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O caderno dos sonhos de Hugo Drummond (trecho)

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O caderno dos sonhos de Hugo Drummond (trecho)
Uma sinopse, ao estilo de trailer de filme:

Hugo Drummond, cineasta, 33 anos, nascido em Canela, na serra gaúcha. Casado com Virgínia Hoffmeister, de Nova Petrópolis. Eles não têm filhos. Em vez disso, fizeram juntos um longa-metragem, chamado O Russo, premiado na França. Hugo acaba de chegar em Porto Alegre, onde vai participar de um encontro com produtores internacionais de cinema. Tem esperança de conseguir dinheiro para seu segundo longa, O Filho do Russo. Na mochila, além de algumas roupas, leva um computador portátil e um caderno de capa azul. Nesse caderno, desde a adolescência, Hugo anota seus sonhos, que servem de base para seus filmes. Hugo não mostra o caderno pra ninguém, nem mesmo pra sua esposa. Porém, nos três dias que vai passar na capital, seus sonhos e pesadelos mais íntimos serão desnudados, e Hugo terá que reescrever o roteiro de sua própria vida.

O caderno dos sonhos de Hugo Drummond, romance de Carlos Gerbase, lançamento da editora Diadorim, com autógrafo hoje, dia 13, na Feira do Livro de Porto Alegre.

Capítulo 2

Hugo Drummond nunca pensara em tornar-se cineasta antes de conhecer Virgínia Hoffmeister. Filha única de um conceituado médico de Nova Petrópolis, na serra gaúcha, e de uma bacharela em Direito que nunca precisara advogar, pois recebia rendimentos de três imensas fazendas exportadoras de soja na região de Soledade, Virgínia, com sua beleza clássica e a conta bancária dos pais, poderia ter estudado qualquer coisa, em qualquer lugar do mundo, e se casado com qualquer homem ou mulher. Porém, depois de completar o ensino médio, polir por um ano seu alemão colonial, estudar francês e um tantinho de inglês, quando todos esperavam que, aos vinte e um anos, ela rumasse para Heidelberg, Oxford, Sorbonne, ou ao menos para Porto Alegre, casara-se com Hugo, àquela época um pequeno empreendedor de Canela que ganhava a vida instalando sistemas de segurança com câmeras controladas pela internet nas casas recém-construídas dos condomínios das proximidades, cada vez mais comuns, mais cafonas e mais lucrativos.

            Hugo e Virgínia encontraram-se quando ambos faziam aulas de conversação em língua inglesa com o professor Jenkins, simpático súdito do Reino Unido que cometera o erro de engravidar uma inocente loirinha gaúcha cortejada no Festival de Glastonbury. Ingrid era filha de um delegado de polícia de Gramado, que viajara para Londres e ameaçara Jenkins de morte (e morte dolorosa!) caso não viesse ao Brasil e se casasse imediatamente. Agora Jenkins tentava juntar grana suficiente para sumir de Gramado sem deixar rastros, usando pedagogicamente seu charmoso sotaque britânico, mas era difícil esconder dinheiro de Ingrid e de seu pai. As aulas aconteciam no minúsculo apartamento do jovem britânico, estrategicamente localizado no mesmo edifício do sogro, e às vezes eram interrompidas pelo choro do bebê. Talvez esse ambiente tão familiar tenha colaborado para a aproximação sentimental de Hugo e Virgínia, mas os vetores decisivos foram o sexo e a violência. Não nesta ordem.

            Todas as terças e quintas, pelas onze da manhã, um motorista vestindo impecável camisa social branca e gravata azul, chamado Jeová dos Santos Silva, homem negro da absoluta confiança do Dr. Hoffmeister, levava Virgínia de Nova Petrópolis a Gramado numa caminhonete japonesa. Era um trajeto curto, menos de cinquenta quilômetros, e ao meio-dia e pouco Virgínia já estava almoçando num dos restaurantes da moda de Gramado, seguindo depois para a aula de inglês. Às cinco da tarde, pontualmente, Jeová estacionava a caminhonete em frente ao edifício de Jenkins para iniciar a viagem de volta. Às vezes Jeová era obrigado a manobrar com muito cuidado, pois a motocicleta de Hugo, uma Honda pequena e comum, mas bem conservada, costumava ficar estacionada junto à entrada da garagem. Hugo também tinha um carro, mas este, um Corsa 1.0, era menos charmoso. Para a curta distância entre a sua casa em Canela e o apartamento de Jenkins em Gramado, uns quinze quilômetros, preferia usar a moto, a menos que estivesse chovendo.

            Não era o caso naquela quinta-feira no final do outono. Hugo e Virgínia desceram juntos no elevador, conversando sobre verbos irregulares, e, quando chegaram à calçada, puderam acompanhar a confusão desde o seu início. Um Camaro amarelo sem capota, de cujos alto-falantes transbordava um derivado de funk reduzido a uma sequência monótona de sons supergraves dedicados a aumentar a masculinidade do condutor, passou bem perto da caminhonete. O garotão bombado que dirigia o Camaro falou alguma coisa para Jeová, que lia um gibi no banco de motorista. Nem Hugo, nem Virgínia, ouviram a frase, mas perceberam a reação imediata de Jeová, que tirou o cinto de segurança e saiu do carro. O Camaro parou no meio da rua, e o garotão desceu, segurando o que parecia ser uma barra de ferro. Sem demonstrar qualquer receio, Jeová aproximou-se do garotão. Quando este levantou a barra de ferro para dar o primeiro golpe, Jeová abaixou-se, contorceu-se e, no que pareceu para Hugo uma formidável manobra de capoeira, atingiu em cheio, com a ponta do sapato de couro preto muito bem engraxado, os testículos do garotão, que desabou no asfalto sem emitir som algum.

            Por alguns instantes, pareceu que tudo tinha acabado, e bastaria apertar um botão na central multimídia do Camaro para o filme andar até a cena seguinte, quem sabe menos violenta e com música melhor. Porém, o garotão, embora ainda estivesse se contorcendo com as duas mãos sobre o escroto, conseguiu dizer mais alguma coisa. Jeová ouviu. Depois de refletir por dois ou três segundos, abaixou-se, pegou a barra de ferro no chão e, metodicamente, começou a amassar a lataria do Camaro com golpes poderosos, que se iniciaram no capô e depois seguiram pelas laterais. Quando, já demonstrando algum cansaço, preparava-se para quebrar os faróis, o sogro de Jenkins saiu correndo do edifício com uma pistola na mão. Jeová soltou a barra de ferro e ergueu os braços. O delegado empurrou o motorista contra a caminhonete, realizou uma rápida revista e algemou-o. Na sequência, como se essa fosse a rotina em suas ações, bateu com a coronha da arma na nuca de Jeová. Virgínia gritou. O garotão aproximou-se, ainda meio bambo, e deu um soco nas costas de Jeová. Daria outros, se Hugo não tivesse pulado no meio dos dois e empurrado o garotão, que voltou a desabar no asfalto. Hugo levou voz de prisão e estava prestes a apanhar um pouco, mas Virgínia, com seu irrepreensível porte germânico, convenceu o policial a ouvir “o que realmente tinha acontecido”.

            Quando todos os envolvidos terminaram seus depoimentos na delegacia, passava das oito da noite. Apesar dos esforços narrativos de Virgínia e Hugo, Jeová permaneceu detido por depredação de patrimônio alheio e passaria a noite numa cela suficientemente confortável. “É uma questão pedagógica”, resumiu o delegado. Virgínia, temendo que seu pai suspendesse as aulas de inglês e, um pouco pior, que demitisse Jeová, responsabilizou-se pelo conserto do Camaro e inventou uma ficção complicada com uma pane na caminhonete e a necessidade de pernoitar em Gramado, de modo que voltariam a Nova Petrópolis somente na manhã seguinte. Jeová, apesar de alguma hesitação, corroborou a versão da garota e disse ao patrão ser um pequeno problema elétrico. Mesmo contrariado, o Dr. Hoffmeister indicou o Hotel Serra Azul como o melhor lugar para Virgínia, enquanto Jeová deveria procurar uma pensão nas proximidades.

            Hugo ofereceu carona para Virgínia até o hotel em sua moto. Ela aceitou e sugeriu passear um pouco, “para aliviar a tensão”. Hugo não tinha capacete extra, mas conseguiu um emprestado com o escrivão da delegacia, a quem conhecia dos encontros de motoqueiros em Picada Café. Foram até Canela. Hugo mostrou para Virgínia as ruínas do Cassino, uma inacabada construção dos anos 1940, perto de sua casa. Virgínia achou o lugar “lúgubre, mas romântico”. Começou a chover, e não havia outra saída: foram abrigar-se no modesto chalé de madeira de Hugo. Havia uma garrafa de tinto uruguaio. Como estava frio, Hugo acendeu o fogãozinho a lenha. Foram para o quarto. Virgínia não era virgem em termos anatômicos, mas seus orgasmos canelenses superaram amplamente suas incipientes experiências nova-petropolitanas. 

            Pelas três da manhã, extenuados e felizes, olharam pela janela. Uma cerração baixa cruzava fantasmagoricamente a rua sem calçamento. “É o Russo”, disse Hugo, e percebeu a curiosidade estampada no rosto de Virgínia. Então contou a mítica história do cidadão da Sibéria que viera para Canela e fora assassinado por sua bela noiva brasileira bem perto dali. Hugo ouvira a lenda pela primeira vez da boca de sua mãe, dona Gláucia, quando ele tinha uns dez anos. Assustado, sonhara com o homem transformado em névoa naquela mesma noite. Embora curto, se comparado com alguns enredos bem mais sofisticados que seu inconsciente costumava criar, o pesadelo o marcou profundamente, e a figura do Russo nunca mais se apagou de sua memória.

            Casaram-se seis meses depois, com amuos gerais da família Hoffmeister, separação total de bens e domicílio obrigatório do casal em Nova Petrópolis. Nada disso era problema. O Hugo de então era um homem que não ligava muito para dinheiro, e seu pequeno negócio em nada sofreria com a mudança de ares. Queria estar com Virgínia, queria seu corpo e sua alma. E isso ele tinha. Não sabia, contudo, que em breve o Russo também estaria com eles, num primeiro e decisivo passo em direção ao mundo do cinema, que rapidamente os envolveria em sua assombrosa névoa, capaz de simular a madrugada em plena luz do dia.


Carlos Gerbase é cineasta, professor de cinema na PUCRS, escritor, mítico baterista da banda Os Replicantes. 

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