Folhetim

Uma questão de prioridades – Capítulo 7

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Uma questão de prioridades – Capítulo 7
Sabe quando tu te sentes um pouco vítima das circunstâncias e vai deixando uma situação te levar?! Era assim que o Nelson estava se sentindo. Mas estava gostando também. Muito complicado este negócio de sempre ter que seguir à risca o que está previsto. E é assim que a gente tem que viver, ou pelo menos como a sociedade espera que a gente viva: cada um dentro do seu quadrado, cumprindo este ou aquele papel. Acorda, toma café da manhã, vai pro trabalho ou faculdade, almoça, retoma o trabalho ou aula, termina o expediente ou aula à tardinha, jantar ou lanche início de noite, volta pra casa, espia uma TV ou um seriado ou um jogo de futebol qualquer, leitura de alguma coisa, toma um banho, ou enforca o banho projetando que vai acordar mais cedo e aí assim, tomará um banho, come uma fruta, escova os dentes, deita e tenta dormir, como se tudo estivesse bem e amanhã será apenas mais um dia. O processo de Nelson tentar apagar tudo o que tinha ocorrido no dia era feito com audição de umas músicas meio new age através de uma plataforma destas de streaming musical em seu celular. Entrar numa vibe meio etérea. E quando via, estava dormindo. O que não significava que não despertaria subitamente e sobressaltado como se a fixação em algum assunto mal resolvido ou tarefa prevista, insistissem em lhe cutucar a consciência. Estar ali no entardecer na Lancheria do Parque com o Fúlvio, esperando a chegada do Cristiano Carlos, se tornou um pouco pesquisa etnográfica; aquele trabalho de campo meio voyeur, observando quem passou no bar meio de raspão como ele e acabou ficando.  Aquele casal de jovens, muito jovens, ela deve ter 16 anos, ele uns 18, ela tem jeito de quem está estudando, usa óculos de grau, está no ensino médio, roupas discretas, escuras; ele tem jeito de quem faz algum curso da área de humanas ou da tal indústria criativa, pode ser Letras,  mas também pode ser Realização audiovisual ou Produção Fonográfica, ele também usa óculos e tem cabelo curto, um pouco de tinta vermelha no cabelo que deixa um aspecto de pelego; ela deve morar pela Cidade Baixa, ele, em algum bairro mais distante, Partenon. Os dois conversavam animadamente e davam risadas; dividem um suco de laranja com mamão. Copão de liquidificador na mesa com bastante suco, ainda. Nelson sabia identificar que era este suco pela cor; costumava pedir este, também. Deviam falar sobre algo da rotina que consideravam esdrúxulo, injusto. Algo que poderia ter ocorrido em casa, com a família, ou na aula. Como se eles tivessem escrito o seu próprio roteiro de como a vida deve ser, e algo que fugisse um pouco disto era tema de conversa no bar e motivo para cogitar um motim. Uns goles de suco depois e uma mordida num pastel de carne, já era o suficiente para abortarem a insurreição. Retomavam as risadas. Noutra mesa, Nelson percebeu um casal mais velho, semblantes mais fechados, […]

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