Crônica, Parêntese

José Falero: O Bebê de Rosemary

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José Falero: O Bebê de Rosemary Um cara resolveu desabafar com um amigo: — Rapaz, ando intrigado. Minha esposa está grávida, mas eu tinha feito vasectomia antes mesmo de conhecê-la. Ao que o amigo respondeu: — Imagine um caçador na floresta, empunhando uma espingarda sem balas. De repente, uma onça aparece. Então, ele aponta a espingarda sem balas para a onça, puxa o gatilho, há um estrondo, e na mesma hora a onça cai, morta. — Mas isso não é possível! Outra pessoa deve ter atirado! — Exatamente! Lembrei dessa velha piada machista enquanto refletia sobre a quarentena. Há tempos que os intelectuais progressistas brasileiros sonham com uma grande greve geral, para pressionar as elites indecentes deste país e tentar obrigá-las a engolir um contexto trabalhista menos perverso, com melhores salários e melhores condições de trabalho. O problema sempre foi a falta de mobilização. Os intelectuais gritavam a plenos pulmões “vamos parar tudo!”, mas os trabalhadores nunca escutavam. O que é perfeitamente compreensível, dada a enorme distância entre a classe trabalhadora e a classe intelectual na sociedade brasileira tal como se estruturou historicamente: na imensa maioria dos casos, aqueles que conhecem o significado da foice e do martelo jamais tiveram as mãos calejadas de tanto empunhar um ou outro. Só que, agora, algo mudou. Muito felizmente, boa parte dos trabalhadores está mesmo disposta a parar de trabalhar e ficar em casa, porque leva a pandemia a sério. Isso, na prática, não deixa de ser justamente o que os intelectuais progressistas sempre desejaram: uma greve generalizada. E é aqui que acho útil termos em mente a velha piada mencionada acima. Se toda essa mobilização da classe trabalhadora é a tão esperada gravidez da esposa, o papel que cabe à classe intelectual é o de marido estéril, porque o pai de fato só pode ser outro: a imprensa. Imprensa que, faço questão de lembrar, sempre bombardeou a população com propaganda antiesquerdista de modo geral e antipetista em particular, induziu o povo a acreditar que o Lula era ladrão, fingiu que não viu uma gangue de bandoleiros arrancar a Dilma do Palácio, naturalizou a figura do Bolsonaro e os seus discursos de ódio, entre outras travessuras. Daí que advirto para não esperarmos uma criança lá muito bonita. Em outras palavras, embora eu seja favorável à quarentena, a verdade (que não devemos varrer para debaixo do tapete) é que as consequências dela têm tudo para ser terríveis para os trabalhadores que saírem vivos da pandemia. A menos, claro, que a classe intelectual consiga, em tempo recorde, aquilo que não consegue há muitas décadas: aproximar-se da classe trabalhadora. Essa é uma esperança porque, afinal, como dizem, pai é quem cria, e a maior prova que temos disso é que as manifestações contra o aumento nas tarifas de transporte público, lá em 2013, tinham nascido da legítima revolta popular, mas quem as nutriu depois foram os setores conservadores da sociedade, e a gente viu no que deu. Não nos iludamos. Salvo raras exceções, a imprensa brasileira de modo geral não fede menos […]

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Um cara resolveu desabafar com um amigo: — Rapaz, ando intrigado. Minha esposa está grávida, mas eu tinha feito vasectomia antes mesmo de conhecê-la. Ao que o amigo respondeu: — Imagine um caçador na floresta, empunhando uma espingarda sem balas. De repente, uma onça aparece. Então, ele aponta a espingarda sem balas para a onça, puxa o gatilho, há um estrondo, e na mesma hora a onça cai, morta. — Mas isso não é possível! Outra pessoa deve ter atirado! — Exatamente! Lembrei dessa velha piada machista enquanto refletia sobre a quarentena. Há tempos que os intelectuais progressistas brasileiros sonham com uma grande greve geral, para pressionar as elites indecentes deste país e tentar obrigá-las a engolir um contexto trabalhista menos perverso, com melhores salários e melhores condições de trabalho. O problema sempre foi a falta de mobilização. Os intelectuais gritavam a plenos pulmões “vamos parar tudo!”, mas os trabalhadores nunca escutavam. O que é perfeitamente compreensível, dada a enorme distância entre a classe trabalhadora e a classe intelectual na sociedade brasileira tal como se estruturou historicamente: na imensa maioria dos casos, aqueles que conhecem o significado da foice e do martelo jamais tiveram as mãos calejadas de tanto empunhar um ou outro. Só que, agora, algo mudou. Muito felizmente, boa parte dos trabalhadores está mesmo disposta a parar de trabalhar e ficar em casa, porque leva a pandemia a sério. Isso, na prática, não deixa de ser justamente o que os intelectuais progressistas sempre desejaram: uma greve generalizada. E é aqui que acho útil termos em mente a velha piada mencionada acima. Se toda essa mobilização da classe trabalhadora é a tão esperada gravidez da esposa, o papel que cabe à classe intelectual é o de marido estéril, porque o pai de fato só pode ser outro: a imprensa. Imprensa que, faço questão de lembrar, sempre bombardeou a população com propaganda antiesquerdista de modo geral e antipetista em particular, induziu o povo a acreditar que o Lula era ladrão, fingiu que não viu uma gangue de bandoleiros arrancar a Dilma do Palácio, naturalizou a figura do Bolsonaro e os seus discursos de ódio, entre outras travessuras. Daí que advirto para não esperarmos uma criança lá muito bonita. Em outras palavras, embora eu seja favorável à quarentena, a verdade (que não devemos varrer para debaixo do tapete) é que as consequências dela têm tudo para ser terríveis para os trabalhadores que saírem vivos da pandemia. A menos, claro, que a classe intelectual consiga, em tempo recorde, aquilo que não consegue há muitas décadas: aproximar-se da classe trabalhadora. Essa é uma esperança porque, afinal, como dizem, pai é quem cria, e a maior prova que temos disso é que as manifestações contra o aumento nas tarifas de transporte público, lá em 2013, tinham nascido da legítima revolta popular, mas quem as nutriu depois foram os setores conservadores da sociedade, e a gente viu no que deu. Não nos iludamos. Salvo raras exceções, a imprensa brasileira de modo geral não fede menos […]

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