Memória

Lugares da classe trabalhadora em Porto Alegre 1: Praça da Alfândega

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Lugares da classe trabalhadora em Porto Alegre 1: Praça da Alfândega Porto Alegre – Praça Senador Florêncio (Alfândega) – início século XX

Nesses 250 anos de Porto Alegre vou escrever sobre dez lugares significativos para a história da classe trabalhadora na capital gaúcha. Entre eles estão relacionados espaços de luta, organização, solidariedade e cultura; o primeiro desses locais é a Praça da Alfândega.

Trata-se de um espaço central para a história da cidade desde o início da sua colonização, no século XVIII. Como um logradouro importante, também foi tradicionalmente identificado com o trabalho, abrigando a construção de um cais de pedra ainda no século XVIII, sendo marcado pela presença de trabalhadores e trabalhadoras, escravizados e livres, como quitandeiras, marinheiros, pequenos comerciantes etc. 

Devido a essa centralidade, a Praça da Alfândega (que também se chamou Praça Senador Florêncio entre 1883 e 1979) se tornou um local privilegiado para as manifestações coletivas do proletariado porto-alegrense. Em 1892, o nascente movimento socialista da capital realizou ali a primeira manifestação pública de 1º de maio no Brasil. A data havia se tornado o Dia Internacional dos Trabalhadores apenas três anos antes, em homenagem à memória dos líderes operários condenados à morte por conta da Revolta de Haymarket, em Chicago, no ano de 1886. Na Porto Alegre de 1892, os líderes socialistas fizeram um pequeno ato público na Praça da Alfândega e a seguir deram início a uma caminhada em direção ao Arrabalde da Floresta, com algumas paradas para reuniões e debates, terminando o dia em uma confraternização na Chácara da Sociedade Beneficente Alemã, nos altos da Avenida Independência.

Outro momento importante na história da classe trabalhadora vinculado à Praça ocorreu em setembro de 1906, durante a Greve dos 21 Dias, que foi a primeira Greve Geral de Porto Alegre. No dia 23 de setembro, em um grande comício na Praça da Alfândega, as principais lideranças socialistas, como Joseph Zeller-Rethaler, Francisco Xavier da Costa e Carlos Cavaco, mobilizaram o operariado com palavras de ordem e críticas à burguesia. Entre esses discursos chamou atenção o de Carlos Cavaco, ao afirmar que os trabalhadores deveriam “dirigir-se a seus chefes com um ramo de oliveira na mão esquerda e uma dinamite na direita”. Entre suas falas, se destacou a proposta de criação de uma Federação Operária para unificar a ação dos trabalhadores no estado. Essa ideia teve impactos profundos, pois a Federação Operária do Rio Grande do Sul foi fundada no início do mês seguinte, tornando-se a principal entidade coletiva do proletariado gaúcho pelos próximos quarenta anos. Seria ingênuo pensar que a fundação da Federação se deveu apenas àquela fala de Cavaco, mas o efeito do discurso mostra que a proposta tinha um campo fértil para sua acolhida e que a Praça da Alfândega era um lugar estratégico para o lançamento de uma ideia tão importante.

Um terceiro momento foi a deflagração da Greve Geral de 1917, um dos maiores movimentos grevistas da história da capital gaúcha. A classe trabalhadora brasileira estava em processo de agitação por conta da carestia de vida, com greves gerais ou generalizadas sendo deflagradas em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. No dia 29 de julho, os militantes anarquistas se reuniram na sede da Federação Operária e formaram uma Liga de Defesa Popular para mobilizar a população de Porto Alegre. No dia 31 de agosto, na parte da manhã, uma reunião na Praça dos Navegantes indicou a necessidade de uma greve; na parte da tarde, um grande comício na Praça da Alfândega iria discutir os termos da paralisação. O ato foi aberto pelo militante anarquista Henrique Martins às 15 horas, com a presença de mais de 4000 pessoas; essa multidão foi reforçada com uma coluna de mais de 700 pessoas vindas dos Navegantes, onde se destacava uma vanguarda de mais de 70 mulheres tecelãs.  Com mais de 5000 operários e operárias presentes, foi deflagrada a Greve Geral que paralisaria a vida da cidade pelos próximos seis dias. 

Como pode ser visto, a Praça da Alfândega foi um local muito importante para a história da classe trabalhadora; infelizmente, não existe nenhum monumento, placa ou marca de memória que registre a importância desse local para a história do movimento operário. Por essa razão, nos cabe contar e trazer para o presente essa memória de lutas e de solidariedade.


  • Na próxima edição dessa série vamos falar do Parque Farroupilha, mais um lugar de memória operária na capital gaúcha. Além de acompanhar os textos aqui publicados, visitem e curtam a página de facebook dos Caminhos Operários em Porto Alegre para saber um pouco mais sobre essa história.

Frederico Bartz é mestre e doutor em história pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e trabalha como técnico em assuntos educacionais nessa mesma universidade, onde coordena o curso de extensão Caminhos Operários em Porto Alegre.

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