Memória

Vida e música popular: memórias de uma adolescente porto-alegrense dos anos 60

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Vida e música popular: memórias de uma adolescente porto-alegrense dos anos 60 Rosa Maria Hessel Silveira tocando violão na praia por volta dos 14 ou 15 anos. (Arquivo pessoal)

A memória tem lá suas ciladas. Lembranças de vivências compartilhadas, ainda que correspondam à verdade do “memorialista”, quando colocadas em papel ou na tela frequentemente são contestadas por leitores/as que “estiveram lá” e dizem “que não foi bem assim” ou, mesmo, “não foi nada assim”.

Feita esta breve ressalva, vamos lá. Sem pretender apresentar um panorama abrangente, um retrato fiel e detalhado, sem ter recorrido a fontes (mesmo que as conheça parcialmente), trago lembranças, reminiscências, impressões revisitadas de vivências que conectaram a vida de uma adolescente porto-alegrense na década de 60 à música popular brasileira em especial, que então vivia a explosão da bossa-nova.

Nascida em uma família onde a música esteve sempre presente, não de forma profissional mas como prática doméstica cotidiana, pelo início dos anos 60 me interessei em aprender violão. Era uma época em que aulas de violão já se popularizavam e praticamente em todas as famílias de classe média tinha alguém que “arranhava” um violão. Não por acaso, em minhas lembranças de praia gaúcha daquela década estão os sons de jovens cantando em torno de um violão, nos passadiços ou avarandados dos chalés de madeira, geralmente à noite (sem TV, sem internet). Mas, de maneira geral, as canções que mais se ouviam eram baladas de fácil melodia, harmonia e ritmo, ou até algum samba-canção.

Sobre “aprender violão”, não posso deixar de lembrar o espanto que tive quando soube que minha vó Maria Paraná Hessel já tocava violão – e isto teria sido nas décadas de 20, 30, 40 do século XX – no interior do Rio Grande do Sul, vale do Taquari, onde era professora federal concursada. Com quem terá aprendido? Quantas mulheres tocavam violão naquelas décadas? Como esta prática seria vista socialmente?  

Sob a influência de meu irmão mais velho, um apaixonado fã da música brasileira de então, iniciei aplicadamente minhas aulas de violão. Ao mesmo tempo, acompanhava – via rádio, o importante canal de comunicação da época – o eclodir da bossa-nova no centro do Brasil. Cantores, compositores, letras (quase sempre, então, no quadro do ‘banquinho, violão, amores’) povoavam meus ouvidos e memórias. 

Talvez seja difícil imaginar hoje que, naquele tempo, se transcreviam letras de músicas diretamente da reprodução das canções nas rádios. O acesso à letra de alguma música que se queria cantar depois (com o acompanhamento de violão) era difícil. As letras vinham em encartes dos LPs, mas… e o dinheiro para comprá-los? Eventualmente, vinham publicadas em algum jornal. As famosas revistinhas com letras e cifras de violão (também hoje bastante raras, em função do acesso pela internet) surgiriam um pouco depois. Ou seja: quando se queria aprender uma letra, se deixava incessantemente o aparelho de rádio sintonizado em uma ‘boa’ emissora, lápis e papel à disposição, e se esperava a reprodução da canção, para copiar a letra da forma mais rápida possível. Como era impossível capturar todas as estrofes de uma única vez (não se tratava de letras com uma frase repetida ad infinitum), a letra ia sendo completada aos poucos, por mãos adolescentes treinadas em anotar aulas expositivas de professores.

Em um determinado momento de minhas primeiras aprendizagens no violão, passei a frequentar aulas do grande Jessé Silva, músico conhecido em toda a cena musical porto-alegrense, excelente violonista e grande figura humana, em sua simplicidade e generosidade.  Encantada que eu estava com a sonoridade da bossa-nova, pedia-lhe que me ensinasse a famosa batida e as harmonias inusitadas! 

Infelizmente, se, para os acordes de quintas aumentadas, sétimas diminutas, acordes com sétima e nona (e outras harmonias cuja lembrança já perdi)  meu ouvido dava conta, por outro lado, para o ritmo sincopado da bossa nova, a mão direita (e o cérebro, claro) nunca ajudou, e tive de me conformar com a prática de um arremedo de ritmo e uma grande inveja de quem conseguia – no meu círculo de amigos e conhecidos – reproduzir, no violão, a batida joãogilbertiana de bossa-nova. (E eram muito poucos!)

Já do tempo como aluna do Julinho (curso Clássico de então – o Ensino Médio das meninas que não queriam fazer a Escola Normal, mas seguir carreira acadêmica em Direito ou Letras), tenho uma lembrança viva de que havia um círculo de colegas apreciadoras de bossa-nova (algumas que também tocavam violão). Era também a época de ascensão da Jovem Guarda, mas (e é possível que a memória seja seletiva ou eu vivesse, já, em uma bolha) não lembro de fãzocas e entendidas no campo. 

E é claro que vivi – e vivemos – toda a euforia, a adesão, a expectativa, o entusiasmo da chamada Era dos Festivais.  Muito já foi escrito sobre esta ‘era’, mas minhas lembranças de meu contato – e também de irmãs e irmão – com os festivais nacionais são muito vívidas. Assistir às semifinais transmitidas pelas TVs, com papel na mão para anotações, olhos/ouvidos muito antenados, e ir para a aula no dia seguinte com a expectativa de discutir preferências e impressões com colegas, abrir ansiosa os jornais diários ou revistas semanais na esperança de algum detalhe interessante a mais, apaixonar-se por compositores/cantores lindos e torcer, torcer muito pela música preferida na final… Aguardar as gravações que logo começariam a tocar nas rádios, “tirar” as músicas no violão, cantá-las em grupo, foram situações que preencheram muitas e muitas horas da minha vida de adolescente (e de quantas/os mais?).

Relembro um episódio interessante relacionado à eliminatória do II Festival da TV Excelsior de 1966 realizada ao vivo em Porto Alegre, no Salão de Atos da UFRGS (Zuza Homem de Mello nos informa que foi no dia 6 de maio). Possivelmente avisadas pelo nosso irmão, que já era aluno de Economia da Universidade, uma de minhas irmãs e eu fomos assistir ao ensaio (ou se diria “passagem de som”) à tarde, no Salão de Atos. Um cantor jovem, negro e magro, quase imóvel, abriu sua garganta para interpretar uma das canções concorrentes: impacto em nós que o ouvíamos, pelo timbre magnífico, pela potência da voz, pela afinação, pela interpretação. Mas um diretor interrompe o canto e vai até o cantor dar alguma recomendação (jamais saberemos qual). Reinicia o ensaio – a voz, a musicalidade e o encanto são retomados, mas… agora, parece que o estreante está um pouco mais solto, até mexendo os braços (ou teria sido nossa impressão?).  E, pelas décadas seguintes, até hoje, em muitas e geniais canções, continuaríamos ouvindo aquela voz absolutamente única e magnífica – de Milton Nascimento.

Hoje creio que a atmosfera dos festivais, se espalhando em múltiplos eventos, de âmbito mais restrito ou mais amplo, semeava em muitos jovens de então a vontade de escrever letras, de compor melodias, de tocar e cantar em grupo, de aprender canções, de participar de eventos assemelhados a festivais ou congêneres. Lembro, por exemplo, de gincanas interescolares – disputas entre escolas de Porto Alegre – que se realizavam (1967? 1968?) nos sábados à tarde no Auditório Araújo Viana. Havia provas diversas em que alunos/as de diferentes escolas competiam entre si – se não me falha a memória, incluindo competições de conhecimento, de grupos vocais de qualquer formação, de cantoras/cantores e de composições musicais!

O Julinho tinha um Grêmio Estudantil atuante, que organizava a participação da escola em todas as provas. Com frequência, era uma das escolas com melhores resultados – havia um júri adulto e, imagino, especializado. Mas lembro que outras escolas estaduais participavam de forma organizada pela direção, que lá comparecia para apoiar os alunos, torcer e festejar vivamente.  Não lembro de qualquer envolvimento da então direção do Julinho com o evento. Mas também ocorriam muitos outros certames, como um Festival de Música do Colégio Bom Conselho, no qual a bela música vencedora até hoje ressoa em meus ouvidos (o título era “Andeiro’, mas não me atrevo a citar seus autores, sob o risco de errar)

Dentro desta atmosfera de criação, de escrita e de competição (com muito violão no meio, instrumento agregador por excelência), também comecei a compor canções. E, em 1967, anuncia-se a realização do 1º Festival Sul brasileiro da Canção Popular, promovido pela Zero Hora, Rádio e TV Gaúcha, com apoio do Sindicato de Músicos Profissionais de Porto Alegre. A inscrição era simples – uma fita cassete com a composição, uma escrita em pauta de sua linha melódica e, talvez, a letra datilografada.  Com o estímulo de meu irmão, inscrevi a “Cantiga de Menina”, canção com duas partes que se intercalavam: uma toada, entremeada com outra parte em ritmo de samba bossa-nova, mesclando tons maiores e menores. Havia composições com duplas partes na MPB da época, como “A estrada e o violeiro”, de Sidney Miller; devo ter me inspirado em alguma delas. A letra, singela, evocava cantigas de roda – “Entra na roda, menina linda, canta um versinho pra encantar” – mesclada a menções à importância do amor em um mundo utópico, dentro de uma estética da época e do alcance da compositora de 16 anos. 

Feita a inscrição, com uma gravação caseira de voz e violão, a expectativa de que a música fosse selecionada se realizou e, então, a questão era: como ela seria apresentada? Uma boa cantora seria necessária. Nossa fonte de conhecimento de cantoras gaúchas eram os programas de rádio ao vivo, em que jovens cantavam com o acompanhamento de piano também ao vivo. Lembro de irmos aos estúdios da Rádio Gaúcha e escolher uma jovem cantora de voz excepcional e muita personalidade interpretativa, também aluna do Julinho e mais moça do que eu – Vera Beatriz Néris. Mas não tínhamos grupo musical, relações com instrumentistas variados, arranjador, nada… (um tanto outsiders). A organização ofereceu um acompanhamento de orquestra, mas, já na primeira tentativa, a cadência pesada e o ritmo de sambão (o que me pareceu…) me desestimularam. 

O que fazer? Além do meu violão, prestaram socorro ao acompanhamento da canção três instrumentistas – um contrabaixista, um baterista e um tecladista. Infelizmente, não lembro os nomes do contrabaixista e baterista, mas apenas do tecladista que, com seu vibrafone, fez um contraponto enriquecedor à melodia: Heitor Barbosa, integrante do famoso conjunto de Norberto Baldauf.

Todo o Festival ocorreu no então Teatro Leopoldina, sempre lotado, acompanhando ora cantores/cantoras conhecidas (e lembro Érica Norimar, talvez a cantora mais renomada no RS da época – em que as rádios ainda pontificavam, como já mencionei), compositores reconhecidos, como Alcides Gonçalves, Zé Kéti, grupos vocais e instrumentais bem estruturados, ao lado de compositores avulsos, por assim dizer, como era meu caso. 

Apesar da sonoridade singela com que foi apresentada, contrabalançada pela interpretação potente de Vera Beatriz, a ‘Cantiga da Menina’ foi selecionada entre as 12 finalistas.  Na final do Festival, apresentadas as concorrentes, havia, obviamente, a expectativa pelo anúncio dos três primeiros lugares. Em 3º lugar, foi anunciada ‘Marcha para um novo amor’, marcha-rancho de Luiz Mauro; em 2º lugar, foi posicionada “Amor Menino”, outra marcha-rancho, de Luís Roberto Freda, belas composições, que foram reapresentadas. Enfim, para nossa surpresa (nem estávamos lado a lado Vera Beatriz e eu…), anunciou-se a ‘Cantiga da Menina’ como vencedora. 

Chamadas que fomos ao palco, fomos brindadas com uma avassaladora vaia – elemento quase essencial no ritual dos festivais da época. Lembro que o vereador Glênio Peres, presidente do júri, orador tarimbado de voz potente, pegou o microfone para tentar acalmar os ânimos, iniciando sua fala com o emprego da palavra ‘mercê’… mas teve que repeti-la várias vezes para dar andamento à frase: ‘Mercê da qualidade das músicas apresentadas….’ (Ignorante que eu era do uso da palavra, ficava pensando a que ‘Mercês’ ele estaria se referindo). Os apupos acompanharam a execução da canção, dificultando, mas não impedindo, que Vera Beatriz, com seus 15, 16 anos, conseguisse ouvir o tom e chegasse galhardamente ao final da canção.

Posteriormente, foi produzido um disco com as execuções ao vivo da final do Festival, em edição da CSB discos. Por uma ironia do destino ou artes do demo, o disco foi mal prensado (ou outro problema técnico que não sei diagnosticar) e a gravação de “Cantiga da Menina’ saiu ‘com saltos’, de tal forma que nunca pude ouvir cabalmente sua gravação ao vivo. 

E, como já havia videotape na época, pude rever na TV Gaúcha flashes da vaia que levamos e identificar em close, entre alguns dos mais estrepitosos, um jovem compositor gaúcho que fora me parabenizar efusivamente ao final do certame.

Todo o evento tem múltiplas facetas, consequências e interpretações. Assim, na semana seguinte, um professor de Língua e Literatura do Clássico do Julinho, Prof. Henrique Araújo (inesquecível pelo seu conhecimento, dedicação e criatividade), iniciou sua abordagem das Cantigas de Amor e Cantigas de Amigo do trovadorismo português (sim! Havia uma abordagem rápida deste tema no programa de Literatura!), fazendo uma ponte entre a Cantiga da Menina e as cantigas medievais, buscando mostrar a permanência de um caráter popular atrelado ao conceito de cantiga no senso comum. 

Por fim, a vida foi dando outros rumos à minha relação com a música. Em tempos sem celular, sem internet, sem facilidade de registros e de seu acesso – para além dos jornais, algumas gravações de rádio e TV – ficam lembranças que as vivências de muitas décadas passadas tentam costurar num único tecido. 

Julho de 2022


PS: Nosso infalível Arthur de Faria encontrou a gravação a que Rosa Maria Hessel Silveira se refere. 55 anos depois! Escute:


Rosa Maria Hessel Silveira – Professora aposentada da Faculdade de Educação da UFRGS

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