Memória

Lugares da Classe Trabalhadora em Porto Alegre 10: Campo da Rua Veador Porto

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Lugares da Classe Trabalhadora em Porto Alegre 10: Campo da Rua Veador Porto (Foto: Arquivo pessoal)

O futebol começou a ser praticado em Porto Alegre em 1903, com uma exibição do Sport Club Rio Grande, que havia sido fundado apena três anos antes, em 1900. Em um primeiro momento o novo esporte atraiu principalmente a atenção dos jovens imigrantes da classe média e da burguesia, mas logo ele se tornou mais popular e passou a atrair a atenção da classe trabalhadora. Diferente de outros esportes praticados na época, como o ciclismo, a regata ou o hipismo, o futebol não necessitava de estruturas complexas ou muito caras, dependendo muito mais do engajamento coletivo daqueles que o praticavam do que dos custos do equipamento. Dessa forma, em setembro de 1909, surgiu o primeiro clube vinculado especificamente ao proletariado, o Centro Sportivo Operário, de cores vermelha e branca, vinculado à Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS). O seu primeiro jogo ocorreu em janeiro de 1910, contra o Riograndense, um clube surgido na comunidade negra de Porto Alegre. Nos anos seguintes, as duas equipes seriam impedidas de entrar na Liga Metropolitana de Futebol, o que reforça o caráter excludente e elitista das principais equipes da capital gaúcha naquele momento. 



O Centro Sportivo Operário estava bastante vinculado à FORGS e aos socialistas; surgiu logo depois o Fussball Club Eliseu Reclus, organizado pelos anarquistas. As duas agremiações acabaram desaparecendo em pouco tempo, mas o surgimento de clubes vinculados às empresas ou categorias se expandiu durante as décadas seguintes, principalmente durante os anos 1920, quando surgiram times como Sport Club Correio do Povo (jornal), o Bromberg Football Club (casa comercial), o Alcaraz Foot Ball Club (estaleiro), o Grêmio Sportivo Gerdau (metalúrgica) e o Bloco Sportivo Imperial (cinema). Também surgiram campeonatos organizados por determinados ramos profissionais, como a liga bancária e a ferroviária, além de uma liga de clubes operários e populares organizada pelo Partido Comunista, a Liga de Desportes Proletários. 

Esses clubes disputavam seus jogos em dezenas de campos existentes nos arrabaldes de Porto Alegre, principalmente em regiões como o Navegantes, o Menino Deus e o Partenon. Esse último bairro era favorecido pelo processo de expansão urbana recente, ainda existindo muitos terrenos baldios e também pela geografia, pois ele se alonga pela várzea do Arroio Dilúvio no sopé dos morros. Nessa região, um dos mais importantes campos de futebol ficava na rua Veador Porto, entre a rua São Manoel e a São Luiz; ele era utilizado pelo Ypiranga, mas também se destacava por abrigar jogos de diferentes equipes de trabalhadores. Já em 1928, ele era usado como campo de treino pela equipe bancária do Sudameris e no ano seguinte ele sediou uma das partidas da Liga de Desportes Proletários. A partir desse ano, o Campo da rua Veador Porto passou a ser o local de treinos e de jogos do Athlético Bancário Club, equipe fundada em 1927 para reunir os funcionários dos bancos, que disputou os Campeonatos Citadinos de 1929, 1930 e 1931. Com o desaparecimento do Bancário, o Campo da rua Veador Porto passou a ser utilizado pelo Grêmio Esportivo Estivadores, que era vinculado ao sindicato da categoria e que tinha uma das melhores equipes do futebol varzeano de Porto Alegre; em 1935, por exemplo, os estivadores foram campeões do Torneio Eurico Lara, que reuniu times de várias regiões da capital. No final da década, outro time operário também passou a jogar na rua Veador Porto: o Grêmio Esportivo Geral de Indústria, dos operários da fábrica de fogões localizada a algumas quadras dali. 

Os anos se passaram e a região onde o campo estava inserido mudou bastante. A fábrica de fogões, cuja equipe jogava naquele local, já não existe mais, e o antigo campo de futebol atualmente abriga a Escola Estadual Apeles Porto Alegre. Apesar das grandes mudanças ocorridas, ainda existem alguns vestígios do passado esportivo, como nos velhos muros internos que cercam a escola, que outrora serviram para delimitar o espaço de jogo e os lugares para a assistência. Não deixa de ser interessante pensar que os alunos e alunas que se divertem nas horas de recreio jogando bola, correm pelos mesmos caminhos que os operários esportistas de quase cem anos atrás. 

Com esse texto encerramos nossa série sobre os lugares da classe trabalhadora na história de Porto Alegre.

  • Além de acompanhar os textos aqui publicados, visitem e curtam a página de facebook dos Caminhos Operários em Porto Alegre, para saber um pouco mais sobre essa história. 

Frederico Bartz é mestre e doutor em história pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e trabalha como técnico em assuntos educacionais nessa mesma universidade, onde coordena o curso de extensão Caminhos Operários em Porto Alegre.

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