Memória

A dor e a delícia de ser o que é

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A dor e a delícia de ser o que é

Com o cabelo já raspado pelo barbeiro, Jorge apareceu na nossa reunião diária com a assistente social. Falava bastante sobre a ansiedade que sentia pela expectativa de enfrentar a neurocirurgia no dia seguinte. Tinha pouco mais de 30 anos, mas parecia ter mais idade. O aspecto do rosto, especialmente os lábios e o nariz, era grosseiro, como se estivesse muito inchado. A testa era proeminente, e o queixo e as orelhas, assim como as mãos e os pés, pareciam ter tamanhos desproporcionais. Internado também na ala da Neurocirurgia em que eu estava, no Hospital de Clínicas em São Paulo, Jorge sofria de acromegalia, doença em que há hiperprodução do hormônio do crescimento. Um tumor benigno na hipófise – glândula localizada na base do crânio – causava esse aumento descontrolado dos seus ossos, músculos e órgãos internos. Quando Jorge falava, a voz era grave e rouca e a língua se sobressaía. Seu tórax também era aumentado. Costumava reclamar de dores de cabeça e nas articulações e contava ter substituído os sapatos por números maiores. Não usava mais alianças nem anéis, pois os dedos não paravam de engrossar.

Ao final da reunião, foi a vez de Alice falar ao grupo. Apesar de estar há poucos dias na nossa ala, havia se entrosado rapidamente com os outros internos. Descendente de imigrantes japoneses, estava com 30 anos e era moradora da zona rural de São Paulo. Tinha várias convulsões ao dia e lapsos de memória que dificultavam muito a sua rotina e até as conversas com as outras pessoas. Contou que, pelo exame de ressonância magnética, os médicos haviam identificado uma neurocisticercose: parasitas taenia solium haviam chegado ao seu cérebro e formado cistos. Provavelmente havia contraído a doença após ter comido carne de porco contaminada.

Dois dias depois, Alice era levada ao bloco cirúrgico. A proliferação das larvas do parasita no cérebro havia agravado a sua saúde, tornando urgente a neurocirurgia. Os médicos tentariam ao menos aliviar a sua epilepsia diminuindo o número de convulsões. Após desejarmos boa sorte a ela, ficamos observando Alice e a atendente ultrapassarem a porta ao final do corredor da enfermaria, enquanto, no sentido contrário, um médico entrava acompanhado de um casal e um menino de 6 anos. A conversa dos visitantes acontecia à distância, mas a mãe da criança, percebendo minha curiosidade, se aproximou. Apresentações feitas, perguntou por que eu estava internado naquele bloco. Falei um pouco sobre minha epilepsia e a espera pela neurocirurgia, e ela contou que o filho, Lucas, tinha muitas crises diariamente e precisaria ficar alguns dias internado conosco. Ela e o marido estavam preocupados, no entanto, porque não poderiam ficar com Lucas o tempo todo durante a internação e me pediu que, se possível, ficasse atento ao menino. Procurei, então, tranquilizá-la, garantindo que todos ali eram muito solidários e cuidariam bem da criança. No momento de ir embora, o casal, bastante emocionado, se despediu demoradamente do filho, deixando Lucas com uma atendente. A cena me comoveu, pois, se para adultos a situação era muito difícil, mais complicada ainda seria para uma criança, longe dos pais e sozinha no hospital.

Alice

Enquanto tentávamos saber notícias sobre Alice, reencontrei Jorge. Em recuperação da sua cirurgia, escancarava o sorriso. Com a remoção do tumor na hipófise, os ossos rapidamente diminuíam ao tamanho normal e, sem as deformações, ganhava nova aparência. Era impressionante ver seu corpo e sua fisionomia normalizarem depois de tanto tempo de dores e inchaços. Parecia outra pessoa, inclusive pela alegria que fazia questão de demonstrar.

[Continua...]

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