Crônica, Parêntese

Nathallia Protazio: Pai

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Nathallia Protazio: Pai Uma vez eu ouvi alguém dizer que não importa tanto o que acontece com a gente, de alguma maneira todas as existências são irmãs – ou deveriam ser. O importante é como aprendemos a contar o ocorrido. Ontem senti saudades de ter pai. Estava fazendo a cópia da declaração de serviço farmacêutico referente ao último atendimento realizado. Apliquei a segunda de três doses de um anti-inflamatório intramuscular num senhor. Voltava com o documento numa mão, para ele, e a cópia na outra, pra ser arquivada na farmácia por cinco anos, quando o vi ajeitando umas coisas na sua pasta apoiada no banco de espera. Ele procurava alguma coisa ao mesmo tempo que guardava outras. Documento de identidade, conta de luz, talvez uma caixa de fósforos, papéis indecifráveis, como qualquer papel dobrado e há muito guardado na bolsa de alguém desconhecido. Ele usava agora uns óculos escuros que não portava há alguns instantes. Aqueles dois círculos de vidro escurecidos lhe davam um ar diferente do senhor que eu acabara de atender. Num movimento distraído, completamente alheio à minha observação, pois nem eu sabia que o estava observando até então, ele fez um jeito igual ao meu antigo pai.  Ali, quase deixando sua pasta a tiracolo cair do banco, aquele homem se tornou uma fonte de lembranças íntimas. Um segundo fugidio me remetendo àquele lugar atrás da cabeça onde as coisas vividas não são manchadas pelas mágoas vindas anos depois. O recanto das memórias esquecidas, e por isso, imaculadas. Eu vi meu pai naquele homem desconhecido de pele negra, cabelos grisalhos bem cortados e casaco de couro escuro. Um homem do qual só sabia o número do CPF, nome e data da próxima aplicação. ‘‘Uma boa tarde pro senhor, até segunda-feira’’ – eu disse me despedindo e olhando pro chão com vergonha da intimidade de minha lembrança que lhe roubara o anonimato. Entreguei-lhe o documento e me voltei rápido pras prateleiras de medicamentos genéricos ao fundo da farmácia. Só consegui dar dois passos em direção ao refúgio imaginário do balcão de atendimento, de costas para aquele homem que eu sentia se afastar. Não havia ninguém aguardando atendimento. Ainda bem. Não havia nenhum colega num raio de seis metros. Não havia ninguém que pudesse me tocar o ombro e me dar um olhar de carinho por cima da máscara. Não havia ninguém em silêncio com quem dividir aquela dor de sentir falta de alguém assim. Não sei qual é o nome da dor sentida com saudades de alguém vivo com o qual não se convive mais. Não se fala mais. Não se comenta mais. Não se vê mais. Não escuta mais. Não cheira mais. Não se aborrece mais. Não se sabe mais. Não se encontra mais. Não sente mais. Mas ainda amo. Nathallia Protazio é pernambucana, farmacêutica vacinadora, e depois de ter morado em muitos lugares, incluindo São Paulo e Lausanne, Suíça, hoje vive em Porto Alegre. Lançou “Aqui dentro” pela editora Venas Abiertas. Disponível em pré-venda pelo Instagram da própria autora: @nathalliaprotazio.escritora

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Uma vez eu ouvi alguém dizer que não importa tanto o que acontece com a gente, de alguma maneira todas as existências são irmãs – ou deveriam ser. O importante é como aprendemos a contar o ocorrido. Ontem senti saudades de ter pai. Estava fazendo a cópia da declaração de serviço farmacêutico referente ao último atendimento realizado. Apliquei a segunda de três doses de um anti-inflamatório intramuscular num senhor. Voltava com o documento numa mão, para ele, e a cópia na outra, pra ser arquivada na farmácia por cinco anos, quando o vi ajeitando umas coisas na sua pasta apoiada no banco de espera. Ele procurava alguma coisa ao mesmo tempo que guardava outras. Documento de identidade, conta de luz, talvez uma caixa de fósforos, papéis indecifráveis, como qualquer papel dobrado e há muito guardado na bolsa de alguém desconhecido. Ele usava agora uns óculos escuros que não portava há alguns instantes. Aqueles dois círculos de vidro escurecidos lhe davam um ar diferente do senhor que eu acabara de atender. Num movimento distraído, completamente alheio à minha observação, pois nem eu sabia que o estava observando até então, ele fez um jeito igual ao meu antigo pai.  Ali, quase deixando sua pasta a tiracolo cair do banco, aquele homem se tornou uma fonte de lembranças íntimas. Um segundo fugidio me remetendo àquele lugar atrás da cabeça onde as coisas vividas não são manchadas pelas mágoas vindas anos depois. O recanto das memórias esquecidas, e por isso, imaculadas. Eu vi meu pai naquele homem desconhecido de pele negra, cabelos grisalhos bem cortados e casaco de couro escuro. Um homem do qual só sabia o número do CPF, nome e data da próxima aplicação. ‘‘Uma boa tarde pro senhor, até segunda-feira’’ – eu disse me despedindo e olhando pro chão com vergonha da intimidade de minha lembrança que lhe roubara o anonimato. Entreguei-lhe o documento e me voltei rápido pras prateleiras de medicamentos genéricos ao fundo da farmácia. Só consegui dar dois passos em direção ao refúgio imaginário do balcão de atendimento, de costas para aquele homem que eu sentia se afastar. Não havia ninguém aguardando atendimento. Ainda bem. Não havia nenhum colega num raio de seis metros. Não havia ninguém que pudesse me tocar o ombro e me dar um olhar de carinho por cima da máscara. Não havia ninguém em silêncio com quem dividir aquela dor de sentir falta de alguém assim. Não sei qual é o nome da dor sentida com saudades de alguém vivo com o qual não se convive mais. Não se fala mais. Não se comenta mais. Não se vê mais. Não escuta mais. Não cheira mais. Não se aborrece mais. Não se sabe mais. Não se encontra mais. Não sente mais. Mas ainda amo. Nathallia Protazio é pernambucana, farmacêutica vacinadora, e depois de ter morado em muitos lugares, incluindo São Paulo e Lausanne, Suíça, hoje vive em Porto Alegre. Lançou “Aqui dentro” pela editora Venas Abiertas. Disponível em pré-venda pelo Instagram da própria autora: @nathalliaprotazio.escritora

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