Memória

O rabo de Beth

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O rabo de Beth

 Existem pessoas que conseguem sair de seus quadrados e seguir em outras direções. Afinal de contas, o mundo é grande. 

Também já fui assim, mas de maneira involuntária. 

Meu mundo se resumia ao subúrbio da grande Porto Alegre. 

Isso porque, no início dos anos oitenta, meu padrasto era um policial de índole duvidosa, rígido com a lei e vista-grossa com a sua honestidade. Isso explicava por que nos mudávamos tanto. 

Acredito que as mudanças repentinas e a falta de amizades me deram algumas camadas a mais de cebola roxa caramelizada. Talvez por isso tenha ficado na portaria do bar por tanto tempo, me despedindo das pessoas que um dia resolveram ganhar novas experiências mundo afora, experiências que aqui jamais achariam dignas das suas realidades.  

Nos anos noventa aconteceu um levante na província de São Pedro, pessoas indo estudar e se aventurar pela Europa, como anos antes, mas sem o charque e as piadas homofóbicas interioranas. 

Existia aquela coisa de pisar sobre a faixa da rua que leva o mesmo nome do estúdio que os Beatles gravaram, o Abbey Road. Uma das fotos mais tiradas por quem ficou um tempo em Londres. 

Sei que algumas pessoas podem ficar chateadas com esse comentário, mas antes de se magoarem gostaria de dizer que a primeira vez que fui a Bahia fiquei esperando o Elevador Lacerda, na Cidade Alta, com a câmera na mão pronto pra registrar que o elevador mais famoso do Brasil é um elevador normal. Tipo o que tem no prédio do Jarbas, meu amigo que também tem uma foto parecida com a minha.  

Outros amigos se aventuraram pelos Estados Unidos, Oriente Médio e Ásia. Cada despedida era doída em mim, porque às vezes a sensação era que só os amigos mais legais estavam indo embora. Pra minha sorte não era verdade. 

Acredito que essas coisas de partidas são parecidas com separações, o cérebro lê de uma maneira parecida. Aquela coisa de estar parado olhando pro céu e de repente começar a lembrar somente das coisas mais legais que rolaram durante o tempo que aquelas pessoas estavam aqui. 

Tinha uma coisa que sempre me chamava atenção no Garagem: as festas só eram pra cima sexta e sábado. Quinta nem sempre, só quando tinha festa eletrônica, mas quarta sempre era meio deprê, e não por acaso as despedidas eram nas quartas.

Havia dois irmãos que frequentavam o bar, o Gian e o Giuliano. Por óbvio sempre chamei eles de ‘italianos’. Não era nenhum tipo de preconceito, pelo contrário, adorava filmes da máfia, e ter dois amigos italianos ou descendentes era muito legal pra mim. 

Gian era tipo irmão mais velho pra mim. Careca, usava uma regata branca por baixo da camisa ou camiseta branca que estivesse usando. Uma jaqueta jeans puída e muito estilosa. Sempre de cabeça raspada e com um cigarrinho no canto da boca. Tinha um jeito bem peculiar, inteligente e antenado para as coisas, era fã de Sonic Youth e escritores da geração Beatnik. Giuliano era mais reservado, se arrumava parecido com o irmão, mas fora isso ninguém não sabia muito sobre ele. Foi a primeira pessoa que conheci na vida que tinha espasmos faciais devido ao uso de entorpecentes.

O italiano, o Gian, conseguia desenvolver qualquer conversa com seu jeito espontâneo. Às vezes me lembrava um Vj da MTV, o reverendo Fabio Massari. Suas histórias vinham dos livros, mas também das suas andanças. Muito querido e respeitado por todos, inclusive por mim. 

Uma noite chegou no balcão do bar, se virou de frente pros mais próximos e disse: “Na quarta-feira que vem quero vocês aqui comigo nesse mesmo balcão, porque tenho uma notícia pra dividir com vocês, certo? Agora, Cesinha! Vê um ceva aí”. Já tinha presenciado algumas despedidas, e enquanto todos ficavam curiosos ou fingiam estar, tinha certeza do que ele faria.

Mais tarde, naquela mesma noite, me aproximei dele; “E aí Gian, vai dar o vazari, né?” “Vô, Cesinha, vou ir pra Itália, Giuliano vai também, mas desta vez vou pra ver as coisas, tem trabalho até pra ti se tu quiser.” “Mas o que tem pra fazer lá?” “Vamos trabalhar vendendo camiseta de times italianos!” “Camelô?” “É tipo isso, mas na Itália, né!” “E o que precisa, tu sabe que sou chinelo!” “Capaz, Cesinha, tu precisa de dois mil dólares e teu passaporte.” “Bah, que foda, vou pensar nisso aí.” “Quarta feira tu vem vai tá aí, né?” “Vou sim!” “Tenho um presente pra ti.”, “Puxa, valeu, Gian!” “Pode crê, meu garoto!”.

Fiquei bem tentado com o que ele me disse, nunca tinha saído do Rio Grande do Sul e de repente existia, de fato, a possibilidade de ir pra Europa! Fui pra casa de uma menina que morava perto do bar. Passei a noite toda pensando naquela proposta, mas na manhã seguinte me dei conta que não tinha estrutura emocional pra me afastar das pessoas que gostava. 

Depois só fiquei imaginando o que ganharia. Porque sempre adorei presentes.

Chegou a quarta-feira e mais uma vez o clima era de nostalgia e uma leve depressão por conta da surpresa do amigo italiano. Lá por umas onze e meia chegam o Gian e seu irmão. Ele carregava uma caixa de papelão, colocou a caixa em cima de uma mesa velha de ferro que ainda funcionava, sentamos na sua volta. 

O bar vazio, ali estavam os guris do bar e mais umas pessoas.

Busquei a primeira cerveja e começamos a conversar. 

Ele anunciou o que a maioria já sabia uma semana antes, porque depois de um teco ninguém mais guardava segredos. Foi aí que ele começou a distribuir presentes. Pegou de dentro da caixa a jaqueta jeans e deu pra um amigo, não lembro pra quem foi, porque eu precisava cuidar a porta, mas lembro que aquela jaqueta era linda, tipo jaqueta da sorte. 

Depois vieram alguns abraços, um pouco de emoção, alguns tapinhas nas costas, e ele pegou alguns discos e deu pra outro amigo. A emoção foi forte, um abraço e lindas palavras de amizade. Aí distribuiu algumas coisas que não vi o que eram nem pra quem foram, porque estavam entrando alguns bebuns no bar. 

Então o Gian me chamou: “Oh Cesinha, chega aí, meu garoto, tenho um presente pra ti.” Bah, havia chegado a minha vez. Não conseguia imaginar o que ele poderia me dar, um cachimbo, algum disco, roupas, sei lá. Então ele tira do bolso das calças um livro. Só que um matungo como eu não sabia disfarçar direito a pequena decepção que sentia. Era como ganhar um óculos de sol e ser cego: um livro não fazia parte da minha realidade. 

Como bom amigo agradeci: “Valeu, Gian!” Ele notou que fiquei triste, mas me deixou refletindo com o livro na mão. Lembro de pensar: “Vou ler uns pedaços e dizer pra ele que gostei, afinal de contas foi um presente, né. Mas na real não vou ler, nem gosto de livros, e que livro é esse? Cartas na rua? Porra é essa?… Puxa, a jaqueta ficaria legal em mim, sem falar que gosto de Sonic Youth também, aquele cachimbo dá pra fumar um beck, sei lá o que vou fazer com o, como se fala isso? Charles o quê?” 

Coloquei o livro no bolso da calça e segui trabalhando.

A noite de quarta era a mais fraca e tudo fechava cedo, inclusive o bar. Duas da manhã o pessoal começou a ir embora, foi nessa hora que o Gian apareceu lá na portaria com um cigarro na boca e dois copos de cerveja. 

Então me ofereceu um copo de ceva e sentou na minha frente: “Sabe, Cesinha, existem coisas que com o tempo a gente vai perdendo, esquecendo ou até ignorando, roupas se rasgam e depois de um tempo a gente nem usa mais. Os discos são diferentes né, mas lá no fundo, depois de um tempo a gente conhece coisas novas e terminamos escutando de novo, sabe-se lá quando…”

Nesse momento entrou alguém no bar e tive que avisar que estávamos fechando, então ficamos de pé. 

Gian, seguiu falando; “Meu garoto, o livro que te dei pode não ser algo importante agora, mas ele vai te abrir portas dentro da tua cabeça, vai por mim, tu não é um guri ruim, só precisa de alguns caminhos pra entender isso tudo. Fora isso, acho que tu vai curtir o velho Bukowski, e aí quando eu voltar me diz.” Ele me abraçou e foi embora.

Cartas na rua, de Charles Bukowski, foi o primeiro livro que li na vida. Tinha dezoito anos e nunca havia imaginado que um dia poderia estar escrevendo sobre isso. Quando terminei de ler aquele livro a primeira coisa que pensei foi: “O que aconteceu comigo?” Nunca mais parei de ler, depois até casei com uma bibliotecária e li toda a geração Beatnik. 

Até hoje quando as coisas não vão muito bem sempre me lembro daquela frase: “Tomei meu rumo e me guardei no rabo quente de Beth”.


Antonio Padeiro – Cria da Vila Cerne, subúrbio da grande Porto Alegre. Ganhou o apelido de Padeiro nos tempos em que vendia pão na vila que morava. Se aventurou no mundo da arte mesmo sem saber qual era o seu papel. Passou pela música, teatro, cinema e televisão, mas por gostar de ler e contar histórias terminou se envolvendo com a literatura. Hoje, graduado em Letras, divide seu tempo entre suas duas paixões: a escrita e os documentários. Duas belas formas de contar uma história.

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