Diário da espera | Parêntese

Nathallia Protazio: Aqui fora

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Nathallia Protazio: Aqui fora Hoje faz exatamente um mês que minha mãe pegou o avião pra Pernambuco. Após assinar os papéis do divórcio e antes de ir passar uma temporada com a minha vó, ela quis matar as nossas saudades. Na verdade trocar saudades antigas por novas, na nossa família sentir saudade é uma das condições de se manter em vida. No início de sua visita o vírus ainda não tinha mudado a rotina dos paulistanos. Meu irmão pegava ônibus pra ia dar aula todo dia se preocupando somente com as ameaças visíveis. Rotina normal de metrópole. Mal sabíamos que uma vida nova começaria pra todos, não só pra minha mãe, que encerrava um casamento de trinta anos. Aos poucos as notícias que entravam dentro de casa pelo celular iam nos avisando da possibilidade da gripe por um novo vírus que circulava no mundo lá fora também chegar até nós. Uma gripe que mata. Cada dia que passava a ameaça parecia mais próxima, e apesar de estar feliz por minha mãe não estar em São Paulo, pensava no meu irmão, nas minhas tias, todos os amigos de lá. Em poucos dias o medo entrou na nossa sala pela voz do meu irmão no telefone: ‘‘A mãe não pode pegar esse voo com escala em Guarulhos!’’. Todos envoltos por um pânico: a pandemia pelo corona vírus era real. Então chegamos a 15 de março, o último samba que fomos este ano. Pra mim, que estou trabalhando externamente, o isolamento social foi forçado. De uma hora pra outra não tinha mais onde ir. Todos os eventos começaram a ser cancelados. Bares fechando. Restaurantes atendendo só tele-entrega. A Cidade Baixa indo dormir cedo. Não levantando pra abrir suas portas. A primeira semana se passou dentro da aura da perplexidade. Vou e volto. De casa pro trabalho, do trabalho pra casa. Viver esta experiência pela ótica de trabalhadora que não faz home office é encarar o mundo vazio aqui fora todo dia.  Depois que minha mãe foi embora, com escala em Confins, Belo Horizonte, o assunto em casa era tão recorrente e cansativo que começamos a cobrar um real de quem falasse o nome daquele que não podia ser mencionado. Fiquei aliviada quando o termo COVID-19 se difundiu. Antes estava muito mais fácil fazer memes com um vírus que tinha nome de cerveja. Esta mudança trouxe um pouco de seriedade para a situação. As pessoas que se dividiam até então em ‘‘pânico sem ação’’ e ‘‘tô em casa de férias’’ começaram a respeitar a nova rotina com a chegada de abril. Quem está dentro de casa em período integral foi forçado a lidar com a presença excessiva do tempo e de sua própria existência. Através das redes sociais até os comportamentos de isolamento seguem um padrão. Somos seres inconsoláveis em busca de algum amparo ao compartilhar a mesma experiência à distância com outros seres em desespero durante a quarentena. Todo mundo fazendo pão e acabando com o estoque de fermento do supermercado. Postando vídeo no Tik Tok. Assistindo […]

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Hoje faz exatamente um mês que minha mãe pegou o avião pra Pernambuco. Após assinar os papéis do divórcio e antes de ir passar uma temporada com a minha vó, ela quis matar as nossas saudades. Na verdade trocar saudades antigas por novas, na nossa família sentir saudade é uma das condições de se manter em vida. No início de sua visita o vírus ainda não tinha mudado a rotina dos paulistanos. Meu irmão pegava ônibus pra ia dar aula todo dia se preocupando somente com as ameaças visíveis. Rotina normal de metrópole. Mal sabíamos que uma vida nova começaria pra todos, não só pra minha mãe, que encerrava um casamento de trinta anos. Aos poucos as notícias que entravam dentro de casa pelo celular iam nos avisando da possibilidade da gripe por um novo vírus que circulava no mundo lá fora também chegar até nós. Uma gripe que mata. Cada dia que passava a ameaça parecia mais próxima, e apesar de estar feliz por minha mãe não estar em São Paulo, pensava no meu irmão, nas minhas tias, todos os amigos de lá. Em poucos dias o medo entrou na nossa sala pela voz do meu irmão no telefone: ‘‘A mãe não pode pegar esse voo com escala em Guarulhos!’’. Todos envoltos por um pânico: a pandemia pelo corona vírus era real. Então chegamos a 15 de março, o último samba que fomos este ano. Pra mim, que estou trabalhando externamente, o isolamento social foi forçado. De uma hora pra outra não tinha mais onde ir. Todos os eventos começaram a ser cancelados. Bares fechando. Restaurantes atendendo só tele-entrega. A Cidade Baixa indo dormir cedo. Não levantando pra abrir suas portas. A primeira semana se passou dentro da aura da perplexidade. Vou e volto. De casa pro trabalho, do trabalho pra casa. Viver esta experiência pela ótica de trabalhadora que não faz home office é encarar o mundo vazio aqui fora todo dia.  Depois que minha mãe foi embora, com escala em Confins, Belo Horizonte, o assunto em casa era tão recorrente e cansativo que começamos a cobrar um real de quem falasse o nome daquele que não podia ser mencionado. Fiquei aliviada quando o termo COVID-19 se difundiu. Antes estava muito mais fácil fazer memes com um vírus que tinha nome de cerveja. Esta mudança trouxe um pouco de seriedade para a situação. As pessoas que se dividiam até então em ‘‘pânico sem ação’’ e ‘‘tô em casa de férias’’ começaram a respeitar a nova rotina com a chegada de abril. Quem está dentro de casa em período integral foi forçado a lidar com a presença excessiva do tempo e de sua própria existência. Através das redes sociais até os comportamentos de isolamento seguem um padrão. Somos seres inconsoláveis em busca de algum amparo ao compartilhar a mesma experiência à distância com outros seres em desespero durante a quarentena. Todo mundo fazendo pão e acabando com o estoque de fermento do supermercado. Postando vídeo no Tik Tok. Assistindo […]

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