nossos mortos

Ivan Izquierdo: “A leitura é o melhor exercício para a memória”

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Ivan Izquierdo: “A leitura é o melhor exercício para a memória”

Naira
Esse cara estava aí dando sopa e ninguém foi entrevistá-lo. Eu premeditei procurá-lo alguns anos atrás, mas concluí que me faltava cacife pra bancar uma conversa de brasileiro x argentino. Me arrolhei. Mesmo porque tenho medo de neurocientistas: são eles que dão ordem de internação de desequilibrados mentais.
Agora que ele morreu irremediavelmente (onde foram parar suas memórias?!), pesco no arquivo de uns 8/10 anos atrás a crônica inspirada nas descobertas do nosso muy respeitado amigo/hermano Ivan. Ia colocá-la no Face, mas me lembrei do Matinal. Taí, ó. Se não cabe na tela, cabe na lixeira.
Um abraço, GH*

A memória mais tenra da maioria das pessoas habita um sótão abarrotado de objetos entre os quais avultam os livros-tesouros de ideias e palavras decifradas aos poucos com a ajuda dos pais, dos irmãos, da professora, dos jornais, das embalagens que circulavam dentro de casa e dos nomes dos estabelecimentos entrevistos nas ruas. 

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Naira
Esse cara estava aí dando sopa e ninguém foi entrevistá-lo. Eu premeditei procurá-lo alguns anos atrás, mas concluí que me faltava cacife pra bancar uma conversa de brasileiro x argentino. Me arrolhei. Mesmo porque tenho medo de neurocientistas: são eles que dão ordem de internação de desequilibrados mentais. 
Agora que ele morreu irremediavelmente (onde foram parar suas memórias?!), pesco no arquivo de uns 8/10 anos atrás a crônica inspirada nas descobertas do nosso muy respeitado amigo/hermano Ivan. Ia colocá-la no Face, mas me lembrei do Matinal. Taí, ó. Se não cabe na tela, cabe na lixeira. 
Um abraço, GH*

A memória mais tenra da maioria das pessoas habita um sótão abarrotado de objetos entre os quais avultam os livros-tesouros de ideias e palavras decifradas aos poucos com a ajuda dos pais, dos irmãos, da professora, dos jornais, das embalagens que circulavam dentro de casa e dos nomes dos estabelecimentos entrevistos nas ruas. 

Meio século depois, tudo isso tende a virar uma sopa de letrinhas, uma torre de babel ou uma completa algaravia ouvida em algum lugar público — o mercado público de Marrakesh, a praça de Veneza, o carnaval de rua em Salvador, os arredores do Maracanã em dia de Fla x Flu, as arquibancadas do Hipódromo de Buenos Aires em dia de GP Carlos Pellegrini. 

Mesmo que tudo volte no bojo de uma zoeira nos ouvidos, é bom lembrar nomes/marcas como Chocolate Neugebauer, Fósforos Beija-Flor e Querosene Jacaré. Foi num desses momentos mágicos-fugazes que Manuel Bandeira elevou à condição de poema as três mulheres do sabonete de Araxá.  

Ora, vamos lá: pegue seu lápis Johann Faber Nº 2 e uma folha de papel almaço e faça a lista dos nomes/marcas que habitam sua memória. Tipo rascunho que, depois, V. passará a limpo molhando a pena de sua caneta Compactor no vidro de tinta Parker (ou vice-versa). 

Ou datilografará em espaço dois na sua Olivetti portátil – ou naquela Remington pesadona? 

Ou digitará num arquivo Word em seu computador de mesa. Ou no seu laptop. Ou até no seu smartphone, transformará tudo imediatamente num “post” no Facebook ou quem sabe naquele “algo mais”, como prometeu Pelé em nome da Shell em algum momento de nossas vidas, isso quando havia logo ali um posto Ipiranga ou um tigre da Esso ou um simples posto Texaco ou Atlantic para que nossos pais pudessem abastecer seu calhambeque Chevrolet 1933, o primeiro carro da família Buscapé. 

Vida que segue mutante sempre. 

LEMBRETE DE OCASIÃO

“Há dois grandes grupos de memória que se podem subdividir ou não. Um é o da memória de procedimentos, de atos motores ou de concatenações de atos motores, como, por exemplo, saber escrever à máquina, saber nadar, esse tipo de coisas. Essa memória tem uma localização cortical em parte, pelo menos inicialmente, mas depois envolve os gânglios basais e o cerebelo. É a chamada memória procedural. Conhecemos as suas vias, a sua arquitetura, digamos, mas não quem a ‘habita’, não conhecemos muito bem como funciona. A outra é a memória declarativa, que é o que todos chamam comumente de memória. É a memória de fatos, de eventos, de sequências de fatos e eventos, de pessoas, de faces, de conceitos, de ideias etc. Esta é memória sobre a qual mais sabemos do ponto de vista bioquímico e neuroanatômico.”

Ivan Izquierdo, neurocientista argentino naturalizado brasileiro, em depoimento à Revista Argentina de Neurociencias (RAN) e reproduzido por http://www.cerebromente.org.br

*E-mail trocado entre Geraldo Hasse e a repórter Naira Hofmeister, do Matinal Jornalismo.


Geraldo Hasse é jornalista.

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