Ensaio, Parêntese

Gunter Axt: Desconstruindo demolição de estátuas na guerra da memória

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Gunter Axt: Desconstruindo demolição de estátuas na guerra da memória Memória, patrimônio e História tratam do passado, mas de modo diferente.  Memória é a apropriação afetiva do passado, proposta por algum grupo mobilizado para homenagear e enaltecer pessoas, fatos, instituições… Como todo ato de lembrar pressupõe o inescapável esquecimento de algo, ela é sempre parcial, politizada, prestigiando uma narrativa específica, sem compromisso formal com a ciência e a verdade. Nomes de cidades, ruas, praças, prédios, monumentos são manifestações concretas da memória, em torno das quais é natural que se estabeleçam disputas ideológicas, que podem evoluir ao longo do tempo, porque o que se prestigia hoje, pode não ser mais reconhecido amanhã. A memória é um espaço de confronto, instável em sua essência. Qualquer cidadão pode discuti-la. E, em sociedades democráticas, espera-se que o façam.  Patrimônio é o bem, objeto, paisagem… tombado. Isto é, aquilo que uma sociedade identifica como representativo de uma época, de uma cultura, de uma localidade, de um bioma, e que, portanto, deve ser preservado, para que as gerações atuais e futuras possam acessar conteúdos e refletir sobre o legado das que as precederam. O patrimônio pode estar abrigado em museus, em arquivos, ou espalhado pelas ruas de uma cidade. Pode ser material, ou imaterial, como uma iguaria da culinária, uma dança, um ritual. Pode ser obra humana ou da natureza, como os parques e reservas ecológicos. Pode ter sido constituído há milhares de anos, como as pinturas rupestres em cavernas, ou constituído na semana passada. Hoje em dia, qualquer coisa pode se tornar patrimônio, desde que profissionais competentes, como historiadores, arquivistas, museólogos, críticos de arte, antropólogos, arqueólogos, biólogos, arquitetos, etc… o avalizem, por meio de laudos, chancelados por instituições também especializadas. É claro que há uma dimensão política nas escolhas realizadas – muitos países, por exemplo, não valorizam com mesmo interesse, como o faz o Brasil, há décadas, a cultura popular e imaterial –, mas há filtros técnicos que precisam embasar as decisões. O patrimônio se organiza a partir de marcos, listas, acervos. Sua eficácia reside na conservação, na imobilidade, o que não significa ausência de diálogo com o presente ou a comunidade: bem conservado, é vivo, porque ressignificado. De nada adianta um museu vazio ou um arquivo deixado às traças. O patrimônio tem de fazer sentido. Mas ao contrário da memória, é um território de busca de consenso e de afirmação da perenidade. O patrimônio interessa a todos, mas é determinado por alguns.  História é o debate científico sobre o passado, sustentado por profissionais de uma área específica do conhecimento, os historiadores. Como tudo que diz respeito à experiência humana tem história, é a mais ampla e interdisciplinar de todas as áreas do conhecimento. Não basta falar do passado para fazer História, pois requer análise de documentos e vestígios e, para isso, é preciso lastro teórico complexo, enraizado na Filosofia, além, é claro, de uma metodologia sofisticada. A História é uma classe de narrativa, o que a torna uma ciência fluída por excelência. Estando próxima da Literatura, é constituída de versões, cuja validade muda com […]

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Memória, patrimônio e História tratam do passado, mas de modo diferente.  Memória é a apropriação afetiva do passado, proposta por algum grupo mobilizado para homenagear e enaltecer pessoas, fatos, instituições… Como todo ato de lembrar pressupõe o inescapável esquecimento de algo, ela é sempre parcial, politizada, prestigiando uma narrativa específica, sem compromisso formal com a ciência e a verdade. Nomes de cidades, ruas, praças, prédios, monumentos são manifestações concretas da memória, em torno das quais é natural que se estabeleçam disputas ideológicas, que podem evoluir ao longo do tempo, porque o que se prestigia hoje, pode não ser mais reconhecido amanhã. A memória é um espaço de confronto, instável em sua essência. Qualquer cidadão pode discuti-la. E, em sociedades democráticas, espera-se que o façam.  Patrimônio é o bem, objeto, paisagem… tombado. Isto é, aquilo que uma sociedade identifica como representativo de uma época, de uma cultura, de uma localidade, de um bioma, e que, portanto, deve ser preservado, para que as gerações atuais e futuras possam acessar conteúdos e refletir sobre o legado das que as precederam. O patrimônio pode estar abrigado em museus, em arquivos, ou espalhado pelas ruas de uma cidade. Pode ser material, ou imaterial, como uma iguaria da culinária, uma dança, um ritual. Pode ser obra humana ou da natureza, como os parques e reservas ecológicos. Pode ter sido constituído há milhares de anos, como as pinturas rupestres em cavernas, ou constituído na semana passada. Hoje em dia, qualquer coisa pode se tornar patrimônio, desde que profissionais competentes, como historiadores, arquivistas, museólogos, críticos de arte, antropólogos, arqueólogos, biólogos, arquitetos, etc… o avalizem, por meio de laudos, chancelados por instituições também especializadas. É claro que há uma dimensão política nas escolhas realizadas – muitos países, por exemplo, não valorizam com mesmo interesse, como o faz o Brasil, há décadas, a cultura popular e imaterial –, mas há filtros técnicos que precisam embasar as decisões. O patrimônio se organiza a partir de marcos, listas, acervos. Sua eficácia reside na conservação, na imobilidade, o que não significa ausência de diálogo com o presente ou a comunidade: bem conservado, é vivo, porque ressignificado. De nada adianta um museu vazio ou um arquivo deixado às traças. O patrimônio tem de fazer sentido. Mas ao contrário da memória, é um território de busca de consenso e de afirmação da perenidade. O patrimônio interessa a todos, mas é determinado por alguns.  História é o debate científico sobre o passado, sustentado por profissionais de uma área específica do conhecimento, os historiadores. Como tudo que diz respeito à experiência humana tem história, é a mais ampla e interdisciplinar de todas as áreas do conhecimento. Não basta falar do passado para fazer História, pois requer análise de documentos e vestígios e, para isso, é preciso lastro teórico complexo, enraizado na Filosofia, além, é claro, de uma metodologia sofisticada. A História é uma classe de narrativa, o que a torna uma ciência fluída por excelência. Estando próxima da Literatura, é constituída de versões, cuja validade muda com […]

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