Crônica, Parêntese

José Falero: Embriogênese do mal

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José Falero: Embriogênese do mal Outro dia, na aula (uma das melhores aulas que já tive na vida), a professora compartilhou uma experiência pessoal: contou sobre a vez em que foi a um campo de concentração, na Alemanha. Pelo que entendi, o local fica aberto à visitação hoje em dia. “São os 7×1 da vida”, pensei: se por aqui também déssemos a devida importância à História, podia ser que não estivéssemos tão interessados em cometer os mesmos erros do passado. Como nunca saí do Brasil e portanto não conheço o tal campo de concentração, não posso atestar a fidelidade da descrição que a professora fez; só o que posso dizer é que fiquei de cabelo em pé. E um detalhe em particular me chamou a atenção: parece que o tal campo de concentração encontra-se junto a uma certa cidade, em vez de ficar absolutamente isolado, como acontece na maior parte dos casos. Perspicaz, a professora fez muito bem em frisar o seguinte: em determinado momento da História, homens e mulheres andavam por ali, pensavam nas contas a pagar, conversavam sobre o clima, faziam planos para o futuro, criavam seus filhos e seus animais de estimação, enfim, iam tocando a vida naquela cidade, enquanto, a poucas centenas de metros, outros seres humanos eram incinerados em fornos. Sempre que duas determinadas condições contrastam demais, sendo que ambas efetivamente estabeleceram-se em algum momento, uma após a outra, me ocorre de imediato que a transição não pode ter-se dado de maneira brusca. No caso em questão, refleti sobre a condição do ser humano empático, capaz de reconhecer a si próprio no outro, em contraste à condição do ser humano insensível, capaz de jantar e depois deitar-se para dormir sem a menor preocupação com o genocídio que se sucede na outra esquina. Tamanha insensibilidade, penso, não pode se estabelecer do dia para a noite no coração de uma pessoa, muito menos no coração de quase uma nação inteira. Numa outra aula, também memorável, um outro professor discorreu justamente a respeito disso: o desenvolvimento (necessariamente gradual) de uma política de ódio, que resulta na desumanização de um determinado grupo humano. Em outras palavras, o professor falou sobre o processo pelo qual um grupo de pessoas perde a capacidade de reconhecer a humanidade de outro grupo de pessoas. Nessa aula, inclusive, vimos um vídeo curtinho, porém bastante completo, sobre o assunto. Quando paramos para pensar no que os nazistas foram capazes de fazer com os judeus, quando lembramos que todos aqueles horrores começaram com ideias antissemitas “inofensivas” e quando constatamos que essas ideias “inofensivas” se assemelham muito com os pensamentos anti-esquerdistas, machistas, racistas, homofóbicos e preconceituosos das mais variadas formas que o presidente eleito deste país tem propagado dia e noite desde antes de assumir a presidência, não há como imaginar que teremos, ali adiante, um futuro menos do que terrível, sobretudo se levarmos em consideração o fato de que, até aqui, temos assistido a tudo de braços cruzados. Não quero desmerecer os esforços dos que estão resistindo, é claro. Mas o […]

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Outro dia, na aula (uma das melhores aulas que já tive na vida), a professora compartilhou uma experiência pessoal: contou sobre a vez em que foi a um campo de concentração, na Alemanha. Pelo que entendi, o local fica aberto à visitação hoje em dia. “São os 7×1 da vida”, pensei: se por aqui também déssemos a devida importância à História, podia ser que não estivéssemos tão interessados em cometer os mesmos erros do passado. Como nunca saí do Brasil e portanto não conheço o tal campo de concentração, não posso atestar a fidelidade da descrição que a professora fez; só o que posso dizer é que fiquei de cabelo em pé. E um detalhe em particular me chamou a atenção: parece que o tal campo de concentração encontra-se junto a uma certa cidade, em vez de ficar absolutamente isolado, como acontece na maior parte dos casos. Perspicaz, a professora fez muito bem em frisar o seguinte: em determinado momento da História, homens e mulheres andavam por ali, pensavam nas contas a pagar, conversavam sobre o clima, faziam planos para o futuro, criavam seus filhos e seus animais de estimação, enfim, iam tocando a vida naquela cidade, enquanto, a poucas centenas de metros, outros seres humanos eram incinerados em fornos. Sempre que duas determinadas condições contrastam demais, sendo que ambas efetivamente estabeleceram-se em algum momento, uma após a outra, me ocorre de imediato que a transição não pode ter-se dado de maneira brusca. No caso em questão, refleti sobre a condição do ser humano empático, capaz de reconhecer a si próprio no outro, em contraste à condição do ser humano insensível, capaz de jantar e depois deitar-se para dormir sem a menor preocupação com o genocídio que se sucede na outra esquina. Tamanha insensibilidade, penso, não pode se estabelecer do dia para a noite no coração de uma pessoa, muito menos no coração de quase uma nação inteira. Numa outra aula, também memorável, um outro professor discorreu justamente a respeito disso: o desenvolvimento (necessariamente gradual) de uma política de ódio, que resulta na desumanização de um determinado grupo humano. Em outras palavras, o professor falou sobre o processo pelo qual um grupo de pessoas perde a capacidade de reconhecer a humanidade de outro grupo de pessoas. Nessa aula, inclusive, vimos um vídeo curtinho, porém bastante completo, sobre o assunto. Quando paramos para pensar no que os nazistas foram capazes de fazer com os judeus, quando lembramos que todos aqueles horrores começaram com ideias antissemitas “inofensivas” e quando constatamos que essas ideias “inofensivas” se assemelham muito com os pensamentos anti-esquerdistas, machistas, racistas, homofóbicos e preconceituosos das mais variadas formas que o presidente eleito deste país tem propagado dia e noite desde antes de assumir a presidência, não há como imaginar que teremos, ali adiante, um futuro menos do que terrível, sobretudo se levarmos em consideração o fato de que, até aqui, temos assistido a tudo de braços cruzados. Não quero desmerecer os esforços dos que estão resistindo, é claro. Mas o […]

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