Memória

Lugares da Classe Trabalhadora em Porto Alegre 9: Casa de Josef Winge

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Lugares da Classe Trabalhadora em Porto Alegre 9: Casa de Josef Winge Casa de Josef Winge, em 2022 (Arquivo pessoal)

As origens do bairro Tristeza remontam ao início da colonização portuguesa, quando foi doada uma sesmaria para Dionísio Mendes, ainda no século XVIII. No ano de 1791, Dionísio Mendes morreu, e parte de sua fazenda ficou para José da Silva Guimarães, que tinha como apelido José Tristeza (o que deu nome ao bairro). Entre o final do século XVIII e durante o século XIX, foram criadas charqueadas e olarias à beira do Guaíba, em que trabalhavam homens e mulheres escravizados de origem africana. 

A partir de 1890, com a instalação da Hospedaria dos Imigrantes no Cristal, muitos recém-chegados, principalmente de origem italiana, se estabeleceram como camponeses nessa região da cidade, passando a abastecer Porto Alegre com sua produção de alimentos. Nesse mesmo período também começaram a ser exploradas as pedreiras dos morros que cercam a Tristeza. Em outubro de 1895, foi inaugurado a linha que ia do Riacho até a Ponta do Dionísio (Vila Assunção), depois estendida até a praça da Tristeza e a Pedra Redonda. A linha ferroviária servia para transportar pedras, mas também trazia um vagão de passageiros, o que foi fundamental para o crescimento da população local.

O arrabalde da Tristeza era um dos principais núcleos rurais de Porto Alegre. Sua população tinha origens diversas e se dedicava a variados tipos de trabalho, como a extração de pedras, o trabalho em pequenas fábricas e a produção de frutas e verduras. Outro elemento importante era a vida associativa vinculada ao trabalho: de modo geral, associamos as organizações de classe ao trabalho urbano, mas no caso da Tristeza associações de trabalhadores rurais existiram desde o início do século XX. 

Um dos principais incentivadores desse movimento foi Josef Winge, um imigrante alemão que nasceu na Silésia, uma província do reino da Prússia, em 1841, vindo para o Rio Grande do Sul em 1884. No ano seguinte, Winge mudou-se para Porto Alegre, estabelecendo-se no arrabalde da Tristeza, onde começou a trabalhar com pecuária e com o plantio de árvores frutíferas. Ao longo dos anos, Josef Winge se destacou pelo esforço em desenvolver técnicas de aperfeiçoamento agrícola, se correspondendo com entidades do exterior e procurando difundir suas ideias entre os moradores da região. 

Winge também se destacou pelo seu esforço organizativo, pois foi um dos responsáveis por agremiar os camponeses do bairro. Em 1910 ele fundou o Syndicato Agrícola da Tristeza, junto com outros agricultores, que logo no primeiro ano angariou 75 associados. Além disso, ele também fez parte de um movimento regional de agricultores, sendo o responsável pelo jornal Bauer Freund (Amigo do Camponês), da Riograndenser Bauerverein (Associação dos Camponeses Riograndenses), cuja redação ficava na sua casa. 

Nos anos seguintes os camponeses da Tristeza organizaram e participam de atividades diversas, como a Festa das Uvas do arrabalde de Theresópolis, que reunia os produtores de vinho da zona sul de Porto Alegre. O associativismo foi um elemento importante para impulsionar a produção agrícola, tendo surgido cooperativas e associações rurais em outros bairros da capital. Ao longo dos anos a família Winge dedicou-se ao plantio e comercialização de flores, sendo até hoje responsáveis por uma das principais floriculturas de Porto Alegre. Quanto à trajetória e o esforço de Josef Winge, ficaram marcados como um episódio importante da organização camponesa no estado, mostrando que os trabalhadores rurais também mostravam sua força e espírito de cooperação na Porto Alegre do início do século XX. 

Na próxima edição dessa série vamos falar sobre o Campo da Rua Veador Porto, no arrabalde do Partenon, que foi utilizado por diferentes clubes de futebol de trabalhadores durante os anos 1920 e 1930.


  • Além de acompanhar os textos aqui publicados, visitem e curtam a página de facebook dos Caminhos Operários em Porto Alegre, para saber um pouco mais sobre essa história. 

Frederico Bartz é mestre e doutor em história pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e trabalha como técnico em assuntos educacionais nessa mesma universidade, onde coordena o curso de extensão Caminhos Operários em Porto Alegre.

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