Nossos Mortos

A luz no protagonista se apagou

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A luz no protagonista se apagou

Conhecia Mauro Soares pouco. Assisti a muitas das peças em que ele atuou ou dirigiu, lembro-me de sua figura exuberante flanando na noite porto-alegrense desde os anos 1980. Mas nunca havia me aproximado dele – até ser convidado em 2015 pelo diretor Luciano Alabarse, então coordenador do Porto Alegre Em Cena, a redigir o volume dedicado ao ator que faria parte da coleção Gaúchos em Cena, editada pelo festival. Bá, quanto tempo eu perdi! Descobri que Mauro era uma criatura encantadora também fora do palco.

Minha primeira conversa com ele para o livro que acabei intitulando “A luz no protagonista” foi em 27 de março de 2015, Dia Internacional do Teatro. A data não foi escolhida por mim em função dessa efeméride, da qual sequer me lembrei quando toquei no interfone do apartamento do ator na Rua Santana, em Porto Alegre. (Ultimamente, Mauro morava na Rua Marechal Floriano Peixoto.) Meu entrevistado, porém, não parecia ter creditado tal coincidência ao acaso ao me saudar sorrindo na porta de casa, recebendo-me com essa informação.

Nas três longas entrevistas que tive com Mauro para a redação de seu perfil biográfico – que contou também com entrevistas e depoimentos de uma dúzia de amigos e colegas do artista, todos ligados ao mundo do teatro –, sentava-me na sala pequena e aconchegante, ele em uma poltrona, eu no sofá. Ao lado da poltrona, Mauro mantinha escorada a bengala, elegante como de resto o era toda sua figura. Filho de Iemanjá, o ator era zelador de santo e mantinha no fundo do apartamento um quarto de santo, decorado com estátuas e representações de orixás, onde jogava búzios e cartas – para si próprio, amigos e para quem pedisse a ele, sempre sem cobrar nada por isso.

Como qualquer alma admirável, Mauro era um personagem complexo e contraditório. Ator que não se furtava a qualquer desafio em cena, levava a vida pessoal com discrição – mantendo muitos segredos a salvo inclusive da curiosidade dos íntimos. Homem fortemente ligado à religião, nunca deixou de abraçar a mundanidade e o excesso. Vaidoso como um pavão com a aparência, não se importava em interpretar papéis secundários nas peças. Gregário por natureza, morava sozinho – ok, havia também os gatos com nomes de deuses hindus. Amante da vida, quase se matou de tanto beber.

Mauro também tinha suas idiossincrasias. Imune à nostalgia, guardava poucos registros do passado, como fotos ou programas de espetáculos – sua memória notável, porém, compensava em parte esse relativo desinteresse com o que já foi. A reserva quando falava dos pais e, especialmente, dos irmãos sinalizava que o assunto não lhe agradava muito. E havia também a célebre dúvida: qual era a idade de Mauro Soares? Ninguém sabia já que essa informação ele não revelava nem sob tortura. Com sua triste partida nesta quinta-feira (24/2), permito-me a indiscrição que não fiz nem no livro dedicado a ele e revelo o “Quarto Segredo de Fátima”: o ganhador de dois prêmios Açorianos de Melhor Ator Coadjuvante, pelo trabalho nas peças “Antígona” (2004) e “Ifigênia em Áulis + Agamenon” (2011), nasceu em Pelotas no dia 27 de fevereiro de 1952 – portanto, Mauro completaria 70 anos neste domingo.

Quase sempre coadjuvante, Mauro Soares era daquela rara estirpe de bichos de palco que capturam o olhar da plateia assim que entram em cena. Não importava que estivesse no canto do cenário, atrás dos atores principais, esperando pacientemente sua deixa. Mauro não precisava nem abrir a boca para que o público notasse sua presença e sentisse que qualquer coisa no ar mudara desde que aquele tipo – “qual é mesmo o nome dele?” – surgira. Mauro tinha “gravitas”.

Talvez seja por isso Mauro Soares nunca tenha se preocupado muito em fazer papéis de protagonista em mais de 50 anos de carreira. Sabia que de qualquer forma a luz estaria sempre nele.


Roger Lerina é jornalista cultural, fundador e editor neste site.

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