Crônica, Parêntese

Nathallia Protazio: Ânsia

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Nathallia Protazio: Ânsia Acho que estou no meio de uma crise de ansiedade. Não tenho muita certeza, não fui no médico. Não, não foi simplesmente pra evitar aglomerações intra-hospitalares. Foi pra evitar o médico mesmo. Não gosto. Por enquanto estou observando, fazendo anotações e quem sabe eu mostre pra algum ‘‘dotôr’’. Primeiro achei que eram gases. Devo confessar que minha alimentação não segue exatamente as recomendações da OMS e estes últimos dias abusei das frituras. Um certo desconforto me abateu e pensei na hora: ‘‘Simeticona!’’. Nem dei atenção e vida que segue. Dali a pouco o desconforto bateu forte no peito. Não exatamente do lado esquerdo, mas já pensei ‘‘sou muito jovem pra ter um infarto, se ele vier vai ser fulminante’’. Fiquei naquela de observar, como já disse, e nada. Nenhum calafrio, nem dormência no braço ou formigamento nas mãos. Sobrevivi ao domingo. Não enfartei, contudo a dor no peito perdurou. Tomei um chá de camomila, afinal chá cura tudo que é doença da minha cabeça, e fui dormir. Segunda-feira de manhã, levanto cedo pra terminar um texto. Aquele ritual de sempre. Banheiro. Cozinha. Lava rosto, passa café. Me sento na cadeira e percebo que estou balançando os pés. Eu não balanço os pés. ‘‘Por que estou balançando os pés?’’ Aquilo me assusta, respiro fundo e sinto que a dor no peito não foi embora com o xixi que fiz depois de tomar a xícara generosa de camomila. ‘‘Putz, não funcionou’’. Tento outra tática. ‘‘Se for coisa da minha cabeça é só eu ignorar’’. Duas horas e meia escrevendo e ignorando. ‘‘Hahahahahahaha’’. Nem preciso te dizer que não funcionou. Óbvio! Vou me arrumar pra ir pra farmácia trabalhar mais um pouco. Aquele outro ritual de sempre. Cobre braço com manga, cobre a cara com máscara, e ganho a rua. Ouvi dizer que o comércio ia fechar. Hum. A galera continua na rua. Tenso. Lembro das últimas semanas de março, a agonia que era ver essas ruas desertas, e sinto saudades. ‘‘Pelo menos naquela época as pessoas estavam se cuidando’’. O porto-alegrense não aguentou três meses de isolamento social. Teve gente que não aguentou nem um. Não sei mais que dia de maio reabriram todas as lojas da Andradas, ao ver aquilo uma angústia foi crescendo. A farmácia enchendo de turista atrás de esmalte, shampoo e creme de barbear e eu pensando: ‘‘Serviço essencial, minha gente! SERVIÇO ESSENCIAL!!!’’ Mas o que é realmente essencial? Nenhum governante entrou em acordo no início, agora então os decretos parecem horóscopos de Instagram. Venço a multidão nas calçadas aguardando ônibus que vêm e vão. Chego na farmácia com uma sensação estranha. Meu peito arde quando respiro. Parece que o incômodo de ontem e a dor desta manhã se intensificaram como uma brasa soprada pelo vento do corredor da Borges. Subo a escada em direção aos vestiários com um cansaço pesado. Não dá pra explicar bem o que é, mas parece que não é um bom sinal. Desço pra trabalhar. Minha colega farmacêutica me sugeriu: ‘‘Você já teve […]

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Acho que estou no meio de uma crise de ansiedade. Não tenho muita certeza, não fui no médico. Não, não foi simplesmente pra evitar aglomerações intra-hospitalares. Foi pra evitar o médico mesmo. Não gosto. Por enquanto estou observando, fazendo anotações e quem sabe eu mostre pra algum ‘‘dotôr’’. Primeiro achei que eram gases. Devo confessar que minha alimentação não segue exatamente as recomendações da OMS e estes últimos dias abusei das frituras. Um certo desconforto me abateu e pensei na hora: ‘‘Simeticona!’’. Nem dei atenção e vida que segue. Dali a pouco o desconforto bateu forte no peito. Não exatamente do lado esquerdo, mas já pensei ‘‘sou muito jovem pra ter um infarto, se ele vier vai ser fulminante’’. Fiquei naquela de observar, como já disse, e nada. Nenhum calafrio, nem dormência no braço ou formigamento nas mãos. Sobrevivi ao domingo. Não enfartei, contudo a dor no peito perdurou. Tomei um chá de camomila, afinal chá cura tudo que é doença da minha cabeça, e fui dormir. Segunda-feira de manhã, levanto cedo pra terminar um texto. Aquele ritual de sempre. Banheiro. Cozinha. Lava rosto, passa café. Me sento na cadeira e percebo que estou balançando os pés. Eu não balanço os pés. ‘‘Por que estou balançando os pés?’’ Aquilo me assusta, respiro fundo e sinto que a dor no peito não foi embora com o xixi que fiz depois de tomar a xícara generosa de camomila. ‘‘Putz, não funcionou’’. Tento outra tática. ‘‘Se for coisa da minha cabeça é só eu ignorar’’. Duas horas e meia escrevendo e ignorando. ‘‘Hahahahahahaha’’. Nem preciso te dizer que não funcionou. Óbvio! Vou me arrumar pra ir pra farmácia trabalhar mais um pouco. Aquele outro ritual de sempre. Cobre braço com manga, cobre a cara com máscara, e ganho a rua. Ouvi dizer que o comércio ia fechar. Hum. A galera continua na rua. Tenso. Lembro das últimas semanas de março, a agonia que era ver essas ruas desertas, e sinto saudades. ‘‘Pelo menos naquela época as pessoas estavam se cuidando’’. O porto-alegrense não aguentou três meses de isolamento social. Teve gente que não aguentou nem um. Não sei mais que dia de maio reabriram todas as lojas da Andradas, ao ver aquilo uma angústia foi crescendo. A farmácia enchendo de turista atrás de esmalte, shampoo e creme de barbear e eu pensando: ‘‘Serviço essencial, minha gente! SERVIÇO ESSENCIAL!!!’’ Mas o que é realmente essencial? Nenhum governante entrou em acordo no início, agora então os decretos parecem horóscopos de Instagram. Venço a multidão nas calçadas aguardando ônibus que vêm e vão. Chego na farmácia com uma sensação estranha. Meu peito arde quando respiro. Parece que o incômodo de ontem e a dor desta manhã se intensificaram como uma brasa soprada pelo vento do corredor da Borges. Subo a escada em direção aos vestiários com um cansaço pesado. Não dá pra explicar bem o que é, mas parece que não é um bom sinal. Desço pra trabalhar. Minha colega farmacêutica me sugeriu: ‘‘Você já teve […]

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