Ensaio, Parêntese

Glauber Cruz: “Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno, porra!”

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Glauber Cruz: “Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno, porra!” Uma análise discursiva do filme “Cidade de Deus” e uma crítica à visão uniforme do negro no audiovisual. Para abrir este texto, eu poderia ter escolhido uma das falas ditas em tom apaziguador pelo personagem Bené ou então alguma frase recheada de sabedoria de vida de Mané Galinha. Poderia optar também por alguma reflexão de Buscapé, o protagonista-narrador de Cidade de Deus, 2002, que conversa o tempo todo com o espectador. Mas escolhi a icônica sentença de Zé Pequeno porque sua fala demarca um momento importante do personagem — ele não mais o Dadinho, o menino, mas, sim, Zé Pequeno, o homem —, e se tornou um recorte cru do universo apresentado por Fernando Meirelles.  Essa fala é o principal exemplo das considerações finais da pesquisa que realizei para a conclusão da graduação em Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2019. “Sou sujeito-homem!”: a representação das masculinidades negras no filme “Cidade de Deus” nasceu principalmente do meu interesse em refletir sobre a forma como personagens negros são representados no cinema brasileiro. Escolhi Cidade de Deus pela paixão que tenho pelo filme, pelo seu significado na história do cinema nacional e pela quantidade de questões que a obra levanta, muito caras a mim, homem negro gay nascido e criado na periferia. Essa minha posição, aliás, justifica a escolha de ouvir os homens negros do longa, visto que eles são agentes mobilizadores e mobilizados por questões como raça, classe e gênero. Eu queria entender o que e como diziam, em termos simbólicos, aqueles homens que encarnam o estereótipo recorrente do homem negro no audiovisual brasileiro: o bandido.  Ancorado em conceitos da análise de discurso e das representações culturais, estudei as falas de quatro personagens do filme: Buscapé, Bené, Mané Galinha e Zé Pequeno. No processo, não analisei apenas o que foi, de fato, dito pelos personagens, mas também os caminhos que eles percorrem, em termos discursivos e narrativos, levando em conta a ideologia presente no ambiente retratado e os aspectos que atravessam essa ideologia, como classe, ascensão social e exaltação ou distanciamento da violência.  Durante a pesquisa, estudei a construção da masculinidade, a objetificação do corpo negro na história do Brasil e como esse aspecto é um das muitas heranças malditas do período de escravização de negros e negras raptados de África e os seus descendentes nascidos no Brasil. Munido dessas reflexões, ao ouvir os homens negros de Cidade de Deus cheguei a duas conclusões. A primeira é que esses quatro personagens centrais do filme são, nitidamente, homens diferentes. Embora circulem no mesmo ambiente, geográfico e discursivo, eles falam, agem e pensam de forma diferente entre si. Talvez vocês se perguntem o quão significativo isso é, visto que, em um filme, é o que se espera dos personagens, que sejam diferentes. Mas ser diferente significa muito porque esses quatro homens negros habitam um território marginalizado e estigmatizado. Eles são pedaços expostos da rachadura social que parte o Brasil ao meio e são vistos, na maioria das vezes, como […]

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Uma análise discursiva do filme “Cidade de Deus” e uma crítica à visão uniforme do negro no audiovisual. Para abrir este texto, eu poderia ter escolhido uma das falas ditas em tom apaziguador pelo personagem Bené ou então alguma frase recheada de sabedoria de vida de Mané Galinha. Poderia optar também por alguma reflexão de Buscapé, o protagonista-narrador de Cidade de Deus, 2002, que conversa o tempo todo com o espectador. Mas escolhi a icônica sentença de Zé Pequeno porque sua fala demarca um momento importante do personagem — ele não mais o Dadinho, o menino, mas, sim, Zé Pequeno, o homem —, e se tornou um recorte cru do universo apresentado por Fernando Meirelles.  Essa fala é o principal exemplo das considerações finais da pesquisa que realizei para a conclusão da graduação em Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2019. “Sou sujeito-homem!”: a representação das masculinidades negras no filme “Cidade de Deus” nasceu principalmente do meu interesse em refletir sobre a forma como personagens negros são representados no cinema brasileiro. Escolhi Cidade de Deus pela paixão que tenho pelo filme, pelo seu significado na história do cinema nacional e pela quantidade de questões que a obra levanta, muito caras a mim, homem negro gay nascido e criado na periferia. Essa minha posição, aliás, justifica a escolha de ouvir os homens negros do longa, visto que eles são agentes mobilizadores e mobilizados por questões como raça, classe e gênero. Eu queria entender o que e como diziam, em termos simbólicos, aqueles homens que encarnam o estereótipo recorrente do homem negro no audiovisual brasileiro: o bandido.  Ancorado em conceitos da análise de discurso e das representações culturais, estudei as falas de quatro personagens do filme: Buscapé, Bené, Mané Galinha e Zé Pequeno. No processo, não analisei apenas o que foi, de fato, dito pelos personagens, mas também os caminhos que eles percorrem, em termos discursivos e narrativos, levando em conta a ideologia presente no ambiente retratado e os aspectos que atravessam essa ideologia, como classe, ascensão social e exaltação ou distanciamento da violência.  Durante a pesquisa, estudei a construção da masculinidade, a objetificação do corpo negro na história do Brasil e como esse aspecto é um das muitas heranças malditas do período de escravização de negros e negras raptados de África e os seus descendentes nascidos no Brasil. Munido dessas reflexões, ao ouvir os homens negros de Cidade de Deus cheguei a duas conclusões. A primeira é que esses quatro personagens centrais do filme são, nitidamente, homens diferentes. Embora circulem no mesmo ambiente, geográfico e discursivo, eles falam, agem e pensam de forma diferente entre si. Talvez vocês se perguntem o quão significativo isso é, visto que, em um filme, é o que se espera dos personagens, que sejam diferentes. Mas ser diferente significa muito porque esses quatro homens negros habitam um território marginalizado e estigmatizado. Eles são pedaços expostos da rachadura social que parte o Brasil ao meio e são vistos, na maioria das vezes, como […]

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