questionava-me o que havia feito Roberta e eu termos resolvido morar juntos. É comum equivocar-se e um dia perceber que estamos sem roupa ao lado de uma pessoa que é praticamente um estranho, um invasor em sua vida, de modo que é bastante óbvio que ela ou você não deveriam estar ali, e o passo seguinte é bater a porta trás de si e nunca mais voltar, desaparecer. Parecia que nós sabíamos disso e mesmo assim houvéramos decidido levar a cabo aquela experiência. Uma força de colisão nos movia, e agora eu tinha certeza disso.

Roberta ressentia-se, no confinamento, da vida que havia deixado para trás, imaginava que estávamos a passar apenas por um intervalo. Sentia falta da escola, dos amigos, de ir à feira, de ir ao bar fazer happy hour no fim da tarde. Sentia falta do por-do-sol. Minha vida alterara-se como o céu e a terra haviam se alterado, todas as minhas forças estavam voltadas para identificar e impedir o vírus. Era preciso saber o que fazer e estar preparado para as nuvens de metal que se aproximavam.

Agora toda minha escala de idas ao supermercado, de deslocamento pelas ruas e processos de higienização haviam sofrido uma transformação devido à companhia persistente de Roberta, que alegava precisar sair, precisava de ar, desse pouco que era permitido. Ela via o dia da saída à rua como um passeio, ao invés de vê-lo como uma incursão ao território inimigo. Nas calçadas ela não via as linhas da morte, mas, sim, um imaginário tracejado do jogo da amarelinha.

Numa quarta-feira, lá pelo quinto mês da chegada do vírus, caiu nossa ida quinzenal ao supermercado, tendo em vista que lá também havia uma farmácia e pouca coisa precisávamos além disso: remédios, comida e álcool. Havia dias, os mais harmoniosos, em sintonia com a presença do vento, em que dançávamos Parliament Funkadelic na sala, de meias, ou fazíamos moonwalker ao som de Billie Jean. Tudo rodopiava em abismo e euforia, o magma do mundo podia ser tocado e, mesmo que adoecido, vibrava inebriante nos convidando ao torpor. Girávamos e fazíamos o pequeno apartamento girar. The Eletric Spanking War Babies tocando no fundo infinito de nossos olhos fechados. 

Nesses momentos, nesses dias, via de regra, começávamos a beber lá pelas 10 horas da manhã sem receio algum de parecermos bêbados a nossos próprios olhos. Tomávamos café: um suco de laranja com torradas, às vezes um bolo de laranja, até mesmo omelete. E depois de uma hora ou duas, abríamos a primeira garrafa de cerveja. Destilados impunham com muita agressividade os efeitos do álcool. Tentávamos beber até o meio-dia de modo a estarmos com a cabeça minimamente organizada para conseguir cozinhar. A comida baixava um pouco a euforia proporcionada pelo álcool, na maior parte das vezes dormíamos e após o despertar estávamos novos, éramos outros, ansiosos pela felicidade que só a alquimia etílica pode dar. Então bebíamos, bebíamos tudo. E dançávamos. Até a gata bebia e dançava e de seus olhos radioativos eu via o futuro. Ele era um buraco, uma matéria bruta de escuridão. Bebíamos e nos amávamos como se o único tempo a viver fosse esse sobre o qual dançávamos e se estendesse como um rio que cruza todo o concreto da cidade e até alcançar o mar. George Clinton e cerveja, esses eram os melhores dias.

Mas foi nessa quarta-feira específica de ida ao supermercado que algo fora dos planos aconteceu. Logo cedo pela manhã, por volta das 8h17, nos embretamos pela Fernandes Vieira até encontrar o Zaffari. O mercado é pequeno, quase um armazém de bairro, é possível reconhecer quase todas as pessoas que vão lá, sobretudo no regime em que vivíamos. Os corredores são pequenos e apertados, a variedade de produtos é pouca e os preços nada baratos. Não me agradava ir lá, contudo era o local mais próximo e, além disso, contava com uma farmácia. Achava importante ter uma drogaria dentro do mesmo perímetro em que fazíamos compras; caso algo acontecesse teríamos acesso à medicação, ainda que não tivesse tomado uma única aspirina desde o começo do período da doença.

Entramos no Zaffari, corredor por corredor, lista na mão, quando então, diante da prateleira dos sabonetes, Roberta encontrou Suzianne, amiga e companheira de trabalho. Suzianne havia se mudado para a casa do namorado, localizada na João Telles, próximo à Vasco da Gama. O período da doença havia sido fértil em encontros ou desencontros para os casais. Era ou se separar, ou viver juntos. Uma espécie de desafio como aquele do National Geographic: você, com uma faca nos dentes, em pleno deserto. E quando seu olhar se torna límpido, acostumado ao amarelo da areia queimada, você visualiza uma outra pessoa também com uma faca nos dentes. Isso é sobreviver. 

Então, Roberta caminhou até Suzianne, animada, como um porco a ser abatido. Falou mais de trezentas e oitenta palavras em um minuto e, inacreditavelmente, abraçou-a. Meus olhos não acreditavam na cena que presenciavam, em câmera lenta eu vi seus corpos se esfregando, uma legião de vírus e bactérias, eu vi a doença engolindo a cabeça de Roberta. Nada podia ser pior que aquilo. E ambas riram do ato, desculparam-se um pouco, despediram-se. Fiquei ali parado olhando para Roberta como se ela fosse um fantasma. 

– O que foi? – acabou por perguntar.

– Nada – respondi.

Ela não tinha a menor consciência de como viver esses tempos, ela não iria sobreviver, não entendia que nossas vidas eram disputadas pela morte. E não apenas não sobreviveria como também me levaria junto, levaria todos que cruzassem seu caminho. Terminamos de fazer as compras, Roberta muito animada com o encontro dizendo o quanto sentia saudade das pessoas, como era importante vez que outra ver alguém. Eu apenas a olhei, reconhecendo, pela primeira vez, o inimigo que vivia dentro dela.


Marcelo Martins Silva é escritor, professor de Português e percussionista (repinique) no carnaval. Lançou “A matéria inacabada das coisas”, poesia, pela editora Diadorim.

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