Memória

Já pensou em trabalhar num bar?

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Já pensou em trabalhar num bar?

Um dia estava em casa fumando um, no pátio, embaixo da parreira. Quando escutei meu irmão conversando com dois amigos sobre irem num bar chamado garagem, entre um pega e outro um deles falou:

“A gente pega o último busão e chega lá uma hora antes do show do ‘Red Hot’, se pá a gente ainda pode ver as gurias que ficam na rua”. Pensei: que lugar interessante, tem tudo que curto no mesmo lugar.

Já tinha escutado sobre bandas de garagem, achei que um bar na garagem poderia ser algo simples e não muito caro, já que a gente era tudo chinelão. Colei no meu irmão e seus amigos. Um deles era o Cleber, trabalhava numa farmácia e conseguia drogas legalizadas, como um tal de “Colírio Cicloplégico”, o negócio era foda, cinco gotas e tudo ficava muito slow. 

Pegamos o último ônibus, na segunda parada depois da nossa subiram mais três amigos do meu irmão. 

Eles estavam indo pra Osvaldo, era um sábado à noite. Uma noite quente e o subúrbio invadindo a capital. Passamos na frente do bar, mas estava fechado. 

Ficamos meio sem saber o que fazer. Foi aí que um dos Osvaldeiros disse: “Vamos tomar uma ceva ali no Bambus!”.

Chegamos naquele lugar velho e maltratado, cadeiras de formiga e baratas saindo da cozinha como garçons de um restaurante abandonado. O cara que veio nos atender parecia que estava de mau humor. Seu nome era Sid. Pedimos uma cerveja, o Sid olhou demoradamente pra mesa onde tinha seis manos sentados e perguntou: “Ceis vão querer copo ou canudo?”.

Acredito que fui o único que entendeu a ironia, apesar de naquela época ainda não saber a definição da palavra ironia.

Um dos amigos do meu irmão até curtiu a ideia de tomar ceva de canudo, contou pra gente que quando ele estava na praia de Pinhal, com as tias dele, escutou de um namorado de uma das tias que tomar cerveja de colherinha deixava as pintas loucas bem mais rápido. Aqui gostaria de ressaltar que naquela época volta e meia percebia que algumas pessoas realmente não conseguiam conviver com a lucidez, como se a realidade fosse tão cruel que a loucura seria a solução mais próxima pra suportar a convivência.

Pedimos seis copos pra tomar uma ceva de garrafa, deu meio copo pra cada um, ridículo, mas era o que a gente podia fazer. 

Mano, a ceva na época custava um real e cinquenta centavos, na Lancheria do Parque custava um e setenta, o mesmo preço do Garagem e de quase todos os bares que comecei a frequentar depois desse dia.

Quando terminei de beber, uns quatro minutos depois de sentar e pedir uma ceva, resolvi fumar um cigarro na frente do bar. 

Percebi que havia uma fila pra entrar no Garagem. Avisei o resto da turma e fomos pra fila também. O ingresso era cinco pila e mesmo assim tivemos dificuldade em pagar, pois estávamos arriscando gastar o dinheiro da passagem da volta pra Canoas.

Quando passei pelo portão estranhei o fato de ter uma escadaria, “mas não é uma garagem, caralho!”, pensei. Quando entramos era um velho casarão cheio de portas e salas amplas, mesas de metal velhas e enferrujadas, corredores longos e o chão grudento de ceva velha da noite anterior, um banheiro com uma banheira cheia de mijo e um balcão de madeira comprido e grudento. 

As paredes eram finas e, assim como o chão, parecia que um sopro mais forte do lobo mau poderia colocar tudo abaixo (pensei que tudo aquilo viria abaixo por anos, mas nunca aconteceu). 

(Fora a parte do teto que ficava em cima do palco: essa caiu numa passagem de som, de uma banda chamada Primavera nos Dentes. A banda não era ruim a ponto de cair o teto, mas não era tão boa a ponto de impedir que o teto caísse).

No palco a Borboleta Negra, banda que foi a base da Comunidade Nin-Jtisu, só que com o Tom nos vocais. Um showzaço, lembro que a galera pulava tanto que o chão realmente parecia que iria cair, mas isso não foi nada. O Wilson, que era o técnico de som, tava mais preocupado com o P.A. que poderia cair e dar um prejuízo enorme. Então no intervalo de uma música ele pegou um microfone e pediu educadamente: “Galera, vamos evitar subir no palco, obrigado!” A galera caiu na risada e na próxima música tudo de novo, quebradeira total. E mais uma vez o Wilson pegou o microfone e mais uma vez educadamente pediu: “Porra, gurizada, vamos parar se não o show acaba agora!”. A galera não deu a mínima bola, eu estava bem na frente do palco, era fã de Red Hot e não gastei todo o dinheiro que tinha pra ver meio show. 

Quando percebi que não teria jeito, num ato de coragem subi no palco e comecei a arremessar qualquer um que tentasse “poguear” no palco. 

O show foi perfeito, curti aquilo tudo de cima do palco, ao final do show um cabeludo ruivo me chamou e disse: “Ô carinha, tô precisando de um cara que nem tu pra trabalhar aqui, a grana é curta, mas tenho certeza que tu vai adorar isso daqui, já pensou num trabalhar num bar?” Na mesma hora percebi que estava surdo por causa do P.A., mas aceitei e assim conheci o mundo sem sair do lugar.

Ontem à tarde, caminhando com o Chico, foi triste passar na frente do Garagem e perceber que a cultura está ficando cada dia mais no passado. Perceber que a cidade está abandonando estes centros culturais. Lugares que tinham uma cultura orgânica com bandas, performances, poesia, exposições, cinema, teatro e literatura. Tudo isso abrigado em velhos casarões. 

Sei que muitos me chamarão de saudosista, antigo ou velho demais. Pra vocês que se acham moderninhos, gostaria de lembrar que isso não tem a ver com a idade, mas com o conteúdo. 

Sem generalizar as gerações, mas sei que muitos jovens de hoje preferem djs do que bandas e está tudo bem. Sou antigo e gosto da forma que a minha geração se divertia. 

Sei que erramos muito no passado, principalmente em relação ao preconceito, mas quem viveu o Garagem Hermética tem ciência que aquele lugar, na medida do possível, foi um templo que aceitou tudo e todos. Como sei disso? 

Fui o porteiro do inferno.


Antonio Padeiro – Cria da Vila Cerne, subúrbio da grande Porto Alegre. Ganhou o apelido de Padeiro nos tempos em que vendia pão na vila que morava. Se aventurou no mundo da arte mesmo sem saber qual era o seu papel. Passou pela música, teatro, cinema e televisão, mas por gostar de ler e contar histórias terminou se envolvendo com a literatura. Hoje, graduado em Letras, divide seu tempo entre suas duas paixões: a escrita e os documentários. Duas belas formas de contar uma história.

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