Memória

Gurias, que saudade da Lanchera!

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Gurias, que saudade da Lanchera!

Gurias! Não precisamos ficar lembrando de tudo o que aconteceu no Bom Fim nas décadas de 80 e 90. Isso já está bem registrado em livros, reportagens, filmes, documentários e na memória de muita gente que viveu este tempo. Vou falar mais especificamente de um dos lugares deste cenário: a Lancheria do Parque, ali na Osvaldo, que ainda está entre nós no mesmo endereço. 

Lancheria; que as mais íntimas e amantes do lugar — e as bixas eram bem íntimas — chamavam de Lanchera. Pois bem, estamos frequentando o local desde meados dos anos 80 do século passado. 

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Gurias! Não precisamos ficar lembrando de tudo o que aconteceu no Bom Fim nas décadas de 80 e 90. Isso já está bem registrado em livros, reportagens, filmes, documentários e na memória de muita gente que viveu este tempo. Vou falar mais especificamente de um dos lugares deste cenário: a Lancheria do Parque, ali na Osvaldo, que ainda está entre nós no mesmo endereço. 

Lancheria; que as mais íntimas e amantes do lugar — e as bixas eram bem íntimas — chamavam de Lanchera. Pois bem, estamos frequentando o local desde meados dos anos 80 do século passado. 

Depois da reabertura da Lanchera imposta pela pandemia, voltei ao local e me veio as lembranças do que vi e vivi neste local a partir de um olhar que inclui as bixas fazendo parte deste universo único da cidade, acompanhadas de outras faunas criando um universo peculiar….

Quando morei em Porto em 1985, eu dava algumas bandas por ali. Mas, nesta época, eu não era uma bixa tão atinada1 e ia na Lanchera mais para uma ceva e para comer um bauru prensado sem tomate. A partir de 1989, quando voltei a morar em Porto depois de um interregno em Pelotas, eu ia lá depois de um bom jogo de futebol com os malandros na Redenção, pra beber um suco que, naquela época, ainda era servido num belo copo de vidro de milk shake, e não nos atuais, de plástico. A jarra do liquidificador, porém, continua a mesma.

No almoço, aquele bufê tradicional. Já à noite, ia pra fazer a social e conversar com os garçons sempre atentos a um bom fuxico, e para tomar aquela ceva, sempre bem gelada. Entre tantas coisas, tinha que fazer a linha consultoria sobre assuntos que envolviam as bixas e assemelhados, já que os garçons e alguns clientes curiosos costumeiramente me acionavam para a temática. 

Futebol era um dos assuntos prediletos. Além de gremista, eu jogava direto ali na Redenção. Entre tantas barcas2, jogava com os garçons na quadra de areia perto do parquinho das crianças, chamado pela gurizada de gaiola” — depois que a Lancheria fechava. 

Já morando na Vieira de Castro junto à sede do Nuances, a partir de 1994, os jogos de futebol na areia, sete ou campo rolavam com um povo da pesada. Alguns destes companheiros de bola pude encontrar no Presídio Central, que visitei por algumas vezes por motivos profissionais. A maioria já subiu3

Os garçons, como sabemos, foram mudando com o tempo. Mas tem os confirmados como o Vampeta, o Beá, o Adilar, o Ildo — que está em carreira solo com seu próprio negócio, como o Paulinho —, mais o Mauro, o Volmir, o Fachini, o Gerson… Este, com uma delicadeza ímpar, te atendia quase dando uma “panada” na tua cara, pois a rudeza, e o pano de prato sobre o braço, eram seus cartões de visita. 

Nesta época, o povo das bandas de rock ia ali direto, passando de mesa em mesa, divulgando os shows e entregando mosquitinhos bem simples para os e as clientes. 

Imaginem a Lanchera na época em que podia fumar lá dentro! E o povo fumava muito! Um lugar sem janelas, com a comida e a bebida misturadas à fumaça — e eu achava bem mais interessantes que agora.

Na frente da Lanchera também se respirava o ambiente. Muitos frequentadores ficavam na calçada tomando uma boa ceva, um suco, e uns fumando maconha e conversando. O Fachini, o mais cricri dos garçons, sempre ia lá para espantar os maconheiros que fumavam próximo à porta, pois o cheiro entrava no bar. Afinal de contas, muitos dos clientes eram chinelos mas o lugar era de respeito. Inclusive, aos sábados e domingos ao meio-dia, tinha a famosa televisão de cachorro, com galetos e polentas à venda e o Fachini era o responsável pelo atendimento.

As mesas, na época, eram de fórmica amarela, as cadeiras de plástico e as paredes com uma base de madeira dando um ar de restaurante. Aos domingos aquele povo riponga tomava conta da Lanchera, com carrinhos de criança e tudo o que tinham direito. Muitos eram artesãos e vendiam seus trabalhos pelo Bonfa das antigas, como a amiga Adri.

Maythê, a melhor amiga dos garçons, quando lá entrava já dava um grito anunciando sua chegada, sentindo-se única. Dava, a pedido do Adilar —e ainda dá —, seu showzinho, mostrando seus lindos apetis4 pro povo quando se despede ao lado do caixa. Por falar em Maythê, não podemos esquecer de uma das bixas mais poderosas da cidade que já partiu e virou tema de livro, documentário, reportagens: a Nêga Lu, amiga quase íntima da Maythê. Elas duas, na época, eram figuras carimbadas na Lanchera. E eu junto, pra ajudar no fervo. 

A Lu pegava o ônibus T5 e chegava do Menino Deus, onde morava, com um ar de enjoada. Entrava e já olhava pra dentro do balcão para ver se enxergava aquele pernil de carne de porco que na época os gringos deixavam ao lado do monte de laranjas, que eram espremidas no muque pelos bofes. Ela adorava carne de porco e pedia um pedaço pro Ildo, pro Beá, ou pro Fachini. 

Lu, sempre com um turbante na cabeça e seu bom collant, atenta aos bofes que circulavam pelo corredor, tirava uma casquinha, a sua especialidade. Tinha preferência pelos branquelos de cabelos compridos mas, no aperto, atacava o mais próximo.

Como muito poucas, Maythê e Lu tinham alguns privilégios. E olha que com aqueles gringos não é fácil ganhar um mimo. Depois de algumas cevas, elas — que geralmente não pagavam nada pois sempre tinha alguma amiga mais rica na volta — pussuquiavam5 um drink reforçado de agrado. 

O Beá, no meio dos múltiplos pedidos que vinham do salão, largava a graxa da chapa, pegava um copo apropriado e misturava Drurys, Campari, vodca, vermute e outros otins fortes6 e alcançava para as duas. Depois de prontas, elas iam para outros inferninhos… Mas é claro que o Ocidente era reduto de gala para elas e a Lu, sabendo disso, lá chegava para dar seu close.

Não posso reclamar pois, no dia do meu níver, o Beá me presenteava com uma Heineken bem gelada que ele próprio, com aqueles braços de estivador, fazia questão de me servir. Meus papos com o Beá e com os garçons era basicamente de putaria e futebol, dois assuntos essenciais na vida das mais atinadas.

Outra bixa das antigas que na época frequentava o Bonfa e dava uma passada na Lanchera é a Mimi. Gremista fanática, foi integrante da Coligay e estava sempre acompanhada com seu pet, o Flowers, que quando veio a falecer teve anúncio na Zero Hora e tudo, como lembra o próprio Beá. Ou seja, já naquela época os pets eram mais gente do que a gente.

Nesta época a Lanchera era frequentada por tribos bem ecléticas. Para muitos era um lugar para fazer um esquenta para o Ocidente, que recebia o povo descolado da cidade. E, como bem sabemos, não existe povo descolado sem bixa no meio. O horário para fechamento da Lanchera seguia até quando tinha algum bebum por lá… E isto ia até às três ou quatro da madruga. Nessa hora, os garçons iam colocando as cadeiras pra cima das mesas com aquela delicadeza de final de noite, o que vinha acompanhado de uma mangueira de água já com muito sabão e vassoura para lavar tudo. A bixa já ia pro caixa com os pés no meio da água!

As amapoas7 — sempre com uma produção babado nos oxós8 —passavam na Lancheira e os bofes idem, antes de fecharem a noitada no Oci. Logo ali perto, não podemos esquecer que o cine Baltimore tinha uma vasta programação que atraía muito mais gente, além do clássico Bar do João e outros. Os traficantes eram destaque na Osvaldo Aranha, correndo de um lado para outro, atacando os carros para oferecer a erva da boa.

É claro que entre tantas bixas que por ali passavam algumas batiam ponto e já faziam parte da Lanchera. Uma das mais inquietas e briguentas foi a saudosa Claudiona, que trabalhava num salão que ficava ao lado da Lanchera. Fumava, se drogava, bebia e gostava de circular na volta do caixa e na calçada, sempre interagindo e discutindo com alguém. O Fachini era seu garçom predileto para discutir alguma coisa. As mais íntimas, como ela, faziam a linha amigas e “inimigas”, o que era uma das coisas comuns entre elas e os garçons.

Claudiona, mesmo não sendo mãe de santo, era daquelas bixas que tinha um harém de outras bixinhas mais novinhas, conhecidas como as filhas da Claudiona, pois estavam sempre a sua volta. As filhas eram abusadas como ela, pois, se não fosse assim, não seriam filhas da Claudiona. Elas entravam na Lanchera sempre numa produção babado e iam caminhando até o final do corredor, até o banheiro, com passos rápidos que só algumas conseguem, desfilando por entre as mesas. Cumprimentavam rapidamente as amigas que queriam, sempre com a cabeça levantada virada para a direita, olhando para os espelhos, como se estivessem numa passarela. Quando uma estava voltando, lá ia outra para dar seu close. Na realidade, para elas o corredor era uma passarela.

Fachini lembra de quando ainda era um gringo envergonhado recém chegado do interior e as bixas ficaram sabendo que ele estava de aniversário e puxaram um “Parabéns pra você”: a Lanchera veio abaixo! Todo mundo começou a cantar, e o gringo morreu de vergonha. Na época, cenas como essa não eram raridade no local.

Outra bixa super entrosada e amiga dos garçons era a Gígio. Atrevida, ficava no balcão num bom tricô, fuxicando com os garçons. Beá, o seu predileto, sempre curioso palas novidades das putarias que elas faziam e contavam, se divertia com os causos do mundo sexual das bixas. Era um dos primeiros a se aproximar da bixa, que na hora, com um sorriso malicioso, soltava o verbo. Agora a Gígio mora numa praia phyna do litoral gaúcho: Pinhal. 

Eu adoro a memória da cena: naquela correria toda, os garçons segurando um pão aberto numa mão ao mesmo tempo que ouviam vários pedidos gritados, vindos do salão, junto daquele barulho do espremedor de laranja, e ainda ouvindo histórias de orgias das bonitas.

Régis — outra bixa que batia ponto ali — era peluqueira e costumava deixar as clientes na mão correndo atrás de bofes e droga, suas especialidades. Era frequentadora e muito querida pelo povo do local. Depois da Lanchera, já pronta, acabava a noite no famoso Papillon. Para quem conheceu, não precisa dizer mais nada… 

Smihá — que ainda é frequentadora assídua — também tem uma presença de destaque na Lanchera, sempre se deliciando com a ajeum9 servido no local. Smihá é daquelas clientes que têm créditos com os bofes do local. Como uma boa pelotense, faz a linha educada.

Outra amiga que estava sempre ali muito bem vestida pois tinha bom gosto era a Vinícius, que já partiu. Também fazia seu desfile pelo corredor, aproveitando os espelhos. Mas quando já estava no otim forte era daquelas bixas incomodativas e afrontosas. Lembro de uma cena em que o Vampeta tirou a bixa quase no colo e botou pra fora da Lanchera

Por sinal, o Vampeta era atinado para os clientes chinelos que saíam sem pagar —passando direto pelo caixa sem apresentar o clássico papelzinho da conta — e ia atrás dos golpistas já lá na Osvaldo. Quando dava um bafo mais forte com algum cliente golpista os garçons se reuniam em matilha para enfrentar a situação. Uns largavam seu posto e iam pra porta da Lancheira. O único que não se movia era o que estava no caixa. 

Cabe salientar que não eram só as bixas que desfilavam olhando para os espelhos: os bofes da luta livre e outros esportes corpo a corpo, quando iam no banheiro, também adoravam dar uma espiada no espelho para conferir seu corpítcho. Nós, que não éramos lesadas, aproveitávamos para demarcar posição e dávamos em cima dos bofes. Eles faziam a linha fitness, tomavam suco, e nós a linha álcool.

Para toda bixa atinada, qualquer lugar e hora pode ser de caçação. Um dos meus lugares preferidos era ficar sentado nos bancos junto ao balcão, pois eles rodavam e se podia olhar melhor à volta, tendo assim um amplo raio de visão sobre tudo o que estava acontecendo no local. Outra cena comum é quando alguma bixa entra acompanhada de algum parceiro ocasional que arrumou na noite para desfrutar do cardápio da Lancheria. 

Um dos momentos que as bixas ficavam ouriçadas é quando chegava um garçom novo vindo do interior, ainda com uma certa ingenuidade em relação ao mundo das bixas. O Beá, o Vampeta ou o Fachini sabendo que nós iríamos dar pressão no bofe, criavam uma situação na qual nós, com uma certa malícia, interpelávamos o bofe, como se fosse um batizado neste universo peculiar. 

Quando algumas bixas entravam na Lanchera — e entravam ali “no armário” —, o Beá e os outros garçons vinham correndo me consultar sobre qual a origem sexual dela. Muitas que frequentavam também faziam a linha comportada, indecisa, recatada. Algumas com pedigree, e outras bagaceiras mesmo… 

Travestis, trans e sapatas também marcavam presença em qualquer horário. Na madruga — pois a Lancheria abre às 6h — vinha aquela velharia que se misturava aos boêmios que tinham passado a noite na festa e iam ali pra tomar um café ou um suco. 

Durante o dia, principalmente no horário do almoço, os bofes das obras e os trabalhadores uniformizados dão um brilho especial ao lugar. À noite já é outro astral, mesmo que os públicos sejam misturados e diversos, pois já tem um clima mais da boemia.

Gurias! A Lanchera continua fiel ao seu propósito e com aquele maravilhoso atendimento. Mas não tem como deixar de registrar com certa nostalgia os desdobramentos do processo de gentrificação que o bairro sofreu por pressão imobiliária e moralista. No final dos anos 90 a Lanchera também foi atingida e aquele tempo glorioso ficou só na memória mesmo. 

A gente se encontra lá na Lanchera!

¹Atinada – Bixa esperta, atenta ao que está rolando na volta.
2Barca – termo usado pela galera de futebol para se referir a um time.
3Partiu dessa para uma melhor!
4Apetis – no bate – língua das bixas – significa seios, peito.
5Pussuquiavam – pediam de graça.
 6Otim forte – no bate, significa bebida de álcool. Estar no otim forte significa estar bêbada.
7Amapoa – mulher.
8Oxós – significa roupas, e neste caso estar bem vestida.
9Ajeum – significa comida


Célio Golin – Militante do Nuances – grupo pela livre expressão sexual. Mais uma bixa incomodativa…

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