Memória

Esconder a epilepsia, como tentava Machado de Assis

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Esconder a epilepsia, como tentava Machado de Assis

“4 de setembro. A ausência em casa do Garnier, onde bebi água e Lansac me deu sais a cheirar. Era de tarde. Fizera-me sentar, e eu respondi em português ao que ele me dizia em francês, saí, vim a casa, jantei, e saí para a estrada de ferro, onde me despedi do Lauro Müller, que ia a Minas./…/ Contei isso ao médico (Miguel Couto), dizendo-lhe que mediaram, entre o fenômeno e a crise que tive no jornal, 22 dias.” 

Nesta anotação, o escritor Machado de Assis (1839-1908) escreve sobre uma de suas crises de epilepsia. Embora fizesse alusões ao transtorno em suas obras, nunca utilizava as palavras “epilepsia” e “epilético”. Relatos indicam que Machado sempre tentou esconder sua doença, mas as experiências pessoais do escritor com a epilepsia certamente estão muito presentes na sua ficção. Em Memórias póstumas de Brás Cubas, por exemplo, descreve características do que poderiam ser automatismos das crises. Na época em que viveu, a síndrome gerava ainda mais estigmas do que agora, e era comum que as pessoas com epilepsia fossem consideradas doentes mentais, isoladas do convívio social e desaconselhadas a terem filhos.

A esposa, Carolina, só veio a saber da epilepsia de Machado depois que, já casados, ele teve uma convulsão e contou a ela que, na infância, havia tido “umas coisas esquisitas”. Especialistas acreditam que o escritor sofresse crises parciais complexas (ausências), por epilepsia do lobo temporal direito. “Meu querido amigo, hoje à tarde, reli uma página da biografia do Flaubert; achei a mesma solidão e tristeza e até o mesmo mal, como sabe, o outro…”, escreveu ao amigo Mário de Alencar em agosto de 1908. Em carta anterior, de fevereiro, Machado já comentava: “A minha saúde não vai mal, exceto o que lhe direi adiante, e não é a “ausência” que senti ontem, esta foi rápida, mas tão completa que não me entendi ao tornar dela. Daí a pouco entendi tudo, e deixei-me estar”. O escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880), a quem Machado se refere na carta, também tinha epilepsia e, em certo momento, se isolou socialmente em função da doença.

[Continua...]

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