Parêntese, Reportagem

Homens brancos são 60% dos homenageados em monumentos de Porto Alegre

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Homens brancos são 60% dos homenageados em monumentos de Porto Alegre Celebração do Dia da Consciência Negra no Centro do Rio de Janeiro, em 2018. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil/Divulgação
Historiadores comentam levantamento inédito feito pela Parêntese: a maioria das estátuas foi erguida sob a perspectiva das elites machistas e escravocratas Juan Ortiz Ainda que a intempérie tenha corroído seu uniforme de bronze, algumas letras de sua frase ufanista estejam faltando e intervenções gráficas com odes ao veganismo debochem de seu legado estancieiro, a estátua equestre de Bento Gonçalves continua de pé. Sujo, deteriorado e pichado: é assim que se encontra, na avenida João Pessoa, o tributo ao líder farroupilha 85 anos após sua instalação. A expressão carrancuda do homem metálico que se ergue impávido a mais de 10 metros de altura é como de alguém que diz: “ninguém me tira daqui”. Diferentemente do movimento em curso nos Estados Unidos e na Europa, não há sinal de que as estátuas de personagens escravocratas em solo gaúcho, como Bento Gonçalves, venham a ser derrubadas – ainda que, ao menos na Capital, elas sejam numerosas. Em contraponto, os negros homenageados são minoria. As informações são de um mapeamento inédito feito pelo Matinal a partir de dados da Secretaria Municipal de Cultura. A obra de Antônio Caringi, concebida na Alemanha nazista, é uma das mais de 80 dedicadas a homens brancos na estatuária pública de Porto Alegre, o que soma 60% das pessoas homenageadas. Dos mais de 130 monumentos que representam ou homenageiam figuras humanas, apenas nove são para a população negra e outras nove para mulheres. Há também marcos, obeliscos e placas para o povo judeu e o sírio-libanês, entre outros. A estátua de Bento Gonçalves foi erigida em 1935, para a comemoração do centenário farroupilha, como parte da renascença regionalista iniciada a partir do fim do século 19 – ou seja, um revisionismo histórico-cultural que buscava destacar os elementos desejáveis do “gauchismo”. Nessa narrativa, ficaram escanteados os componentes negro e indígena (inclusive fortemente presente na genética dos gaúchos originários, mas que foi apagado no curso da história).  “As estátuas de maior destaque em Porto Alegre são representações da elite social e cultural da história do Rio Grande do Sul e que preservam uma identidade forjada em torno do mito do gaúcho”, explica a historiadora Izis Abreu, que pesquisa a representação e representatividade de pessoas negras na arte gaúcha.  Antes de comandar a Revolução Farroupilha e presidir a efêmera República Rio-Grandense entre 1836 e 1841, Bento Gonçalves era um herdeiro de uma rica família de fazendeiros. Inicialmente, seus pais queriam que ele virasse padre. Mudaram de ideia ao conhecer a habilidade do jovem com a espada, quando ele matou um homem negro em um duelo porque se sentiu ofendido. Foi aí que começou sua carreira militar. Ao contrário do que se fazia crer, a Guerra dos Farrapos não era exatamente um projeto abolicionista. “Bento Gonçalves, ao mesmo tempo em que solicita como condição de paz ao governo imperial a liberdade dos escravos que estão a serviço da República, deixa, como herança ao morrer em 1847, 53 escravos em sua fazenda de Camaquã”, relembra, em um artigo, a historiadora Margaret Bakos. Outros chefes farroupilhas […]

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