Folhetim

Uma questão de prioridades – Capítulo 6

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Uma questão de prioridades – Capítulo 6
Então, e eu fiquei pensando… qual é o problema do ovo?! Esta época de vigilância pelo dito e pelo não-dito, muito além dos fuxicos no boteco da esquina, na mídia social digital. Foi-se o tempo de sombra fresca e rock no quintal. Problema é deles ficarem reparando se como ou não como ovo. Pelo comido ou não comido, repeti em alto e bom tom: – Sim. X-salada com OVO. E queijo duplo.  Estava ainda muito forte na cabeça do Nelson a leitura do livro América, do grande escritor, cronista, desenhista, Luis Fernando Verissimo, livro este publicado em 1994, ano da copa do mundo de futebol nos Estados Unidos da América, quando o Brasil viria a conquistar o tetra.  Crônicas muito interessantes, refletindo sobre a cultura estadunidense, com a sua literatura urbana, o cinema industrial, os quadrinhos, o jazz, a música pop e, claro, a gastronomia. Verissimo argumentava que a invenção do breakfest, nosso café da manhã, o desayuno dos argentinos, seria o responsável pelas conquistas americanas por, justamente, incluírem ovos no café da manhã. Ovos e bacon, ovos e cereais, ovos e panquecas com mel. Dá uma sensação de saciedade só de ler. Muita proteína acumulada gera ímpetos, e assim, caprichando no café da manhã, o vivente sente-se desafiado a realizar algo, queimar esta energia toda acumulada. Seria a justificativa, segundo Verissimo, para a construção da civilização e progresso dos americanos. E o Nelson tinha adotado os dois ovos fritos diários, manhã cedo. Sim, podem torcer o nariz a vontade; mas os dois ovos fritos vinham depois do vinagre de maçã com água morna, elixir da longevidade da Yogurteria Edith Travi, com água na temperatura ambiente acrescido de uma colher pequena de guaraná em pó, meio limão espremido com água, e chimarrão; muito chimarrão pelo dia todo, não passando da tardinha. Sim, o Nelson curtia umas frutas também, e iogurte natural, e comia salada meio que por obrigação. Mas comia; comia uns vegetais verdes, uns roxos, uns vermelhos.  Sim, se você procurar você encontra fácil na web abordagens sobre os malefícios do ovo, e até do consumo excessivo de…água, sabia o Nelson. O caso aqui era saborear o X-salada com ovo enquanto o Fulvio enfileirava perguntas, assuntos, enquanto o Nelson tentava comer. Comer sentindo o gosto daquilo! Muita voz humana no entorno prejudicava o intento.   Há controvérsias sobre o melhor modo de fazer uma refeição, que é, também, reflexo de como uma pessoa prefere e tenta viver. Nelson concordava que a refeição com outras pessoas, familiares, amigos, segundo alguns chefs de cozinha, cumpria um ritual social importante, sentar-se à mesa, saborear, interagir, conversar, trocar impressões sobre “pra onde o mundo está indo”; desta forma, o foco não ficaria só na comida, saciar-se além do que o corpo ou a mente necessitam. Mas o Nelson valorizava como ninguém os momentos de solidão; muito além do aspecto arredio e rabugento, um introspectivo com as suas questões. Ver um filme bem quieto em casa. Ler um livro na sua poltrona velha, toda puída. […]

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