Entrevista, Parêntese

Marcelo Coelho: Contra o rapapé, o salamaleque, a zumbaia

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Marcelo Coelho: Contra o rapapé, o salamaleque, a zumbaia Marcelo Coelho é um cronista ativo e um jornalista eventual. Atua na Folha de S. Paulo há muitos anos, fazendo parte do Conselho Editorial daquele que é um dos três maiores e melhores jornais do país. Fez parte da geração que, a partir de 1984, transformou a Folha num dos veículos mais significativos da opinião pública brasileira (e uma voz internacional de não pouco peso), sob o comando de Otávio Frias Filho, recentemente falecido. Uma de suas tarefas foi a de editorialista, função que num veículo daquele porte envolve muito tato, muita capacidade de formulação escrita, muita visão de conjunto. Em episódios dramáticos, como a saga do impeachment de Dilma, Marcelo assume uma posição mais propriamente jornalística, reportando com qualidade os episódios sem perder a noção do todo. Em sua coluna semanal, passeia por temas variados, quase sempre ligados à vida cultural, em amplo sentido. A nota constante é uma combinação de grande liberdade de pensamento com uma visão aguda, às vezes azeda, noutras radicalmente cética, algo que em síntese se poderia chamar de uma perspectiva voltairiana. Não é acaso: seu pseudônimo é mesmo Voltaire de Sousa, e Marcelo traduziu o grande – ponha aí: o cético, libertário, original, mordaz – pensador francês. Ficcionista, professor universitário, Marcelo Coelho pertence ao mundo da elite culta paulista. De sua obra publicada em livros, gosto particularmente de um livro heterodoxo chamado Patópolis (editora Iluminuras, 2010). Com esse nome imediatamente associado à saga daqueles patos personagens de Disney, que povoaram a infância de nossa geração, Marcelo frequenta esse universo, que evoca, analisa, associa, relembra, descreve, sempre com controle discursivo seguro e sempre retornando a algum item concreto daquele mundo – que hoje talvez seja apenas um monte de papéis velhos sem leitor. E pensar que vivemos tão intensamente aquilo tudo! Por todos esses motivos, à sombra de uma amizade remota, busquei esta entrevista por escrito com o Marcelo. Creio que aqui temos, ao lado da apresentação de uma boa figura de nosso tempo, uma leitura – cética, libertária, original, mordaz – das coisas brasileiras de hoje. Luís Augusto Fischer Junho de 2020 Parêntese – Primeiro de tudo, conta da tua formação, por favor. Fizeste Ciências Sociais na USP, certo? O que é que tem nas CS da USP que gerou tanta gente interessante, em tantas gerações – para não falar dos velhíssimos das primeiras gerações (Candido, Florestan), gente como o Juca Kfouri, o Jorge Caldeira e tu. Sério: onde está esse segredo? Tens alguma tese para expor? Marcelo Coelho – Haha, ainda bem que você frisou o “sério” nessa pergunta… Como em todo lugar, havia muita gente desinteressante por lá, e que continuou desinteressante a vida toda. Obrigado por me colocar nessa companhia. A pergunta me surpreende muito. Primeiro, se você pegar uma faculdade pública qualquer (Arquitetura, Direito, Física) você vai encontrar pessoas que saíram do caminho profissional esperado e viraram, sei lá, artistas, políticos, intelectuais. O Chico Buarque acho que fez Arquitetura, por exemplo, não? O artista plástico Nuno Ramos fez Filosofia, e […]

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Marcelo Coelho é um cronista ativo e um jornalista eventual. Atua na Folha de S. Paulo há muitos anos, fazendo parte do Conselho Editorial daquele que é um dos três maiores e melhores jornais do país. Fez parte da geração que, a partir de 1984, transformou a Folha num dos veículos mais significativos da opinião pública brasileira (e uma voz internacional de não pouco peso), sob o comando de Otávio Frias Filho, recentemente falecido. Uma de suas tarefas foi a de editorialista, função que num veículo daquele porte envolve muito tato, muita capacidade de formulação escrita, muita visão de conjunto. Em episódios dramáticos, como a saga do impeachment de Dilma, Marcelo assume uma posição mais propriamente jornalística, reportando com qualidade os episódios sem perder a noção do todo. Em sua coluna semanal, passeia por temas variados, quase sempre ligados à vida cultural, em amplo sentido. A nota constante é uma combinação de grande liberdade de pensamento com uma visão aguda, às vezes azeda, noutras radicalmente cética, algo que em síntese se poderia chamar de uma perspectiva voltairiana. Não é acaso: seu pseudônimo é mesmo Voltaire de Sousa, e Marcelo traduziu o grande – ponha aí: o cético, libertário, original, mordaz – pensador francês. Ficcionista, professor universitário, Marcelo Coelho pertence ao mundo da elite culta paulista. De sua obra publicada em livros, gosto particularmente de um livro heterodoxo chamado Patópolis (editora Iluminuras, 2010). Com esse nome imediatamente associado à saga daqueles patos personagens de Disney, que povoaram a infância de nossa geração, Marcelo frequenta esse universo, que evoca, analisa, associa, relembra, descreve, sempre com controle discursivo seguro e sempre retornando a algum item concreto daquele mundo – que hoje talvez seja apenas um monte de papéis velhos sem leitor. E pensar que vivemos tão intensamente aquilo tudo! Por todos esses motivos, à sombra de uma amizade remota, busquei esta entrevista por escrito com o Marcelo. Creio que aqui temos, ao lado da apresentação de uma boa figura de nosso tempo, uma leitura – cética, libertária, original, mordaz – das coisas brasileiras de hoje. Luís Augusto Fischer Junho de 2020 Parêntese – Primeiro de tudo, conta da tua formação, por favor. Fizeste Ciências Sociais na USP, certo? O que é que tem nas CS da USP que gerou tanta gente interessante, em tantas gerações – para não falar dos velhíssimos das primeiras gerações (Candido, Florestan), gente como o Juca Kfouri, o Jorge Caldeira e tu. Sério: onde está esse segredo? Tens alguma tese para expor? Marcelo Coelho – Haha, ainda bem que você frisou o “sério” nessa pergunta… Como em todo lugar, havia muita gente desinteressante por lá, e que continuou desinteressante a vida toda. Obrigado por me colocar nessa companhia. A pergunta me surpreende muito. Primeiro, se você pegar uma faculdade pública qualquer (Arquitetura, Direito, Física) você vai encontrar pessoas que saíram do caminho profissional esperado e viraram, sei lá, artistas, políticos, intelectuais. O Chico Buarque acho que fez Arquitetura, por exemplo, não? O artista plástico Nuno Ramos fez Filosofia, e […]

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