Ensaio, Parêntese

Jackson Raymundo: Alvorecer dos anos 2020: o carnaval como expressão de um Brasil em crise

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Jackson Raymundo: Alvorecer dos anos 2020: o carnaval como expressão de um Brasil em crise A crise política, econômica e social que marcou o Brasil na segunda metade dos anos 2010 se expressou de modo contundente no carnaval, em especial nos enredos e nas letras das escolas de samba. Em texto anterior (na Parêntese ***), analisou-se o contexto que leva ao reaparecimento de sambas críticos e politizados, após um longo período em que tal característica se mostrava de presença escassa, bem como alguns dos desfiles notáveis desse ciclo. Neste ensaio, passearemos por letras dos sambas-enredo das agremiações da elite do carnaval do Rio de Janeiro para o carnaval 2020. Entre as 13 escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro, em pelo menos dez delas é visível o teor de crítica social e/ou política, confirmando uma tendência tornada hegemônica a partir dos dois carnavais anteriores. São enredos sobre o candomblé, o povo das ruas, a malandragem, a resistência dos povos indígenas e da mulher negra, o sebastianismo e, ainda, sobre um Jesus marginalizado e libertador. Até mesmo um enredo sobre arquitetura, alusivo ao congresso mundial da área que ocorrerá neste ano no Rio, que em outros contextos possivelmente seria “asséptico” em relação a preocupações sociais, reveste-se de um forte teor de crítica social. Campeã do carnaval de 2019 com um enredo-manifesto em que busca reconstruir as narrativas historiográficas sobre os heróis brasileiros, a Mangueira novamente investe em um tema de conteúdo político. Em tempos de intolerância, de acentuação das desigualdades e de proliferação de fake news e “pós-verdades”, o título dado pelo carnavalesco Leandro Vieira, que remete a um versículo bíblico, é direto: “A verdade vos fará livre”. O Jesus Cristo do samba-enredo da Mangueira não é o homem branco de olhos claros da hagiografia eurocêntrica. É uma mistura do negro, do índio e da mulher, e nascido no próprio morro de Mangueira, na localidade de Buraco Quente. Eu sou da Estação Primeira de NazaréRosto negro, sangue índio, corpo de mulherMoleque pelintra do buraco quenteMeu nome é Jesus da gente Versos aludem à origem pobre de Jesus Cristo, filho de pai carpinteiro desempregado e de uma Maria como tantas outras. O seu amor é infinito e é posicionado: “Me encontro no amor que não encontra fronteira / Procura por mim nas fileiras contra a opressão”. A banalização do uso da imagem de Jesus Cristo não é acompanhada de um real entendimento de quem vem a ser a figura sagrada. Em tempos de extermínio nas comunidades periféricas e negras, a canção reflete: Eu tô que tô dependuradoEm cordéis e corcovadosMas será que todo povo entendeu o meu recado?Porque de novo cravejaram o meu corpoOs profetas da intolerância No trecho que mais deu o que falar até agora, há uma crítica direta ao presidente Jair Messias Bolsonaro e seu discurso pró-armas, assim como um apelo à consciência da necessidade de um futuro mais solidário e justo. Favela, pega a visãoNão tem futuro sem partilhaNem messias de arma na mão Escola lembrada sempre pela irreverência, a São Clemente busca contar diversos episódios de malandragem da história […]

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A crise política, econômica e social que marcou o Brasil na segunda metade dos anos 2010 se expressou de modo contundente no carnaval, em especial nos enredos e nas letras das escolas de samba. Em texto anterior (na Parêntese ***), analisou-se o contexto que leva ao reaparecimento de sambas críticos e politizados, após um longo período em que tal característica se mostrava de presença escassa, bem como alguns dos desfiles notáveis desse ciclo. Neste ensaio, passearemos por letras dos sambas-enredo das agremiações da elite do carnaval do Rio de Janeiro para o carnaval 2020. Entre as 13 escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro, em pelo menos dez delas é visível o teor de crítica social e/ou política, confirmando uma tendência tornada hegemônica a partir dos dois carnavais anteriores. São enredos sobre o candomblé, o povo das ruas, a malandragem, a resistência dos povos indígenas e da mulher negra, o sebastianismo e, ainda, sobre um Jesus marginalizado e libertador. Até mesmo um enredo sobre arquitetura, alusivo ao congresso mundial da área que ocorrerá neste ano no Rio, que em outros contextos possivelmente seria “asséptico” em relação a preocupações sociais, reveste-se de um forte teor de crítica social. Campeã do carnaval de 2019 com um enredo-manifesto em que busca reconstruir as narrativas historiográficas sobre os heróis brasileiros, a Mangueira novamente investe em um tema de conteúdo político. Em tempos de intolerância, de acentuação das desigualdades e de proliferação de fake news e “pós-verdades”, o título dado pelo carnavalesco Leandro Vieira, que remete a um versículo bíblico, é direto: “A verdade vos fará livre”. O Jesus Cristo do samba-enredo da Mangueira não é o homem branco de olhos claros da hagiografia eurocêntrica. É uma mistura do negro, do índio e da mulher, e nascido no próprio morro de Mangueira, na localidade de Buraco Quente. Eu sou da Estação Primeira de NazaréRosto negro, sangue índio, corpo de mulherMoleque pelintra do buraco quenteMeu nome é Jesus da gente Versos aludem à origem pobre de Jesus Cristo, filho de pai carpinteiro desempregado e de uma Maria como tantas outras. O seu amor é infinito e é posicionado: “Me encontro no amor que não encontra fronteira / Procura por mim nas fileiras contra a opressão”. A banalização do uso da imagem de Jesus Cristo não é acompanhada de um real entendimento de quem vem a ser a figura sagrada. Em tempos de extermínio nas comunidades periféricas e negras, a canção reflete: Eu tô que tô dependuradoEm cordéis e corcovadosMas será que todo povo entendeu o meu recado?Porque de novo cravejaram o meu corpoOs profetas da intolerância No trecho que mais deu o que falar até agora, há uma crítica direta ao presidente Jair Messias Bolsonaro e seu discurso pró-armas, assim como um apelo à consciência da necessidade de um futuro mais solidário e justo. Favela, pega a visãoNão tem futuro sem partilhaNem messias de arma na mão Escola lembrada sempre pela irreverência, a São Clemente busca contar diversos episódios de malandragem da história […]

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