Diário da espera | Parêntese

Diário da espera: Na Restinga, Parte III

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Diário da espera: Na Restinga, Parte III Por Neila Prestes Araujo Este diário de hoje continua contando os dias de quarentena publicados pela autora na Matinal News. Depois do primeiro e do segundo relatos, Neila Prestes de Araujo traz mais um pouco de sua experiência na comunidade do bairro Restinga, em Porto Alegre. De 28 de março a 07 de abril Hoje retomo o diário. São 10 dias sem escrever e, em retrospectiva, faço este relato. Meu último movimento estava focado em ajudar na mobilização que se fazia no bairro. Para isso acreditei que era preciso um número de celular exclusivo e que eu seria capaz de lidar com as disputas entre as lideranças comunitárias.  Bem, a semana foi pesada.  Foram produzidas listagens de quem recebeu ajuda e de quem aguardava. Era preciso apoiar as lideranças na entrega das cestas doadas porque as discussões foram acirradas. Nessas horas há sempre muita opinião. Se dá um jogo político de autopromoção com a desgraça alheia. Houve denúncias de que gente de má índole percorreu os pontos de doação e recebeu mais de uma cesta básica. Isso acabou deixando outras famílias passando fome e no aguardo de ajuda.  Como eu disse, a semana inteira foi dura e serviu para aprofundar contradições na minha comunidade. Aqui sofremos com a falta de políticas públicas eficazes, com a incerteza das intenções políticas de parte das lideranças e com a cultura do benefício, da esperteza de alguns. Mesmo frente aos obstáculos, na listagem que digitalizei e encaminhei havia um número próximo de 70 nomes. Eram pessoas — chefes de família — que aguardavam ajuda no núcleo Fazendinha. Esse núcleo fica em um dos limites do bairro, no pé do Morro São Pedro e invade a área de Unidade de Conservação (UC). Ali o conflito é cruel. É o homem que avança sobre o território natural no limite da existência. Gente que vive entre a fome e a difícil condição de moradia. O que se vê na paisagem são casas precárias, esgoto e o pobre — personagem esquecido pelo governo. A crise nesse lugar já é fato há muito tempo. E se o coronavírus chega como algo assustador, ninguém ali acredita no seu perigo. Nessa área a comunidade não se mantém em isolamento e circula sem maiores preocupações. [Após a retrospectiva acima, a autora retoma a escrita separando por dia] 04 de abril (sábado) O fim de semana chega e meu estado físico passa a expressar o que o ocorre no emocional. Precisei dormir mais, minha irritação estava evidente. Então percebi que as disputas e os bate-bocas nos grupos de whats haviam tomado conta de mim. Larguei o celular.  O povo do bairro ainda insiste em jogar bola e dar festas.  Deixo de lado as redes sociais e me volto para o projeto de máscaras de pano. Quando pretendi aprender a costurar, não imaginei que acabaria fazendo máscaras. Contudo, foi bem-vindo o aprendizado e a tarefa atendeu algumas famílias. 05 de abril (domingo)  Acordei muito indisposta e não quis abrir as mensagens de whats. Resolvi só […]

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Por Neila Prestes Araujo Este diário de hoje continua contando os dias de quarentena publicados pela autora na Matinal News. Depois do primeiro e do segundo relatos, Neila Prestes de Araujo traz mais um pouco de sua experiência na comunidade do bairro Restinga, em Porto Alegre. De 28 de março a 07 de abril Hoje retomo o diário. São 10 dias sem escrever e, em retrospectiva, faço este relato. Meu último movimento estava focado em ajudar na mobilização que se fazia no bairro. Para isso acreditei que era preciso um número de celular exclusivo e que eu seria capaz de lidar com as disputas entre as lideranças comunitárias.  Bem, a semana foi pesada.  Foram produzidas listagens de quem recebeu ajuda e de quem aguardava. Era preciso apoiar as lideranças na entrega das cestas doadas porque as discussões foram acirradas. Nessas horas há sempre muita opinião. Se dá um jogo político de autopromoção com a desgraça alheia. Houve denúncias de que gente de má índole percorreu os pontos de doação e recebeu mais de uma cesta básica. Isso acabou deixando outras famílias passando fome e no aguardo de ajuda.  Como eu disse, a semana inteira foi dura e serviu para aprofundar contradições na minha comunidade. Aqui sofremos com a falta de políticas públicas eficazes, com a incerteza das intenções políticas de parte das lideranças e com a cultura do benefício, da esperteza de alguns. Mesmo frente aos obstáculos, na listagem que digitalizei e encaminhei havia um número próximo de 70 nomes. Eram pessoas — chefes de família — que aguardavam ajuda no núcleo Fazendinha. Esse núcleo fica em um dos limites do bairro, no pé do Morro São Pedro e invade a área de Unidade de Conservação (UC). Ali o conflito é cruel. É o homem que avança sobre o território natural no limite da existência. Gente que vive entre a fome e a difícil condição de moradia. O que se vê na paisagem são casas precárias, esgoto e o pobre — personagem esquecido pelo governo. A crise nesse lugar já é fato há muito tempo. E se o coronavírus chega como algo assustador, ninguém ali acredita no seu perigo. Nessa área a comunidade não se mantém em isolamento e circula sem maiores preocupações. [Após a retrospectiva acima, a autora retoma a escrita separando por dia] 04 de abril (sábado) O fim de semana chega e meu estado físico passa a expressar o que o ocorre no emocional. Precisei dormir mais, minha irritação estava evidente. Então percebi que as disputas e os bate-bocas nos grupos de whats haviam tomado conta de mim. Larguei o celular.  O povo do bairro ainda insiste em jogar bola e dar festas.  Deixo de lado as redes sociais e me volto para o projeto de máscaras de pano. Quando pretendi aprender a costurar, não imaginei que acabaria fazendo máscaras. Contudo, foi bem-vindo o aprendizado e a tarefa atendeu algumas famílias. 05 de abril (domingo)  Acordei muito indisposta e não quis abrir as mensagens de whats. Resolvi só […]

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