Memória

Uma tragédia garageneana

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Uma tragédia garageneana

Gosto de pensar que a tragédia grega é baseada na essência do sentimento humano, por isso sou um admirador de Ésquilo, Sófocles e Eurípides, e também admiro os mais recentes, como Nelson Rodrigues e Federico García Lorca. 

Ao longo do tempo fui me envolvendo cada vez mais com esse gênero literário. Percebo que certas atitudes e sentimentos se mantêm firmes até os dias de hoje. Se isso é bom já é uma outra história. 

Quase todos que conheço viveram situações semelhantes dentro desse universo que habita nosso modo de enxergar o outro, perceber as relações e absorver os términos de um relacionamento. Algumas aventuras são mais engraçadas, outras mais tristes, umas são até cruéis. 

De certa maneira, ninguém está livre do amor e das suas consequências envolventes, hipnóticas, romantizadas, esquizofrênicas, sexualizadas, delirantes, perturbadoras e egoístas. A prova viva disso está na definição de ‘eu te amo’, o ‘eu’ vem na frente. 

Uma coisa que sempre me chamou atenção é essa estranha sensação de que nós somos bem servidos de sentimentos contraditórios, egoístas e até degradantes como inveja, ódio, ciúmes e avareza, mas estamos distantes da outra ponta da corda desses mesmos sentimentos. Deixamos a desejar quando o assunto envolve os sentimentos nobres e coletivos. Isso começou a fazer mais sentido pra mim na década de noventa quando me apaixonei pela segunda vez. 

Foi ali na portaria do Garagem que o sentimento de inferioridade se abateu sobre a minha cabeça. Com o tempo fui percebendo que isso era uma bobagem, o mundo era nosso e todos faziam parte daquilo. A realidade é que fui seduzido pela noite e pelas pessoas que só me viam à noite. 

Minha mãe tem uma frase maravilhosa, que demorei um tempo pra entender, mas quando percebi o que ela queria dizer foi um alívio: “Na vida a gente tem amigos e camaradas”. Num bar são poucos os amigos, mas a camaradagem rola solta, a gente conhece as pessoas através de umas piadas, uma troca de olhares, um cigarro, um beck. 

Por isso existiam algumas turmas no bar, conhecia todas. 

Em 94 uma mulher começou a frequentar o bar. Ela tinha a pele clara, cabelos crespos e longos, unhas bem feitas, um corpo com curvas sedutoras. Um rosto expressivo, marcante. Fumava Marlboro Vermelho e bebia whisky sem gelo. Quase sempre usava salto alto e vestido longo. Sempre muito maquiada e sozinha.

Perdi as contas de quantos homens e mulheres vi se aproximarem dela dentro do bar, perdi as contas de quantos “nãos” ela disse. Um dia ela chegou bêbada no bar, não quis entrar. Era normal as pessoas ficarem na portaria, muitos não tinham grana, outros gostavam de falar com o porteiro e alguns queriam dividir a alegria da noite com a solidão, a famosa invisibilidade necessária. 

Nesse dia ela sentou na minha frente e me ofereceu um gole da sua bebida. Recusei. Estava trabalhando, ela não me disse nada. Acendeu um cigarro e falou: “Deve ser uma bosta trabalhar na portaria, ver todo mundo se divertindo e não poder participar, de certa maneira é até excludente, não é?” Pensei um pouco sobre o assunto e concluí dizendo: “Não sei o que significa excludente”, ela sorriu e me explicou.

Agradeci pela explicação e começamos a conversar. Ela me disse que era filha de um cara muito rico, mas por ser rico se isolou de todos que ele conhecia e por conta disso a família dela também foi se isolando: “Todos que se aproximam da gente têm algum interesse.” “Mas como tu sabe diferenciar os interesses? Alguns até podem querer o dinheiro, mas será que muitos não querem só te conhecer?” “Sim, geralmente é assim, até saberem que temos dinheiro, entende?” “Na real, não. Nunca tive dinheiro, não sei se tu notou, mas sou o porteiro, não o dono dessa espelunca”. Rimos.

“E o que um cara inteligente que nem tu faz nessa porta?” “Sou pago pra mantê-la fechada.” Rimos. “Como tu é bobo, como é teu nome?” “Cesar, mas pode me chamar de Padeiro.” “Cesar é um lindo nome.”, “Obrigado, mas e o teu nome qual é?” Nesse momento ela levantou, abriu a porta e antes de passar me disse: “Isso tu vai ter que descobrir.” Rimos.

No fim da madrugada ela saiu do bar com o cara escroto. Conhecia bem a fama daquele sujeito. Tava sempre cheirado, tinha grana, achei estranho os dois juntos, mas a gente nunca conhece realmente as pessoas. Ela cheirou com ele, isso era bem visível. Na semana seguinte ela chegou no bar sozinha: “Oi Cesar!” “Oi, tudo bem contigo?” “Isso não é pergunta que se faça pra uma mulher que chegou bêbada num bar, tu não acha?” Fiquei sem saber o que responder, ela pagou, entrou e fechou a porta. Naquela noite ela ficou com uns três caras diferentes, mas foi embora sozinha.  Chamei o táxi pra ela, um dos caras queria entrar junto, mas com um olhar percebi que ela queria ir sozinha. Afastei o cara e ela foi embora.

Na sexta seguinte chovia muito e havia menos de dez pessoas dentro do Garagem. Ela desceu do táxi animada, bem diferente da última vez que havia lhe visto. Muito vibrante e comunicativa, estava com uma blusa quase transparente, uma calça jeans bem justa que realçava a dimensão das curvas das suas pernas e o sapato baixo que facilitava a sua mobilidade. 

Apesar da chuva subiu a escadaria fungando e não parava de falar: “Oi Cesar, que loucura essa chuva, não é! Hoje meu dia foi tão corrido na empresa que não pensei duas vezes pra vir direito, encontrei o Cláudio e fomos pegar uma história, mas eu não conheço ninguém, também quem mandou ser ‘patty’, não é? Tu cheira? Quer dar um teco comigo? Ah, sei tu tá trabalhando, sei como é, na real não sei, mas imagino. Nunca trabalhei de noite, nem de porteira, mas acho super-digno. Te acho um gatinho também, pena que tu é pobre, tô brincando. Ficaria contigo, mas não hoje.” Só ela sorriu.

Lá pelas duas da manhã ela passou pela porta, estava bem cheirada e fumava um cigarro atrás do outro: “E aí, Cesar! Como estão as coisas por aí? Quer um gole de whisky, um cigarro? Posso dar um teco ali na salinha?” “Claro.” Ela entrou onde era a bilheteria e logo me chamou: “Não tô conseguindo, tu não quer me ajudar?” Fui até a bilheteria e fiz a mão. Voltei ao trabalho e logo ela veio falar comigo: “Sabe que meu pai está internado, ele é um cara muito bom, mas sempre foi distante da gente, agora tá sem saber como vai ser o dia de amanhã, minha mãe morreu há dez anos e ele começou a beber. Ainda bem que meu irmão cuida dos negócios, uma vez meu irmão passou a mão nas minhas pernas, mas isso não interessa. Eu odeio o Otávio. Ele está matando o meu pai. Desculpa, tu não tem nada a ver com isso. Te acho bem gatinho, sabia?” “Tô ligado.” Ela era muito charmosa e até cheirada me despertava um certo tesão. 

Então ela me ofereceu um gole da bebida e eu aceitei. Ela ficou surpresa: “Olha só, vai beber comigo então!” “Não, só um golinho.” Rimos.

Naquela noite conversamos muito. Quando ela saiu do bar me convidou pra ir junto. Pedi que ela esperasse até o bar fechar. Como estava muito vazio o Leo fechou logo em seguida. Então fomos pra outro bar, bebemos e conversamos sobre tudo, rimos muito, e quando o dia começou a raiar ela me disse: “Preciso ir embora!” Então criei coragem e perguntei: “A gente poderia ficar junto hoje, não?” “Adoraria, mas só se tu soubesse meu nome, tu já sabe?”, “Não, né! Tu nunca me disse.” Ela entrando no táxi me disse: “Hum, achei que tu fosse mais esperto, seu Padeiro…” Me deu um beijo no rosto e foi embora.

No sábado cheguei cedo no bar e perguntei pros guris se ela havia pago com cheque e, pra minha surpresa, eles me disseram que sim. Claro que tiraram uma onda da minha cara antes, e foi assim que descobri seu nome. Esperei ela chegar no bar naquela noite, mas ela não foi. Esperei a outra semana chegar, e a outra e a outra. 

Assim se passaram alguns meses, e ela nunca mais apareceu. 

Um dia apareceu o magrão que ela havia ficado uma vez, criei coragem e perguntei pra ele se havia visto ela. Com um olhar arrogante, me disse: “A crespa aquela, a C…? Bah, meu irmão. Soube que ela sofreu um acidente de carro voltando de uma festa e faleceu, lamentável. Um mulherão daqueles…”

Não consegui mais prestar atenção, minhas vistas se fecharam por uns segundos e meu coração disparou de maneira descompassada. O meu mundo silenciou, não consegui disfarçar a minha tristeza e não escutei mais nada que o cara dizia. 

Durante muito tempo pensei que ela poderia ter se acidentado no mesmo dia que bebeu comigo, durante muito tempo me senti culpado, ainda hoje quando lembro dela sinto o gosto salgado da lágrima que insiste em escorrer pelo meu rosto. 

Queria que fosse mentira, queria que fosse somente uma ficção criada pela minha memória. Mas como poderia saber…


Antonio Padeiro – Cria da Vila Cerne, subúrbio da grande Porto Alegre. Ganhou o apelido de Padeiro nos tempos em que vendia pão na vila que morava. Se aventurou no mundo da arte mesmo sem saber qual era o seu papel. Passou pela música, teatro, cinema e televisão, mas por gostar de ler e contar histórias terminou se envolvendo com a literatura. Hoje, graduado em Letras, divide seu tempo entre suas duas paixões: a escrita e os documentários. Duas belas formas de contar uma história.

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