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32 curtas sobre Nelson Freire

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32 curtas sobre Nelson Freire Cena do filme Nelson Freire (Reprodução)

É do próprio João Moreira Salles uma definição aproximativa de seu “Nelson Freire” (2003): “Trata-se de uma investigação em torno do pudor”. Ou, ainda segundo ele: “São 32 variações sobre o tema do amor”. Na verdade, a estreia do documentarista em longa-metragem para o cinema foi um pouco como o objeto do filme, o pianista mineiro Nelson Freire: uma obra reticente, sentimental, em constante recriação. Durante dois anos, a partir de 2000, o realizador do documentário televisivo “Notícias de uma Guerra Particular” (1999) filmou o músico em apresentações no Rio e em São Paulo e em turnê pela Europa – França, Bélgica e Rússia. Além de recitais, a câmera de Salles acompanhou um dos maiores pianistas do mundo em ensaios e na intimidade de hotéis, camarins e da casa no Rio. O quadro que se esboça em 102 minutos de imagens é uma aproximação respeitosa do universo reservado do artista – mas nem por isso menos revelador.

Dividido em 32 episódios, justapostos sem qualquer ordem cronológica ou intenção de percurso narrativo, “Nelson Freire”, o filme, coloca o espectador no círculo afetivo mais próximo de Nelson Freire, o homem. O retrato do artista marcou uma mudança na trajetória de Moreira Salles, que iria repercutir posteriormente por meio de uma projeção mais clara e consciente dos questionamentos, interesses e percepções do criador no objeto filmado, assumindo a primeira pessoa em narrações em voice over de “Santiago” (2007) e “No Intenso Agora” (2017) e adentrando resolutamente no cinema de ensaio de cunho confessional – um pouco à maneira da cineasta belga Agnès Varda. O efetivamente notável no filme, entretanto, é seu formato inusual.

Moreira Salles assume em “Nelson Freire” a referência à cinebiografia “32 Curtas Sobre Glenn Gould” (1993), de François Girard – o título é uma citação ao número das “Variações Goldberg”, conjunto de peças para cravo de Bach que era o tour de force do repertório do excêntrico pianista canadense. O brasileiro, porém, avançou na estrutura fragmentada: gravou cerca de 70 horas de imagens sem um plano definido de voo – menos ainda de aterrissagem. Moreira Salles recorda: “Não tinha roteiro nenhum. Fui filmando. O roteiro nasceu na sala de montagem. Por isso, o Felipe Lacerda, que é o montador, assina o roteiro comigo. Sabia que o filme seria não linear, feito de episódios que podiam se misturar de qualquer maneira”. O resultado no cinema é uma narrativa fluida, um documentário-mosaico que se assemelha a uma suíte impressionista – para voltar ao campo da música. No entanto, é na edição em DVD duplo lançada em 2004 que “Nelson Freire” cumpre plenamente sua vocação plural e cambiante: o disco digital oferece ao espectador as opções de assistir ao filme também na ordem que preferir – o menu divide o doc em capítulos – ou pelo modo shuffle ou randômico, que exibe as partes ao acaso, cada vez em uma sequência diferente, aleatória. Esse recurso possibilita assistir a um documentário ligeiramente distinto a cada vez que a função é acionada – as únicas regras fixas da programação são que o primeiro capítulo será sempre o que mostra os créditos de abertura e o epílogo trará toda vez as assinaturas de encerramento. No recheio, os infindáveis embaralhamentos possíveis das cenas transformam a produção em um caleidoscópio audiovisual mutante.

Esse singular dispositivo imprevisível – Moreira Salles afirmou que até então não tinha conhecimento de nenhum outro filme lançado assim em DVD – suscita uma série de interessantes e instigantes questões na relação autor, obra e espectador. Se por um lado a opção de ver os episódios na ordem que desejar faculta ao público deixar de lado a passividade para participar ao menos em parte da criação, território por princípio exclusivo do realizador, por outro o sistema randômico desestabiliza ainda mais as hierarquias: nem autor, nem espectador detêm a palavra final de “Nelson Freire”, que avança de forma livre como um improviso jazzístico – música de novo. Já a miríade de encadeamentos coloca em xeque tanto a autoria quanto a singularidade da obra: Moreira Salles perder parcialmente sua potência criadora, ao mesmo tempo em que o filme deixa de ser “único”, abrindo-se a um sem fim de associações estéticas e narrativas – permanecendo, portanto, inconcluso por definição. Nem sempre, obviamente, essa aleatoriedade combinatória – que lembra os métodos criativos de artistas como o compositor John Cage e o coreógrafo Merce Cunningham – resulta em uma experiência satisfatória. Erro e acerto, todavia, fazem parte do processo criativo e da própria existência – e, graças ao caráter inclusivo e permeável de seu projeto original, “Nelson Freire” encontra sempre alguma harmonia entre movimentos rápidos e lentos, cadências e aberturas, acordes e dissonâncias. “Nelson Freire” é uma rapsódia em forma de documentário que, na contramão da inclinação do gênero pela revelação, está mais interessada em deixar-se encantar pelo mistério que interpela do que em elucidá-lo.

  • Texto  publicado no livro “Documentário Brasileiro – 100 Filmes Essenciais” (Editora Letramento, 352 páginas, 2017), editado e publicado pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine)

Roger Lerina – Jornalista e editor do site www.rogerlerina.com.br

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