Memória

Lugares da Classe Trabalhadora em Porto Alegre 7: Sindicato dos Estivadores

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Lugares da Classe Trabalhadora em Porto Alegre 7: Sindicato dos Estivadores

O porto de Porto Alegre sempre foi um lugar importante para a concentração e organização de trabalhadores. A cidade nasceu a partir do estabelecimento de uma povoação às margens do Rio Guaíba, e esse curso d’água sempre representou um elemento importante para o crescimento econômico da cidade. Essa presença era tão importante que uma das principais ruas da capital, a avenida Sete de Setembro, teve como seu primeiro nome “beco dos Marinheiros”. Existem relatos abundantes durante o século XIX e XX registrando a presença de trabalhadores portuários, escravizados e livres, percorrendo as ruas da região central da cidade. Uma das categorias mais importantes deste setor era a dos trabalhadores que atuavam na carga e descarga das mercadorias, os estivadores. 

Os trabalhadores da estiva de Porto Alegre começaram a se organizar em 1909, criando a União dos Estivadores. A associação se reunia na sede da Federação Operária, mas em 1912 a União instalou uma sede provisória na rua João Manoel e depois na rua General Canabarro, mostrando a importância da região central para essa categoria. Essa primeira entidade acabou sendo dissolvida e no ano de 1919 se constituiu em Porto Alegre uma Sucursal da União dos Operários Estivadores (UOE) do Rio de Janeiro, que se desligou de sua matriz em 1922. 

Em 1924, a UOE de Porto Alegre tinha sua sede na rua Avaí e em 1925 ela estava definitivamente instalada na Rua 3 de Novembro, também conhecida como beco do Oitavo e posteriormente renomeada como rua André da Rocha. Essa região era parte da Cidade Baixa, bairro de trabalhadores e trabalhadoras com forte presença da comunidade negra; próximo dessas duas ruas (Avaí e 3 de Novembro) se localizavam os batuques da Mãe Rita durante o século XIX, evidenciando o caráter de território negro dessa região. Entre os estivadores e demais trabalhadores do Porto, a presença de operários negros era muito forte, evidenciando que a escolha dessa área da cidade não era apenas uma coincidência.  

Em janeiro de 1925, durante a Presidência de Antônio Cândido dos Santos, foram aprovados os estatutos da entidade, que tinham entre suas finalidades organizar a categoria, fornecer instrução e auxílio, além de intervir junto às empresas de navegação para conseguir contratos e melhores condições de trabalho para seus associados. Através dos jornais diários podemos conhecer alguns nomes dos dirigentes da associação, como Manoel Soares Rodrigues, Olívio de Oliveira Vianna, Arthur Campos dos Santos e Omar Conceição.

Em maio de 1928, a UOE inaugurou seu novo edifício, no mesmo endereço, na rua 3 de Novembro, n.282. Nesse local os estivadores transformaram sua União em Sindicato durante a década seguinte; ali também ocorreu um dos primeiros movimentos de reorganização da classe trabalhadora da capital gaúcha depois da Revolução de 1930, com a criação do Conselho Consultivo dos Trabalhadores de Porto Alegre, com um representante de cada entidade, em setembro de 1931. 

Durante os anos 1950, foi doado ao Sindicato um terreno na avenida Sepúlveda, esquina com a Avenida Mauá, ao lado da Alfândega, para a construção de um abrigo. Essa doação foi confirmada nos anos seguintes para a construção de uma nova sede para a entidade. Em 1968, existem novas informações confirmando essa doação, mas posteriormente, ainda durante a Ditadura Militar, o terreno foi retomado pelo Governo Federal, sendo o que hoje abriga o Sistema Nacional de Emprego (SINE) em Porto Alegre. Alguns associados afirmam que essa perda se deveu a questões políticas, por conta da oposição ao regime ditatorial. Dessa forma, o Sindicato dos Estivadores permaneceu em seu antigo endereço, sendo o prédio da Rua André da Rocha atualmente a sede sindical mais longeva da capital.

Na próxima edição dessa série vamos falar sobre a Livraria Internacional, na avenida Voluntários da Pátria, mais um lugar de memória operária na capital gaúcha.

  • Além de acompanhar os textos aqui publicados, visitem e curtam a página de facebook dos Caminhos Operários em Porto Alegre, para saber um pouco mais sobre essa história. 

Frederico Bartz é mestre e doutor em história pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e trabalha como técnico em assuntos educacionais nessa mesma universidade, onde coordena o curso de extensão Caminhos Operários em Porto Alegre.

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